Por Rosino

A filigrana não é algo exclusivo de Portugal nem foi inventado pelos portugueses. Desde a antiguidade greco-romana que esta arte de trabalhar o ouro e a prata através de delicados fios é utilizada na joalharia, tendo sido também usada numa grande variedade de objetos decorativos. Contudo, enquanto que noutros países a tradição da filigrana se foi perdendo, em Portugal foi-se apurando. A partir do século XVII, a filigrana portuguesa já tinha construído um caminho muito próprio e assentava em moldes muito diferentes de qualquer outra filigrana.

Para conhecermos a origem da filigrana temos que viajar até à Mesopotâmia, no terceiro milénio antes de Cristo. As peças mais antigas datam de 2500 a. C. e foram descobertas no atual Iraque. Na Síria, foram encontradas peças de aproximadamente 2100 a.C..

As rotas comerciais no mar Mediterrâneo fizeram com que a filigrana chegasse às civilizações Grega e Romana. Foi em Itália que se descobriram as peças mais antigas de joalharia em filigrana, estimando-se que sejam do século XVIII a.C.. Acredita-se que a própria palavra “filigrana” teve origem durante o Império Romano.

A palavra filigrana deriva do latim filum que significa fio e granum que quer dizer grão. Portanto, trata-se de um fio granulado. Esta definição surge pela aparência granulada que pode apresentar a superfície de algumas peças clássicas.

Mas a arte da filigrana foi mais além e cruzou fronteiras até à Índia e China, onde era usada sobretudo como elemento decorativo e não como joalharia. Na Península Ibérica, as peças mais antigas em filigrana remontam a 2000-2500 a.C.. Contudo, acredita-se que estas peças pertenciam a comerciantes ou navegadores vindos do Médio Oriente, portanto, não teriam sido fabricadas aí.

Por Ss.analuisa

Na verdade, é apenas no século VIII d.C. que podemos dizer com certeza que a filigrana estava a ser desenvolvida e produzida em Portugal. Com a chegada dos povos árabes surgiram novos padrões, fazendo com que a filigrana da Península se diferenciasse da de outras partes do mundo.

Contudo, a filigrana dos séculos passados não era igual à que conhecemos atualmente. Os padrões e o seu uso era diferente, mas as técnicas utilizadas eram muito semelhantes. Porque a filigrana distingue-se de outras técnicas pela forma como os diferentes fios finos desenham padrões e são soldados conjuntamente de maneira a criar uma peça muito maior.

Nenhuma outra arte de joalharia usa uma técnica de fusão semelhante para juntar fios de ouro. Hoje, assim como há milhares de anos, os diferentes fios que compõem cada peça unem-se apenas pelo calor, sem recorrer a nenhum outro material ou liga.

Existem dois tipos de filigrana: a filigrana de aplicação, que é utilizada para decoração, e a filigrana de integração, que constrói o próprio objeto unicamente em filigrana. Os fios são torcidos, batidos e levados ao lume para ficarem moles e finos. Posteriormente, são limpos e ficam prontos para os artesãos.

Póvoa de Lanhoso, na terra do ouro

Por Museu do Ouro

Em Portugal, hoje em dia, as peças de filigrana podem ser encontradas especialmente na região norte do país, usadas frequentemente no conjunto do vestido de noiva tradicional e, ainda, no traje feminino dos ranchos folclóricos do Minho. Mas é na Póvoa de Lanhoso que a arte do ouro se expressa com características próprias e únicas no mundo da ourivesaria.

Considerada a terra do ouro, é na Póvoa de Lanhoso que, desde há muitos anos, os artesãos trabalham delicados fios de ouro utilizando a arte da filigrana. Aqui, são produzidos anéis, brincos, pulseiras, colares, entre outros.

Com muita paciência, imaginação e habilidade, as pessoas que trabalham neste ofício fazem-no geralmente em pequenas oficinas, que se dedicam à produção de pequenas quantidades de peças vocacionadas para modelos e técnicas de grande tradição.

Preservando um forte cunho artesanal e assumindo-se como uma atividade importante na economia da região, a arte da filigrana representa um valioso património.

A filigrana portuguesa representa essencialmente a natureza, a religião e o amor. O mar é representado com peixes, conchas, ondas e barcos. As flores, os trevos e grinaldas simbolizam a natureza. Para representar os motivos religiosos, encontramos as cruzes, como a cruz de Malta e os relicários.

Coração de Viana

Por Ss.analuisa

Ao contrário do que se poderia pensar, o coração de Viana não teve como propósito ser um símbolo de amor, mas sim um símbolo de dedicação e de culto do Sagrado Coração de Jesus. Terá sido a rainha D. Maria I que, grata por lhe ter sido concedido um filho varão, mandou executar um coração em ouro. Hoje em dia, o coração é tão popular e reconhecido que é utilizado também em lenços e bordadas em todo o tipo de tecidos.

Brincos rainha

Por Claudiacsfernandes

É quase unânime que os brincos rainha apareceram em Portugal durante o reinado de D. Maria I. Contudo, a origem do nome parece remontar ao reinado de D. Maria II, que usou um par destes brincos numa visita a Viana do Castelo em 1952. Depois desta visita, popularizaram-se como símbolo de riqueza e de estatuto.

Arrecadas

Por Museu do Ouro

As arrecadas começaram por ser os brincos da população mais humilde e que as classes mais privilegiadas começaram a imitar. Na sua origem estavam as arrecadas Castrejas, com inspiração no quarto crescente da lua.

Colares de contas

Por Feliciano Guimarães

As contas de Viana descendem das contas gregas, uma vez que são ocas por dentro, o que as torna leves e perfeitamente esféricas. Surgiram pela dificuldade em comprar um colar inteiro em filigrana, por isso as mulheres iam comprando conta a conta até conseguir fazer um fio inteiro.

Uma tradição que atravessa gerações

Sala de Exposições Temporárias do Museu do Ouro de Travassos. Por Museu do Ouro

Para preservar esta arte, foi criado em Travessos o Museu do Ouro, inserido na Casa de Alfena. A casa foi construída no século XVIII por José da Silva, que tinha como apelido “o alfena”. A propriedade permaneceu na família de ourives até aos dias de hoje e quando em 2001 recuperam a casa para turismo de habitação também recuperaram as antigas oficinas, transformando-as num espaço museológico.

Atualmente, é o tetraneto de José da Silva, Manuel Sousa, que gere o alojamento rural e o museu e que nos conta que o seu pai, Francisco de Carvalho e Sousa, sempre teve a ideia de fazer um museu. O ourives juntou, ao longo de 50 anos de atividade, objetos de ouro, utensílios, mobiliário e bibliografia relativos à arte.

Oficina do Museu do Ouro de Travassos. Por Museu do Ouro

O museu é um espaço que pretende refletir e promover a identidade de uma comunidade ligada ao trabalho do ouro, desde tempos ancestrais. Manuel Sousa explica que quando abriram o museu havia cerca de 40 oficinas de ourives em Travassos, contudo, hoje esse número é muito menor.

O Museu do Ouro de Travassos poderá ser visitado através de marcação prévia, onde poderá ainda assistir a um workshop com um ourives que executa um coração de filigrana.

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