Palácio da Independência. Por Marcin Latka

Conta a História que no dia 1 de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, caiu literalmente o Carmo e a Trindade, expressão popular que hoje em dia usamos quando queremos referir-nos a factos que provocam grande surpresa ou confusão ou, em tom de ironia, a factos sem importância de que se receiam consequências graves.

Mas o sismo que abalou Lisboa em 1755, considerado um dos maiores da história da humanidade e o mais destrutivo de que há registo em Portugal, não destruiu apenas os conventos do Carmo e da Trindade. Praticamente toda a área que hoje é ocupada pela Baixa Pombalina ficou destruída.

Durante vários minutos a terra tremeu, derrubando edifícios por toda a cidade e soterrando milhares de pessoas. Hoje em dia, há estudos que concluem que o sismo terá atingido os nove graus na escala de Richter, que vai de 1 a 10.

Poucos minutos depois do sismo, a cidade foi inundada por um tsunami que varreu o Terreiro do Paço e subiu até algumas das partes mais altas da cidade, matando ainda mais pessoas. Depois do tsunami, seguiram-se os incêndios que destruíram alguns dos edifícios mais icónicos da cidade que tinham resistido ao sismo e ao tsunami.

Na Baixa, ruíram edifícios importantes como o Teatro da Ópera, o Palácio Real e o Arquivo da Torre. Ao todo, terão morrido entre 12 mil e 15 mil pessoas e cerca de 10 mil prédios transformaram-se em destroços.

No entanto, nem todos os edifícios desapareceram neste fatídico dia. Pelos bairros históricos de Lisboa, como a Mouraria, Alfama e Bairro Alto, ainda encontramos edifícios que sobreviveram ao terramoto de 1755. Selecionamos sete edifícios que se mantiveram de pé e têm gravados nas suas paredes ecos do passado e histórias para contar.

1. Casa na Rua dos Cegos

Por TukTuk Road - Lisbon Tour

É em Alfama que encontramos aquela que é considerada a casa mais antiga da capital. Fica na Rua dos Cegos e resistiu ao terramoto de 1755 e às adversidades, tornando-se uma das relíquias da cidade. Os sólidos alicerces da casa quinhentista na colina mais alta da cidade terão sido os responsáveis por mantê-la de pé.

Entre as características que identificam a arquitetura medieval da casa mais antiga de Lisboa, está o ressalto do primeiro andar. Apesar de hoje serem raras na cidade, a casa encontrava-se rodeada de várias outras que vieram a baixo na década de 1940. A fachada adornada com um painel de azulejos do século XX em estilo seiscentista marcam o tipo de construção típico do bairro de Alfama.

2. Casa-Museu Amália Rodrigues

Por Hipersyl

É num edifício pré-pombalino no número 193 da Rua de São Bento que fica hoje em dia a Casa e Fundação Amália Rodrigues. De acordo com a Fundação, este é um edifício que data de 1693 e, portanto, anterior ao terramoto de 1755.

O maior nome do fado viveu meio século nesta casa amarela e o espaço mantém-se como Amália o deixou. A casa-museu está aberta para visitas guiadas, onde poderá fazer uma verdadeira viagem à vida de Amália Rodrigues e a este edifício emblemático da cidade.

3. Igreja de São Roque

Por Mister No

Mandada edificar no final do século XVI, em colaboração de Afonso Álvares e Bartolomeu Álvares, a Igreja de São Roque foi um dos poucos edifícios que sobreviveu sismo de Lisboa.

De estilo maneirista e barroco, foi a primeira igreja em Portugal da Companhia de Jesus, ligação que se manteve durante dois séculos, até à expulsão dos jesuítas do país, no século XVIII. Foi também uma das primeira igrejas jesuítas em todo o mundo.

Poderá visitar a igreja e apreciar a fachada simples e austera e o interior com talha dourada, pinturas e azulejos dos séculos XVI e XVII, assinados por Francisco de Matos.

4. Aqueduto das Águas Livres

Por Martinvl

Mandado construir por D. João V, no século XVIII, o Aqueduto das Águas Livres é um complexo sistema de captação, adução e distribuição de água à cidade de Lisboa, tendo origem na nascente das Águas Livres, em Belas, Sintra.

Para além de ser uma importante obra de engenharia de estilo barroco e neoclássico, é uma das obras mais emblemáticas e grandiosas da cidade e nem o terramoto conseguiu destruir.

5. Igreja de São Cristóvão

Por Hipersyl

O terramoto de 1755 causou poucos estragos, apenas nas torres, mantendo-se a fachada maneirista da Igreja de São Cristóvão característica do século XVII. Apesar de ter sobrevivido ao sismo, hoje em dia o templo localizado no topo das Escadinhas de São Cristóvão necessita de ser preservado e por isso entrou para a lista bienal do World Monuments Watch, uma lista de monumentos em risco por todo o mundo.

A igreja está cheia de tesouros, entre eles mais de 40 telas de Bento Coelho da Silveira e a Capela dos Miranda, uma família nobre que aqui construiu túmulos no século XV.

6. Palácio da Independência

Por Marcin Latka

Também conhecido como Palácio da Restauração, pois foi nesta casa que D. Antão de Almada e os 40 conjurados planearam a última reunião que deu origem à Restauração da Independência de Portugal, no dia 1 de dezembro de 1640, com o fim da dinastia filipina e com a aclamação de D. João IV.

O edifício foi pouco afetado pelo terramoto de 1755 e chegou mesmo a acolher alguns doentes do vizinho Hospital de Todos os Santos. Ao longo dos tempos teve várias funções, como Casa da Suplicação, Depósito Público da Côrte ou mesmo o Arquivo Municipal de Lisboa. Em 1983, foi cedido à Sociedade Histórica da Independência de Portugal.

7. Casa dos Bicos

Por Felipe Gabaldón

Este edifício construído em 1523 a mando de D. Brás de Albuquerque não sobreviveu completamente ao terramoto de 1755. O sismo destruiu os dois pisos superiores que ruíram e só nos anos 80 é que foi desenhado o plano de recuperação da Casa dos Bicos.

O projeto do arquiteto Santa Rita adaptou a Casa dos Bicos às atuais funções museológicas, acrescentando os dois andares em falta, com a ajuda de imagens antigas de Lisboa. Em 2012, transformou-se na sede da Fundação José Saramago, um espaço público onde acontecem exposições, recitais, conferências, cursos ou seminários.

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