Magazine Natureza Açores: nove ilhas, quase dois mil vulcões

Açores: nove ilhas, quase dois mil vulcões

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É impossível falarmos dos Açores e da sua origem sem falarmos de vulcões e de atividade vulcânica. Afinal, a génese deste arquipélago está impressa em 1766 vulcões, 26 dos quais ainda ativos, sendo que oito deles são submarinos.

Pico
Pico. Por Charlotte

De toda esta riqueza natural nasceu o Geoparque dos Açores, que faz parte da Rede Europeia de Geoparques e é único no mundo porque engloba 121 geossítios dispersos pelas nove ilhas e zona marinha envolvente, reflexo da grande diversidade geológica vulcânica do arquipélago.

No subsolo, estão assinaladas quase três centenas de cavidades vulcânicas, sob a forma de grutas, algares e fendas. Na paisagem, há caldeiras secas, lagoas em crateras, campos fumarólicos e nascentes termais. No mar, encontram-se fontes geotermais submarinas.

Das nove ilhas do arquipélago, apenas Santa Maria não tem qualquer vulcão ativo. Nas restantes encontram-se estruturas vulcânicas que poderiam entrar em erupção. Mas não se assuste, porque todos estes sistemas vulcânicos são regularmente monitorizados por organismos nacionais e internacionais.

Testemunho do poder da Natureza, o vulcanismo do arquipélago impressiona pela diversidade do património geológico da região que reflete uma memória geológica de 10 milhões de anos. Fique a conhecer alguns dos mais importantes vulcões do arquipélago dos Açores.

1. Vulcão dos Capelinhos

Vulcão dos Capelinhos
Vulcão dos Capelinhos. Por Guillaume Baviere

O vulcão dos Capelinhos, também conhecido como Mistério dos Capelinhos, localiza-se na Ponta dos Capelinhos, freguesia do Capelo, na ilha do Faial. É uma das maiores atrações turísticas do Faial pela singularidade de sua beleza paisagística, de origem muito recente e quase virgem.

De 16 a 27 de setembro de 1957 sentiram-se na ilha do Faial mais de 200 abalos de terra, de intensidade geralmente fraca. A 27 de setembro iniciou-se uma erupção submarina a cerca de um quilómetro de distância da Ponta dos Capelinhos. A erupção evoluiu formando primeiro uma ilha que, com o aparecimento de um istmo – uma porção de terra estreita cercada por água em dois lados e que conecta duas grandes extensões de terra -, se ligou a terra. 

O vulcão manteve-se em atividade até outubro de 1958. O tremor associado ao vulcão e a queda de cinzas e materiais de projeção provocaram a destruição generalizada das habitações e campos do oeste do Faial.

O vulcão dos Capelinhos é reconhecidamente um marco na vulcanologia mundial, uma vez que foi uma erupção submarina devidamente observada, documentada e estudada, do início até ao fim.

Hoje em dia, a área em torno do vulcão está classificada como paisagem protegida de elevado interesse geológico e biológico, integra a Rede Natura 2000, e é um dos geossítios do Geoparque dos Açores.

2. Vulcão das Sete Cidades

Sete Cidades
Vulcão das Sete Cidades. Por Cardilio

O vulcão das Sete Cidades fica situado na extremidade ocidental da ilha de São Miguel e corresponde a um vulcão poligenético com caldeira. Atualmente, o interior da caldeira é ocupado por diversas estruturas vulcânicas e quatro lagoas, duas das quais, as conhecidas Lagoa Azul e a Lagoa Verde, comunicam entre si.

Embora este vulcão não tenha sido palco de atividade eruptiva histórica, corresponde, provavelmente, ao sistema vulcânico do arquipélago dos Açores com maior frequência eruptiva nos últimos cinco mil anos, produzindo pelo menos 17 erupções explosivas centradas na caldeira nesse período.

