Grande Sanatório do Caramulo. Por André Ramalho, abandonados.pt

A tinta estalada, os tetos caídos, os vidros partidos, os cadeados enferrujados são tudo sinais do abandono a que foram votados alguns dos sanatórios do Caramulo. Já pouco ou nada resta da glória que se viveu naquela que foi a única vila portuguesa planeada de raiz.

Criado em 1921, o Caramulo foi uma vila pioneira em Portugal relativamente ao saneamento, eletricidade a partir de uma barragem própria, rede de esgotos com ETAR, sistema de recolha de lixo com forno crematório.

Por trás de tudo isto estava um homem visionário: Jerónimo de Lacerda, o médico que descobriu no princípio do século XX as virtudes do clima de Paredes do Guardão, como era conhecida na época a vila do Caramulo, no município de Tondela.

Grande Sanatório do Caramulo

Grande Sanatório do Caramulo. Por André Ramalho, abandonados.pt

Quando Jerónimo de Lacerda abriu o Grande Hotel, em 1922, estava longe de imaginar que estava a fazer história em Portugal. Na época, a preocupação do médico era receber hóspedes convalescentes para que pudessem usufruir dos “bons ares” da serra.

Depois do hotel construído a 800 metros de altitude – que passou a sanatório seis anos depois, quando começou a receber doentes com tuberculose -, vieram outros edifícios (entre sanatórios, enfermarias, casas de saúde e pavilhão de cirurgia), restaurantes, cafés, cinema e até uma estação de rádio.

No início dos anos 30, as estatísticas oficiais apontavam para 13 mil mortes anuais em Portugal. Com a Guerra Civil de Espanha, primeiro, e a Segunda Guerra Mundial, mais tarde, muitos tuberculosos dos grandes sanatórios europeus rumaram a Portugal.

Grande Sanatório do Caramulo

Grande Sanatório do Caramulo. Por André Ramalho, abandonados.pt

Foi assim que se iniciou o progressivo crescimento de uma estância de tratamento de doenças pulmonares que, na sua fase de apogeu, ostentava 19 grandes sanatórios, orgulhando-se de ser a maior estância da Península Ibérica e a segunda a nível europeu.

Na década de 1950, o Caramulo vivia os seus anos de fulgor. De uma terra rural onde no início do século existiam apenas algumas casas e construções simples para comércio e acolhimento de doentes em convalescença, a vila transformou-se num centro de combate à tuberculose.

O princípio do fim

Grande Sanatório do Caramulo

Grande Sanatório do Caramulo. Por André Ramalho, abandonados.pt

A partir dos anos 60 a doença começou a dar sinais de fraqueza. Com a progressiva erradicação da doença e a descoberta de novos tratamentos, a estância foi desativada, e aos poucos foram sendo encerrados e abandonados os sanatórios do Caramulo.

O último sanatório fechou as portas em 1986, dando fim a uma crise que se vinha acentuando há décadas e que passava pela degradação patrimonial e pela total desagregação económica e consequente abandono populacional.

Grande Sanatório do Caramulo

Grande Sanatório do Caramulo. Por André Ramalho, abandonados.pt

Mas nem todos os edifícios ficaram em ruínas. Nos anos 90, o Sanatório Salazar, na altura destinado a membros do exército, transformou-se no Hotel do Caramulo. O sanatório ao lado é hoje a casa do Instituto de Prevenção do Stress e Saúde Ocupacional. Houve outros empreendimentos que foram transformados em prédios de habitação e lares de terceira idade.

Três foram demolidos porque havia o risco de desabarem, os restantes seis continuam por lá esquecidos (mais dois que estão em parte em ruínas). No sanatório infantil, por exemplo, ainda sobrevive a estrutura de um dos baloiços exteriores, no Pavilhão de Cirurgia ainda por lá se encontra uma enferrujada maca.

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