Por difught

O outono é a época ideal para um passeio na floresta, respirar os aromas da natureza e sentir o cheiro a terra húmida que se mistura com as folhas caídas e que enchem a paisagem de mil cores. Num desses passeios outonais, preste atenção ao solo e repare nos cogumelos que se escondem entre as folhas e raízes das árvores.

Se não percebe nada de cogumelos, para além de saboreá-los no prato, saiba que nunca é demasiado tarde para descobrir um interesse pela micologia, como aconteceu com José Mata, que começou a interessar-se por cogumelos com 56 anos.

Por Galyna Andrushko

Foi há 14 anos que José Matos comprou uma quinta no Alcaide, no concelho do Fundão, e no seu primeiro outono aí começaram a aparecer vários cogumelos. Como não tinha conhecimentos suficientes para identificar e distinguir os cogumelos comestíveis dos tóxicos, começou por fazer um passeio micológico e desde então nunca mais parou de explorar e estudar sobre micologia.

Hoje em dia, José Matos é micólogo e faz passeios micológicos na sua propriedade para quem quer aprender a identificar, fotografar e degustar cogumelos silvestres da serra da Gardunha, um local que ainda preserva grande parte da floresta mediterrânica original e onde é possível encontrar mais de 400 espécies diferentes de cogumelos.

Assim, José Matos deixa alguns conselhos para quem se quiser aventurar na apanha de cogumelos.

1. “Primeiro é preciso aprender”

Para José Matos, é fundamental “aprender a conhecer os cogumelos”, uma vez que “não há nenhuma regra para determinar quais são os comestíveis e quais são os tóxicos”. Por isso, é necessário fazer alguns passeios micológicos para aprender a distinguir os cogumelos que se podem comer dos que podem ser mortais e aprender a identificá-los.

2. Na dúvida, não coma!

“É muito perigoso alguém comer cogumelos que não sabe e que não conhece porque às vezes pequenas diferenças podem dar grandes desastres”, afirma José. Na verdade, se não conhece ou tem dúvidas sobre determinado cogumelo, não deve sequer colher o cogumelo e assim não tem a tentação de o consumir.

3. Não apanhar cogumelos demasiado imaturos

Os cogumelos demasiados jovens ou imaturos são mais difíceis de identificar e ainda não libertaram os esporos, servindo também menor quantidade de produto a consumir.

Por outro lado, os cogumelos em estado adiantado de maturação podem ser indigestos, devendo deixar-se no local sem perturbação para que dissemine os seus esporos, garantindo a propagação da espécie no desenvolvimento de novos micélios.

4. Usar sempre cestos de vime para transportar os cogumelos

O cesto além de permitir o arejamento, também permite a disseminação dos esporos libertos pelos cogumelos colhidos. O uso de latas, baldes e sacos de plástico são totalmente desaconselhados.

5. Utilizar apenas utensílios ou ferramentas que não removam o solo

Deve utilizar-se apenas um pau com ponta afiada ou um formão, de forma a levantar ou destacar os cogumelos sem remover ou perturbar o solo, evitando assim a destruição local do micélio, que poderá produzir outros cogumelos no mesmo local e no mesmo ano.

6. Não lavar os cogumelos

“Há certos cogumelos que se pode dar uma lavagem rápida, mas a maioria deles, como já têm 80% de água, se os molharmos ficam moles”, explica o micólogo.

Após a colheita, os cogumelos devem ser limpos com um pincel de pêlo de javali antes de serem colocados na cesta. Posteriormente, podem ser limpos também com um pano húmido ou com uma esponja para retirar os detritos.

7. Não destruir outras espécies de cogumelos (comestíveis ou não comestíveis)

No caso de cogumelos comestíveis não apreciados, devem deixar-se intactos uma vez que poderão interessar a outros que os apreciam.

Relativamente aos cogumelos não comestíveis e até os venenosos, também têm funções ecológicas benéficas para a floresta e para o ambiente, dado que alguns deles participam na remoção de alguns produtos contaminantes. Todos têm a sua função para manutenção da biodiversidade e desenvolvimento vegetal.

8. Não colher grandes quantidades de cogumelos

É importante não apanhar a totalidade dos cogumelos que vê na floresta, deixando alguns para que cumpram a função de reprodução.

9. Não colher cogumelos em zonas contaminadas, áreas industriais e bordas de estradas

Os cogumelos nestas zonas podem conter resíduos tóxicos e ou metais pesados, dado que os fungos têm a capacidade de remover esses elementos que são perigosos para a saúde humana.

Não se deve apanhar cogumelos em zonas onde se pratique agricultura intensiva com recurso a agroquímicos ou atividades pecuárias intensivas. Também não é aconselhável colher cogumelos em locais onde tenham ocorrido incêndios, devido à presença de substâncias tóxicas utilizadas para apagar incêndios.

10. Respeitar e proteger a floresta

Para José Matos, os maiores inimigos da riqueza micológica que ainda podemos encontrar nas florestas portuguesas são a desflorestação e os incêndios. Porque “qualquer floresta só é saudável se tiver cogumelos e os cogumelos também só aparecem se houver árvores”, explica o micólogo.

A conclusão parece óbvia: “Quanto mais árvores abaterem, menos cogumelos temos aqui”. Por isso, José Matos apela para que se implementem medidas que regulem e protejam a riqueza micológica que existe em Portugal.

Em caso de intoxicação contactar o Centro de Informação Antivenenos (800 250 250) ou o serviço de urgência 112.

Para mais informações, consultar o Manual de Boas Práticas de Colheita e Consumo de Cogumelos Silvestres.

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