Magazine Natureza A Ericeira e o mar das sete ondas

A Ericeira e o mar das sete ondas

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Praia da Ribeira d'Ilhas
Praia da Ribeira d’Ilhas. Por MiguelG

Foi ao som das gaivotas que fomos recebidos na Ericeira. O mar estava revolto e a impor respeito. O céu ameaçador e a pedir o fecho do agasalho. Até as gaivotas procuravam abrigo nesta terra de gentes do mar, falamos de pescadores e de surfistas. ‘Gaivotas em terra, sinal de vendaval’, lá diz o ditado. Mas estava linda a imagem. Ali sente-se a força da natureza. Sobretudo no inverno.

Chegámos numa manhã fria, nos antípodas da época alta desta vila localizada a 35 quilómetros acima de Lisboa, a 18 quilómetros de Sintra e a 8 quilómetros de Mafra. Viajámos pela Nacional 247, uma estrada que atravessa terras e terriolas até chegar ao mar. Mas também pode vir pela A21 e chegar rapidamente ao centro da Ericeira. Preferimos esta entrada pelo sul da vila. Uma paragem num miradouro permite-nos as primeiras fotos, aquelas que constam dos postais da Ericeira, com o mar à esquerda e o recorte dos casarios a sobrancearem-se sobre o mar à direita.

Ericeira
Ericeira. Por Vitor Oliveira

Outrora chamada Ouriceira, consta que o seu nome deriva dos inúmeros ouriços-do-mar presentes na sua costa e que fazem parte do roteiro gastronómico dos muitos dos que visitam esta pitoresca vila do concelho de Mafra. Mas esta é uma versão. Outras linhas de investigação ditam que o nome foi dado a esta povoação pelos ouriços que vivem em terra, os cacheiros. Seja como for, que é terra de ouriços ninguém duvida.

Ouriço do mar
Ouriço-do-mar. Por Pixabay

E é terra de ondas também. Ou melhor, é mar de ondas. Tem sete identificadas em quatro quilómetros, que são Reserva Mundial de Surf desde 2011, epíteto atribuído pela organização internacional Save the Waves Coalition. É a segunda reserva distinguida a nível mundial, permanecendo a única da Europa até hoje. Os critérios que conduziram ao seu reconhecimento oficial foram a qualidade e a consistência das ondas, a importante história e cultura de surf local, a riqueza e sensibilidade ambiental da área e, ainda, a forte mobilização da comunidade.

A Reserva Mundial de Surf da Ericeira estende-se entre as praias da Empa e de São Lourenço, numa faixa costeira que concentra sete ondas de classe mundial neste espaço de apenas oito quilómetros.

Uma visita ao Centro de Interpretação do Surf, localizado no centro da vila, na Praça da República, permite descobrir tudo sobre elas, que umas são boas para os iniciados, outras apenas para os afoitos e profissionais, que umas viram sempre à esquerda ou que outras despejam sempre uma enorme massa de água. Há ondas para servir todos os gostos, o que explica a Ericeira como a Meca do surf em Portugal, desde que na década de 1970 começaram a chegar os primeiros surfistas a estas praias.

O Guardião na Ericeira
Estátuta do Guardião da Reserva Mundial de Surf da Ericeira. Por MiguelG

Quer saber os nomes destas ondas? Cá vai: Pedra Branca, Reef, Ribeira d’Ilhas, Cave, Crazy Left, Coxos e São Lourenço. A Cave é só para profissionais, é a mais perigosa porque parte de uma súbita placa de recife que não conecta com a terra e que provoca uma sucção de água e um tubo só surfável por experientes, e mesmo estes com proteção. Por outro lado, a Ribeira d’Ilhas é a mais popular, ficamos a saber. A praia que deu nome à onda tem a configuração de um anfiteatro natural. Recebe todo o tipo de ondulações e funciona com todas as marés, ou seja, a natureza criou o palco ideal para os campeonatos de surf, nacionais e mundiais, que por aqui passam.

Prosseguimos o nosso passeio em direção às Furnas, bem junto ao mar. Dizem que era aí que os mariscadores guardavam o marisco apanhado para se manter fresco, em sulcos criados nas rochas. Hoje já só servem para tirar fotos e apreciar esta beleza da natureza que é o mar da Ericeira.

Fonte na Ericeira
Fonte na Ericeira. Por MiguelG

Prosseguimos. Esta pacata vila descobre-se muito bem a pé. É, aliás, desta forma que se descobrem cantos e recantos de casinhas brancas com barras azuis e azulejos. Muitos azulejos adornam as casas mais antigas. Também nos deparamos com fontes que nos remetem para um passado em que a água potável era escassa e partilhada entre todos. Esta vila é muito antiga e preserva os seus valores que lhe dão alma.

A Ericeira é terra de pescadores. Foi assim que foi erigida. Mas hoje em dia é terra de surfistas. Desde a década de 1970 que os navegantes das ondas descobriram o valor destas águas. Tem inúmeras praias, sendo a mais conhecida a Ribeira d’Ilhas, pelos motivos de que já falámos, e a praia da Empa. É nesta zona das duas praias vizinhas que se realiza a maioria dos campeonatos de surf, nacionais e internacionais, que por aqui passam. Mas vale a pena uma visita também às praias dos Pescadores, do Algodio, do Sul, e do Norte.

