Passadiços do Paiva

Por Ângela Coelho

Se há algo que a pandemia nos ensinou foi a olhar mais para dentro dos nossos próprios países. A Covid-19 veio primeiro fechar-nos dentro das nossas casas e agora, em pleno processo de desconfinamento, mas com as fronteiras ainda encerradas, veio fechar-nos dentro do nosso país. E isso não tem que ser necessariamente mau. Muito pelo contrário. É a oportunidade que nos faltava para explorar todos os recantos que sempre quisemos visitar em Portugal, mas que constantemente adiávamos, porque havia um mundo lá fora para descobrir. Pois, a verdade é que também há um mundo cá dentro à espera de ser descoberto pelos portugueses.

Um dos locais que estava na minha lista de lugares para visitar em Portugal era sem dúvida os Passadiços do Paiva. Já muito se disse e escreveu sobre este percurso com cerca de 8,7 quilómetros de extensão ao longo da margem esquerda do rio Paiva, no concelho de Arouca, distrito de Aveiro. Mas experienciar a beleza desta paisagem esculpida pela natureza é de facto uma sensação extraordinária.

Passadiços do Paiva

Por Ângela Coelho

Os Passadiços do Paiva reabriram as portas no dia 24 de maio, com lotação limitada a 600 pessoas por dia (em vez das habituais 2000 pessoas) e todas a medidas de segurança e higiene recomendadas pela Direção-Geral da Saúde. Depois de escolher a data da visita, neste momento, a única opção é comprar o bilhete online que, na época alta (de abril a outubro), custa 2 euros.

Os passadiços ligam a ponte de Espiunca até à praia fluvial do Areinho, num percurso linear de dificuldade média/alta e com duração de cerca de 2h30. A grande questão é: qual o percurso menos difícil? Depois de alguma pesquisa pela Internet, onde as opiniões se dividem, e com grande pressão por parte da minha mãe, que já lá tinha estado, para evitarmos as infinitas escadas iniciais, acabei por comprar os bilhetes para começar o percurso no Areinho. Precisamente onde se sobe a infame escadaria.

Passadiços do Paiva

Por Ângela Coelho

Na dúvida, perguntei ao funcionário que verificava os bilhetes do lado de Espiunca qual era o percurso mais fácil, aquele que evitava a subida de escadas. “São os dois percursos bastante parecidos”, respondeu automaticamente, como se aquela fosse uma pergunta recorrente. “Mas qual é aquele onde não se sobem escadas?”, insisti. Na verdade, nenhum, como viemos a descobrir mais tarde. De qualquer forma, iniciámos a caminhada em Espiunca.

Eram 10h00, não era propriamente cedo, mas parecia que estávamos a sós com a natureza. Fazíamos o percurso contra a corrente do rio; ele descia, nós subíamos. O silêncio era apenas interrompido pelo som das águas do rio e pelos pássaros que chilreavam, indiferentes a tudo.

Passadiços do Paiva

Gola do Salto. Por Ângela Coelho

À medida que caminhávamos, íamos dando conta que toda a fama dos Passadiços do Paiva não era exagerada: este é realmente um lugar único e especial. Ao chegarmos ao geossítio Gola do Salto tivemos a confirmação da magnitude daquele lugar e do quão pequeninos somos perante a extraordinária mãe natureza. Por entre rochas e cascatas, chegámos à praia do Vau, mais ou menos a meio do percurso, onde existe um bar e instalações de apoio. Este é um óptimo lugar para fazer uma pausa e recuperar as forças.

Passadiços do Paiva

Por Ângela Coelho

Depois da praia fluvial, irá encontrar uma pequena ponte suspensa sobre o rio que servirá de ensaio para a maior ponte pedonal suspensa do mundo que deverá ficar concluída em breve e já pode ser vista uns quilómetros mais à frente. Mas já lá iremos.

Passadiço do Paiva

Por Ângela Coelho

Começámos finalmente a subir um pouco – não podíamos livrar-nos das subidas para sempre – ao mesmo ritmo que as cabras subiam os penhascos e comiam a vegetação. O som frenético dos seus sinos quebrava a tranquilidade e sossego do local, mas a sua metódica busca por comida e rebeldia – subiam até para os passadiços – era hipnotizante.

Lá ao longe já começávamos a ver a “516 Arouca”, a ponte suspensa que, com 516 metros de extensão e 175 metros de altura, é a maior do mundo. E também começamos a ver as escadas que teríamos que subir. Mas nada disso importava porque a beleza da paisagem valia todo aquele esforço. Já só faltavam pouco mais do que dois quilómetros.

Passadiços do Paiva

Por Ângela Coelho

As águas da cascata das Aguieiras irrompiam das rochas e precipitam-se na montanha com ferocidade, num espectáculo magnífico da natureza. Este é sem dúvida o ponto alto de todo o percurso, o clímax dos Passadiços do Paiva. O sol já nos queimava a pele e tornava a subida mais difícil. Era o último esforço.

Afinal, não subimos a escadaria no início, mas subimos no fim. Veredito final: se começar o percurso pela praia fluvial do Areinho, irá deparar-se com uma infindável escadaria no início, o que pode ser traumatizante, mas o restante percurso será mais fácil. Se preferir começar pela ponte de Espiunca, terá que subir as escadas que levam ao cimo da montanha perto do final do percurso.

Passadiços do Paiva

Por Ângela Coelho

O ponto mais favorável para começar a percorrer os passadiços da ponte de Espiunca em direção ao Areinho é o facto de a beleza da paisagem ir num crescendo contínuo, até atingir o pico máximo na cascata das Aguieiras, a cereja no topo do bolo. Mas lembre-se de uma coisa: quer comece por um lado ou pelo outro, não se livra das escadas!

Publique um comentário

* Estão marcados os campos obrigatórios.