Por Dudarev Mikhail

livros que pela forma como descrevem a paisagem, os lugares e o ambiente transportam-nos para o sítio onde a ação se desenrola. Os livros são uma ótima forma de viajar sem sair de casa, mas também servem para nos inspirarmos a viajar e conhecer lugares que outrora descobrimos nas páginas de um livro.

Ler um livro sobre o local que queremos visitar é uma boa maneira de prepararmos a viagem, de nos inspirarmos, para que possamos aproveitar completamente todos os recantos do destino, estar atento a pormenores e enriquecer a experiência com significados que vão para além dos habituais guias de viagem. Sugerimos-lhe uma lista de 7 livros que contam histórias passadas em Portugal e que podem inspirá-lo para o seu próximo destino.

1. “Viagens na Minha Terra”, Almeida Garrett

Vista do rio Tejo desde Santarém. Por Fulviusbsas

“Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, foi publicado em livro pela primeira vez em 1846 e é talvez a obra mais importante do romantismo português. Na obra misturam-se o estilo digressivo da viagem real que o autor fez de Lisboa a Santarém e a narração novelesca em torno de Carlos e Joaninha.

Para além da descrição da viagem, o livro traça também um retrato da situação política e social do país numa altura em que Portugal acaba de sair da guerra civil entre miguelistas e liberais. “Viagens na Minha Terra” é um marco para a prosa moderna portuguesa e um importante documento de referência para entender a decadência do império português.

2. “A Cidade e as Serras”, Eça de Queiroz

Casa de Tormes, em Santa Cruz do Douro, cenário da obra “A Cidade e as Serras”. Por Vitor Oliveira

Publicado em 1901, este é um romance que pertence à última fase de Eça de Queiroz, onde este se afasta do realismo e abandona a crítica pesada que fazia à sociedade portuguesa da época. Em “A Cidade e as Serras”, Queiroz faz uma comparação entre a vida módica e agitada de Paris e a vida tranquila e pacata na cidade serrana de Tormes, no Douro.

Neste romance denso e belo, o autor relata a história de Jacinto de Tormes, apresentando um ponto de vista firme, depreciando a civilização da cidade e fazendo um elogio aos valores da natureza. Numa das obras mais importantes de Eça de Queiroz, o escritor relata a travessia do protagonista, um ferrenho adepto do progresso e da civilização, da cidade para as serras. Jacinto de Tormes troca o mundo civilizado, cheio de comodidades provenientes do progresso tecnológico, pelo mundo natural, selvagem, primitivo e pouco confortável, no sentido dos bens que caracterizam a vida urbana moderna. No campo, Jacinto encontra a felicidade, mudando radicalmente de opinião.

3. “As Ilhas Desconhecidas”, Raul Brandão

Miradouro da Ponta da Ferraria, Ponta Delgada. Por José Luís Ávila Silveira/Pedro Noronha e Costa

De uma viagem aos arquipélagos dos Açores e Madeira em 1924 nasceu o livro “As Ilhas Desconhecidas”, um dos mais originais exemplares da escrita de viagem. Raul Brandão traduz a beleza das ilhas num livro editado em 1926, numa espécie de diário impressionista das paisagens insulares. O escritor Raul Brandão partiu de Lisboa a bordo do navio São Miguel com 57 anos de idade e começou a descrever a vida a bordo do vapor e a paisagem mutante que os mares e os céus ofereciam.

Nesta obra, descrita como um dos mais belos livros de literatura de viagem, o autor capta a essência das ilhas atlânticas, as cores que predominam nos Açores, a natureza fulgurante e o lado mais sombrio dos ciclones e da caça às baleias. Quando o navio atraca, Raul Brandão descobre, em cada porto, mundos isolados, cenários de gente pobre e humilde, as mesmas que conhece da infância na foz do Douro, onde nasceu filho e neto de pescadores.

4. “Viagem a Portugal”, José Saramago

Castelo de Castro Laboreiro. Por Harpagornis

Entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago percorreu o país de lés a lés. Após esta viagem, que se tornou um misto de crónica, narrativa e recordações, o autor disse que “o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite… É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos”. “Viagem a Portugal” é uma coleção de crónicas de José Saramago publicado em março de 1981.

A obra foi escrita ao longo da sua viagem por todas as regiões de Portugal continental. Para além de nos dar a conhecer as localidades portuguesas e o seu encanto, Saramago vai-nos transmitindo opiniões e leituras acerca daquilo que encontra, como monumentos, paisagens, quadros. Este não é um guia turístico tradicional. Em “Viagem a Portugal”, Saramago leva-o a conhecer o autêntico rosto de uma terra inesgotável, por caminhos humanos e naturais.

5. “Galveias”, José Luís Peixoto

Galveias. Por Vitor Oliveira

“Galveias” é considerado um dos grandes romances algumas vez escritos sobre a ruralidade portuguesa. O autor, José Luís Peixoto, revisita Galveias, a pequena aldeia no Alentejo onde nasceu, e faz uma reflexão sobre a identidade lusitana. A partir das suas memórias de infância, o escritor constrói neste romance o universo de um lugarejo quase parado no tempo, que subitamente se vê diante de um imenso mistério.

Neste romance com grandes histórias e um elenco de personagens admiráveis, José Luís Peixoto traça um retrato da vida rural portuguesa no início dos anos 80, que vivia então um embate entre a tradição e a inevitável chegada da modernidade, num momento economicamente difícil para o país. O autor dá voz a um Portugal rural que muitas vezes é esquecido.

6. “Açores: O Canto das Ilhas”, Carlos Pessoa

São Miguel, Açores. Por Danaan

“Açores: O Canto das Ilhas” nasce das viagens e pesquisas do jornalista Carlos Pessoa no arquipélago ao longo de mais de 30 anos. Este livro de viagens é feito da procura do lugar próprio de cada ilha e do seu lugar no todo. Cada relato é feito numa perspetiva pessoal de vivências e descobertas, com o intuito de não ser apenas um mero guia indicativo de sugestões e indicações de passeio.

Carlos Pessoa leva-nos a passear pelas cidades e pelo campo pelo mar e pelas maravilhas naturais, mas também nos leva a viajar pela história e geografia, pela sociedade, tradições e modernidade, pelas idiossincrasias insulares. Para além do vasto conhecimento do autor, a viagem vai sendo enriquecida com referências documentais e com encontros com açorianos que marcam a vida das ilhas das mais variadas formas e em vários tempos.

7. “Estrada Nacional 2: Sobre Rodas”, Sérgio Amaro Bastos

Por DrNOFX97

Para os mais aventureiros, sugerimos-lhe um livro que o vai levar a percorrer o país em bicicleta. Baseado na experiência pessoal de Sérgio Amaro Bastos, o autor convida a percorrer a Estrada Nacional 2 que atravessa Portugal inteiro, partindo de Chaves e descendo até Faro. Este é um roteiro sobre duas rodas que pretende ser muito mais do que um simples guia turístico.

São 720 km de referências culturais incontornáveis que fazem parte da via rodoviária mais vertebral do país. Há apontamentos geográficos relevantes (não fosse o autor professor de geografia), mas também há um retrato humano das gentes que habitam este Portugal interior, genuíno e diverso. Este livro pretende despertar-lhe a curiosidade e desafiá-lo a partir à descoberta da alma do país.

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