Furnas
Furnas. Por MiguelG

Uma curiosidade histórica em relação à praia dos Pescadores. Foi daqui que, a 5 de outubro de 1910, embarcou para o exílio a Família Real Portuguesa após ter sido proclamada a Implantação da República. É também das mais concorridas no verão, já que é a praia do centro da vila e está abrigada de ventos.

Mas já que falamos de pescadores, é obrigatória a visita ao mercado, localizado no Largo Condes da Ericeira. Aqui pode ver todo o peixe e marisco que é apanhado ao largo da Ericeira. E encontra de tudo: raia, robalo, pregado, safio, linguado, lavagantes, ouriços… falemos então de ouriços.

Ouriços, raia seca e os festivais

4º Festival do ourico do Mar
Festival do Ouriço-do-Mar. Por Jorge Simão

Os ouriços do mar apanham-se nas rochas, onde estão agarrados, e parecem gostar particularmente desta zona. E se antes não eram muito apreciados, hoje em dia são uma iguaria nem sempre fácil de encontrar. A sua época de apanha é de janeiro a março, explicam-nos no mercado que visitámos.

E como se comem? Degustam-se as suas ovas cor de laranja, daí serem também chamados de caviar da Ericeira. Depois são consumidos ao natural, cozidos, em sopa, açorda, pataniscas, com arroz… é descobrir os variados pratos aquando do Festival Internacional do Ouriço-do-mar da Ericeira, que todos os anos acontece em abril e que reúne a comunidade à volta deste produto endógeno.

Outro produto tradicional daqui é a raia seca. Conta-nos o peixeiro Fernando Nanu que se lhe tira a cabeça, as tripas e o rabo e se divide às postas, sem a partir. Tem de escorrer a água e o sal, numa tarefa de dias. Ao sol, estendidas num varal como se de roupa se tratasse, as raias secam durante 5 a 15 dias, conforme o tempo. É um trabalho moroso, mas que vale a pena, diz. Depois é confecionar como o bacalhau demolhado. Dura muito tempo e dá para fazer tudo. É a sabedoria do aproveitamento de outros tempos que hoje em dia é cultura.

raia seca
Raia seca. Por MiguelG

O dia já vai longo e a noite já espreita. É tempo de regressar ou então de dar um pé de dança na discoteca, que se chama, imagine-se, Ouriço. Mas porque ficar para um pé de dança? É que esta é a discoteca mais antiga de Portugal. Desde 1960 que dá música às muitas as gerações que passam pelo espaço e se divertem ao som das melhores músicas da época… e do mar!

Onde comer?

Esplanada Furnas
Localizado na Rua das Furnas, bem em cima do mar e do local onde antigamente se guardava o marisco, este é provavelmente o restaurante mais bem localizado da Ericeira. Com peixe e marisco que grita frescura, aqui encontra uma oferta alargada do que o mar oferece.

A Tasquinha do Joy
Sobranceiro à Praia dos Pescadores, aqui pode degustar fartamente uma deliciosa caldeirada de peixe ou uma frigideira à Joy, repleta de marisco servido com batata frita. Com um visual que passa despercebido, surpreende pela positiva quando se avalia o conteúdo e sabor dos tachos.

Restaurante Tia Matilde
Dizem os locais que é aqui que se come a melhor açorda de ouriços, aquando da sua época, de janeiro a março. Procure-o na Rua Doutor Manuel Arriaga. Peixe, marisco, polvo… o mar tem e a Tia Matilde também.

O que fazer?

Centro de Interpretação de Surf
Localizado no primeiro piso do Posto de Turismo da Ericeira, na Praça da República, aqui pode conhecer melhor as sete ondas que existem na Ericeira e que fizeram desta Reserva Mundial de Surf. Uma mesa interativa permite acionar luzes e conhecer a altura de cada onda, nível de dificuldade, o seu comprimento, tipo de onda.

Casa Gama
Esta é a pastelaria de fabrico próprio mais antiga da Ericeira. Com 70 anos, é aqui que se vendem os famosos Ouriços, um pastel feito à base de ovo e amêndoa e que honram a terra e os famosos ouriços que lhe deram nome. Típico daqui são também as areias, pequenos bolinhos secos cobertos de açúcar. Não pode passar por esta vila sem os provar.

Fazer Surf
Vir à Ericeira e não fazer surf é como ir a Roma e não ver o Papa. Não terá de o fazer, mas se quer aprender, a praia Riberia d’Ilhas é a mais indicada para os aprendizes das ondas. Procure uma escola de surf e lance a prancha ao mar naquela que é uma das praias mais completas para praticar a modalidade.

As melhores praias para fazer surf em Portugal

As imagens tornaram a Nazaré famosa. Não é para menos: ondas espetaculares de mais de 30 metros de altura rompendo em frente ao farol da Praia do Norte. A razão deste fenómeno é um canhão marinho subaquático que transforma as ondas do Atlântico em verdadeiras montanhas de água que atraem diariamente os mais aficionados do surf extremo como Hugo Vau.

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