Este é um geossítio prioritário do Geoparque dos Açores, com relevância nacional e significativo valor científico, pedagógico e geoturístico.

3. Vulcão das Furnas

Lagoa das Furnas
Vulcão das Furnas. Por JopkeB

Situado no setor leste da ilha de São Miguel, o vulcão das Furnas é também um vulcão poligenético com caldeira, parcialmente ocupada pela Lagoa das Furnas, por ter resultado de inúmeras erupções seriadas ao longo da sua história geológica.

O vulcão das Furnas é, potencialmente, um dos três vulcões mais ativos da ilha de São Miguel. Este vulcão está rodeado, a oriente, pelo vulcão da Povoação, e a ocidente, pela zona fissural do Planalto da Achada.

Depois do povoamento da ilha, a partir de 1439, há registo de duas erupções. A primeira acredita-se que terá ocorrido em 1440, com provável centro eruptivo no Pico do Gaspar e, a segunda, muito mais bem documentada, em 1630, a sul da Caldeira. Esta última marcou particularmente os Açores e ficou conhecida como a Erupção do Cinzeiro, Ano do Cinzeiro ou, simplesmente, Cinzeiro. 

A grande erupção do vulcão das Furnas, iniciada a 3 de setembro de 1630, foi a maior das erupções registadas após a colonização dos Açores. Durante três dias, a nuvem de fumo obscureceu o sol e cobriu a ilha com uma camada de cinzas que, em algumas zonas distantes da erupção, excedeu os 1,5 metros de espessura. A erupção causou algumas centenas de mortos e terminou a 2 de novembro de 1630, isto é, 61 dias depois do seu início.

4. Vulcão do Fogo

Lagoa do Fogo
Vulcão do Fogo. Por Marta Catarina Santos Marques

Também conhecido como Maciço Vulcânico da Serra da Água de Pau, o vulcão do Fogo é um vulcão central poligenético, de natureza traquítica, formado ao longo dos últimos 300 mil anos.

A caldeira vulcânica, tal como o vulcão, que lhe deu forma, é a mais jovem da ilha de São Miguel e ter-se-á formado há cerca de 15 mil anos. A sua configuração atual é resultado do último colapso tido como importante e que ocorreu no topo do vulcão há aproximadamente cinco mil anos. A última erupção data de 1563.

Esta depressão vulcânica está parcialmente preenchida pela Lagoa do Fogo e algumas praias de pedra pomes nas suas margens, na sua maioria proveniente das altas encostas adjacentes. 

Importante recurso hídrico da ilha, esta é também a caldeira menos humanizada e modificada pelo Homem, cuja praia da Lagoa de Fogo foi eleita uma das melhores praias selvagens de Portugal, no âmbito do concurso 7 Maravilhas de Portugal.

5. Vulcão de Santa Bárbara

Serra Santa Bárbara
Vulcão de Santa Bárbara. Por PatríciaR

O vulcão de Santa Bárbara fica situado na extremidade ocidental da ilha Terceira e corresponde a um vulcão poligenético com caldeira. Este vulcão apresenta duas caldeiras aproximadamente concêntricas. A caldeira externa terá resultado de um fenómeno de colapso ocorrido entre os 30 mil e os 25 mil anos. A formação da caldeira interna, mais recente, terá tido lugar há menos de 10 mil anos. Posteriormente, esta caldeira foi palco de diversas erupções que causaram o seu preenchimento parcial.

A história eruptiva do vulcão de Santa Bárbara indica uma evolução a partir de um vulcão em escudo para um edifício cónico de carácter mais explosivo. Nos últimos 20 mil anos estão identificadas 30 erupções, basálticas e traquíticas, correspondendo a mais recente à erupção histórica de 1761.

O vulcão de Santa Bárbara faz parte da Reserva Natural da Serra de Santa Bárbara e dos Mistérios Negros, incluída no Parque Natural da Terceira.

