Magazine Planos A ilha da Ria Formosa onde aterravam aviões durante a Primeira Guerra Mundial

A ilha da Ria Formosa onde aterravam aviões durante a Primeira Guerra Mundial

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Ilha da Culatra
Ilha da Culatra. Por Reinaldo

Acessível apenas por barco, a ilha da Culatra, uma das cinco ilhas-barreira do Parque Natural da Ria Formosa, é um porto seguro para pescadores, tradições e respetiva gastronomia. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), foi também um refúgio seguro para os hidroaviões que descolavam e aterravam nesta pequena ilha.

Em 1917, já a Primeira Guerra Mundial se encaminhava para o fim quando os franceses viram mesmo no centro da ilha da Culatra o lugar ideal para construir um centro de aviação naval. O extenso areal, na altura desabitado, era perfeito para a aterragem dos hidroaviões gauleses que serviam de apoio à luta anti-submarinos.

Os dois hangares de alvenaria construídos de frente para a Ria Formosa deram o nome à povoação. Mas, hoje em dia, nos Hangares, já não há hidroaviões nem pilotos de guerra, e os vestígios destas edificações são quase inexistentes. Já só resta o nome da localidade para lembrar o que aí se passou.

Ilha da Culatra
Ilha da Culatra. Por joserpizarro

Logo no final do conflito mundial, em 1918, um pescador, conhecido como Manuel “Lobisomem”, montou ali a sua barraca de apoio à pesca. O pescador foi pioneiro e fixou aí residência. Nos anos seguintes, outros familiares se juntaram a ele.

Em 1938, e depois de vários anos de inatividade, o Ministério da Marinha português alugou estas instalações à Junta Autónoma de Portos do Sotavento do Algarve. Passaram a servir de centro de armazenamento do carvão usado na drenagem das águas.

Mais tarde, estabeleceu-se aí a Guarda Fiscal, que passou a controlar a ilha. Os guardas controlavam o contrabando que chegava pelo sul a Portugal. Traziam as suas famílias e habitavam nas casas que, hoje, estão em ruínas.

Hangares, ilha da Culatra
Hangares, ilha da Culatra. Por Vitor Oliveira

Nos anos de 1960, o Ministério da Marinha criou um campo de treino de inativação de explosivos e de demolições, conhecido como o polígono de tiro da Culatra. Toda a zona foi vedada com arame farpado.

Durante décadas, os exercícios de detonação de explosivos eram feitos na costa, mesmo em frente à povoação dos Hangares, que já tinha algumas barracas de madeira pertencentes a famílias de pescadores.

A esta povoação chegavam navios da Marinha, que deixavam os explosivos para os exercícios dos fuzileiros navais. Em 1998, o polígono de tiro da Culatra foi abandonado. Ficou apenas o arame farpado e as memórias dos seus habitantes.

Houve ou não pilotos franceses nos Hangares?

Ilha da Culatra
Ilha da Culatra. Por Vitor Oliveira

Em 2017, Rosa Neves, habitante dos Hangares, publicou um livro – Hangares. O Esforço de Guerra -, onde afirma não ter encontrado qualquer referência bibliográfica da presença de pilotos franceses nos Hangares, apesar de este ter sido construído no âmbito de um acordo luso-francês.

De acordo com o jornal Sul Informação, o que a autora encontrou foi documentação oficial que revela que foi um oficial da Marinha Portuguesa que supervisionou a construção do Centro de Aviação Marítima do Algarve, que foi acompanhada de perto pelo então ministro da Marinha. Há também relatórios de voo de pilotos-aviadores portugueses de viagem ao Algarve que referem a ilha da Culatra.

O trabalho de investigação de Rosa Neves surgiu depois de algumas casas nos Hangares terem sido demolidas e visa provar que esta ilha já era ocupada no século XIX. Há documentos oficiais que falam da existência do moinho de água e da carvoaria perto do virar do século, mas há quem tenha a convicção de que a presença humana é bem mais antiga e ligada aos ciclos de pesca e às armações de atum.

Ainda em 2017, a história do Centro de Aviação Marítima foi recordada nos Hangares com a inauguração de um monumento, que assinalava o centenário e a memória do esforço de Portugal na Grande Guerra, e a celebração de um protocolo entre a associação de moradores local e a Marinha Portuguesa.

O que visitar na ilha da Culatra?

Ilha da Culatra
Ilha da Culatra. Por João Domingos

Além dos Hangares, a ilha tem mais duas localidades: a Culatra, maioritariamente habitada por pescadores, mas também por alguns turistas no verão; e o Farol, ocupada principalmente no verão por turistas. Curiosamente, os locais chamam à Culatra e ao Farol de ilha da Culatra e ilha do Farol, como se de duas ilhas distintas se tratassem.

Localizada em frente à cidade de Olhão, mas pertencente administrativamente a Faro, vivem permanentemente na ilha da Culatra cerca de 750 habitantes, na sua maioria pescadores, viveiristas e mariscadores. A ilha tem sete quilómetros de praia e é na Culatra que se concentra o maior número de pessoas.

A localidade da Culatra é uma espécie de vila de pescadores, composta por uma escola, um infantário, uma igreja, vários cafés e restaurantes, um parque infantil, um campo de futebol de relva sintética, várias mercearias, um posto médico, entre outras infraestruturas.

Ilha da Culatra
Ilha da Culatra. Por malajscy

As casas da ilha são todas térreas e muitas delas são decoradas com artefatos de pesca e até conchas da praia. As ruas são labirínticas, com lajes de cimento para proteger os pés da areia quente, e não há estradas, nem poluição.

Como todas as ilhas da Ria Formosa, a ilha da Culatra é procurada pelas belas e extensas praias de areias claras e finas e com águas cristalinas e quentes. Aqui está concentrada uma rica flora e fauna, com destaque para as aves que aqui vêm nidificar ou refugiar-se durante as suas migrações.

A praia da Culatra fica a meio da ilha e é uma praia muito tranquila, com um extenso e praticamente deserto areal, embora sem grandes estruturas de apoio. A partir do núcleo urbano, chega-se à praia da Culatra percorrendo um passadiço de madeira.

Farol do Cabo de Santa Maria
Farol do Cabo de Santa Maria. Por Vitor Oliveira

A oeste da ilha fica o núcleo urbano do Farol que deve o seu nome ao Farol do Cabo de Santa Maria que aí existe e que se avista bem de longe. Este farol foi edificado em 1851 e tem uma torre com 50 metros de altura.

A localidade do Farol possui maioritariamente casas de segunda habitação, usadas sobretudo durante o verão. Por aqui existem alguns alojamentos locais, um mini-mercado e vários cafés e restaurantes, onde se pode comer peixe e produtos apanhados no mar e na Ria Formosa.

Como chegar até à ilha da Culatra?

O acesso à ilha da Culatra faz-se apenas por barco. A maioria dos visitantes usa ferries, que partem de Faro (com saída do Cais das Portas do Mar) ou de Olhão, para as localidades da Culatra e do Farol.

Há também a possibilidade de recurso aos barcos-táxis que fazem o transporte para o local que o passageiro pretender, inclusive para a localidade de Hangares.

A Animaris e a Passeios Ria Formosa são duas das empresas que asseguram, entre outros serviços, carreiras de barco para as ilhas e passeios marítimo-turísticos.

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