Por SoniaBonet

Lá vai Lisboa com a saia cor do mar,
transformar o mês de Junho numa festa popular,
lá vai Lisboa com o seu santo padroeiro,
com a Escapada Rural aproveita o mês inteiro.

Poderiam ser os primeiros versos de uma marcha popular do Santo António de Lisboa mas é apenas uma forma de fazer com que não perca os Arraiais com muita música e balões coloridos, as sardinhas assadas, o caldo verde, os manjericos, as marchas populares e os casamentos de Santo António que fazem parte das Festas de Lisboa que se realizam no decorrer do mês de Junho na capital alfacinha.

Se está indeciso sobre a época ideal para agendar uma visita à cidade de Lisboa, a resposta é –sem dúvida– o mês de Junho. É durante este mês que decorrem, ano após ano, as Festas de Lisboa que seguem a tradição das festas populares na rua com muita música e sardinha assada comida a pingar no pão para comemorar o santo padroeiro de Lisboa, o Santo António. Apesar de toda a cidade estar em festa, é nos bairros mais carismáticos e históricos de Lisboa – Alfama, Bairro Alto, Bica, Castelo e Mouraria – que a animação se vive de forma impar.

Esta é uma tradição que nasceu no século XIII e se vai mantendo viva até aos dias de hoje. São muitos os autores que associam as origens das Festas de Santo António a antigos rituais pagãos, que estariam relacionados com as comemorações do solstício de Verão. Hoje, como no passado, o importante é sair à rua e celebrar o Verão e a vida com muita animação.

Por Alexandra Malysheva

Antes de mais convém desde já esclarecer uma dúvida comum a muitos quantos visitam a cidade de Lisboa… O Santo António não é nem nunca será de Pádua, em Itália. Santo António é alfacinha, como são conhecidos os habitantes de Lisboa.

Nasceu na capital portuguesa, entre 1191 e 1195, com o nome de batismo de Fernando de Bulhões. Na casa onde nasceu e passou grande parte da sua infância, na Rua das Pedras Negras mesmo ao lado da Sé de Lisboa, está aliás hoje instalada a Igreja de Santo António. Pode e deve visitar esta pequena mas belíssima igreja e conhecer as origens deste santo. Fernando de Bulhões foi educado no seio de uma família da pequena nobreza e iniciou os seus estudos com os cónegos da Sé de Lisboa, ingressando mais tarde na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora.

Mais tarde muda-se para Coimbra onde a busca pela simplicidade o levam a abandonar o hábito de Agostinho e a aderir à Ordem Franciscana onde adotou o nome de António em homenagem ao eremita Santo Antão. Nesse mesmo ano parte para Marrocos para pregar as escrituras e foi na viagem de regresso a Portugal que, perdido no meio de uma enorme tempestade, foi desviado para Itália. Morreu a 13 de Junho de 1231, em Pádua, onde passou os últimos anos da sua vida e daí ser conhecido entre o povo italiano por Santo António de Pádua.

Mosteiro de São Vicente de Fora. Por fotobeam.de

Santo António, também conhecido como o santo casamenteiro, tornou-se muito acarinhado pelos portugueses após o “milagre” que aconteceu no decorrer da sua canonização no Vaticano, em 1232, quando os sinos de Lisboa começaram a tocar inexplicavelmente sem intervenção humana. A ele estão ainda associados os milagres de “salvar o pai da forca, da pregação aos peixes e o milagre da bilha”.

Desde então, as antigas festas do solstício de verão passaram a ser em homenagem a Santo António. Este ano, o tema das Marchas Populares é mesmo “Santo António de Lisboa e do mundo”. É também a este santo lisboeta que está diretamente ligado um dos pontos altos das festas de Lisboa: As Noivas de Santo António. Trata-se de uma cerimónia de casamento de vários casais que passam pela igreja de Santo António e seguem para a Sé de Lisboa onde todos os casamentos se realizam em simultâneo. Estes casamentos acontecem na manhã de dia 13 de Junho e os noivos –escolhidos ao longo do ano entre os milhares de inscrições recebidas– recebem, para além da boda oferecida pela Camara Municipal da cidade, variadíssimos presentes para a futura casa. O vestido de noiva também é oferecido e –antigamente– as costureiras de Lisboa costumavam competir entre si para vencerem o título do mais bonito vestido.

Segundo a lenda, a fama deste santo “casamenteiro” surge quando ajudou duas raparigas que não tinham dinheiro para o seu dote, o que as impedia de arranjar marido, ao atirar um saco com moedas pela chaminé. A lenda perpetuou até aos dias de hoje e –segundo a lenda– quem quiser arranjar namorado só tem de arranjar uma imagem de Santo António, virá-lo de cabeça para baixo dentro de um copo de água e afirmar ao mesmo tempo que só o colocará de pé quando encontrar o seu príncipe encantado. Portanto, já sabe…se quer arranjar namorado o momento ideal é a noite de 12 para 13 de Junho e é só pedir ajuda ao santo casamenteiro! Quem sabe poderá ser uma das próximas Noivas de Santo António.

Outra das tradições das festas de Santo António são os manjericos, também conhecidos como a erva dos namorados. Vai encontrar vasos com manjericos à venda por toda a cidade, com especial incidência nos bairros históricos. Em cada vaso está um cravo feito em papel com um verso popular alusivo ao amor. Segundo a tradição, quem recebe um manjerico deverá tratar dele e não deixar morrer a planta até às festividades do ano seguinte, onde são substituídos por um novo.

Na noite de 12 de Junho realizam-se as Marchas Populares, um desfile na Avenida da Liberdade, em que cada bairro lisboeta traja a rigor de acordo com um tema escolhido, interpreta uma música original composta para a ocasião e que é comparado ao Carnaval do Rio de Janeiro à escala “alfacinha” onde a competição impera e onde cada bairro quer levar a melhor. A sua origem remonta ao século XIX e está diretamente ligada à tradição francesa da “marche aux flambeaux”, onde os pares desfilavam nas ruas iluminados por balões pendurados em canas. Em Lisboa, as marchas surgiram em 1932, e rapidamente se transformaram num belíssimo espectáculo musical e visual e numa verdadeira competição entre os mais tradicionais bairros da capital.

Durante vários meses, crianças, jovens e adultos criam, ensaiam coreografias e canções e preparam trajes e arcos para representarem o seu bairro num desfile que acontece na avenida mais in da cidade.

Apesar de toda a programação das Festas de Lisboa que decorrem ao longo de todo o mês de Junho, com especial incidência –claro– na noite de dia 12 e no dia 13, é nas ruas dos bairros típicos que a festa verdadeiramente acontece. Alfama e a Bica são os bairros mais concorridos onde se juntam milhares de locais e visitantes ao som da música popular de copo e sardinha na mão. A noite parece não ter fim e prepare-se para andar muito e se perder por ruas e ruelas pois a animação varia a cada esquina. Lisboa é uma cidade bonita e encantadora em qualquer época, mas se a visitar nesta altura provavelmente será amor para toda a vida, um amor abençoado por Santo António.

Casas de campo em Lisboa

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