6. Vulcão do Pico Alto

Vulcão do Pico Alto
Vulcão do Pico Alto. Por FocusAG

O vulcão do Pico Alto ocupa grande parte da zona centro da ilha Terceira, situando-se a norte do vulcão Guilherme Moniz, e corresponde a um vulcão poligenético com caldeira.

Após um período de intensa atividade explosiva que conduziu à formação de uma caldeira de colapso, a atividade eruptiva exibida pelo vulcão do Pico Alto tem alternado entre efusiva e explosiva. Apesar de não se ter verificado nenhuma erupção histórica neste vulcão, a atividade eruptiva é bastante recente tendo ocorrido as últimas erupções há cerca de mil anos ou menos.

Atualmente, as manifestações secundárias mais relevantes localizam-se no lado sudoeste do aparelho, no campo fumarólico das Furnas do Enxofre.

7. Vulcão Caldeira da Graciosa

Caldeira da Graciosa
Vulcão Caldeira da Graciosa. Por José Luís Ávila Silveira/Pedro Noronha e Costa

A Caldeira da Graciosa é uma formação geológica de origem vulcânica localizada no concelho de Santa Cruz da Graciosa, na ilha Graciosa. O vulcão da Caldeira da Graciosa tem um diâmetro basal de cerca de 4,4 quilómetros e uma altitude máxima de 405 metros, ou seja, é um vulcão relativamente baixo. 

Esta caldeira teve origem por subsidência e assentação de materiais e está associada a erupções siliciosas explosivas do tipo pliniano, que terão ocorrido há cerca de 12.200 anos.

No interior da caldeira existe uma gruta vulcânica de consideráveis dimensões formada principalmente pelo recuo dos materiais fundentes, formados pelas lavas correntes de baixa viscosidade e que deram origem à denominada Furna do Enxofre, que na prática se trata de um respiradouro vulcânico por onde há a saída de gases sulfurosos, tendo no fundo uma lagoa de água fria.

8. Vulcão do Pico

Montanha do Pico
Vulcão do Pico. Por José Luís Ávila Silveira/Pedro Noronha e Costa

O ponto mais alto de Portugal é uma montanha de origem vulcânica com 2351 metros de altitude que fica na ilha do Pico, a segunda maior ilha do arquipélago dos Açores. No cimo da montanha encontra-se a cratera central do vulcão, o Pico Grande. No seu interior eleva-se um cone de lava de 70 metros conhecido por Pico Pequeno ou Piquinho de onde saem fumarolas.

O vulcão do Pico, o terceiro maior do Atlântico, é um vulcão recente com cerca de 750 mil anos de idade. Com uma história eruptiva desenvolvida ao longo de cerca de 270 mil anos, foram identificadas neste sistema vulcânico cerca de 22 erupções nos últimos 1500 anos, sendo a mais recente a erupção histórica ocorrida no ano de 1718 e que deu origem aos mistérios de Santa Luzia e de São João.

9. Vulcão do Corvo

Vulcão do Corvo
Vulcão do Corvo. Por Paulo Valdivieso

Toda a ilha do Corvo, a mais pequena dos Açores, corresponde a um edifício vulcânico poligenético, com uma caldeira no seu topo (o Caldeirão) e cerca de uma vintena de cones secundários nos seus flancos e intra-caldeira. Trata-se, assim, de uma “ilha-vulcão”, a única do arquipélago com estas características.

Apesar da sua reduzida dimensão, a ilha do Corvo apresenta uma assinalável diversidade de rochas e estruturas geológicas e vulcânicas, incluindo basaltos, traquitos, pedra pomes, escórias (ou bagacina) e lahars, falhas geológicas, depósitos sedimentares atuais, cordões litorais e inúmeros filões. Estes últimos, de tamanho, forma e orientação variadas, são especialmente visíveis nas falésias costeiras norte e oeste da ilha do Corvo.

O Caldeirão é o principal elemento vulcânico e paisagístico da ilha. Esta caldeira, com um diâmetro máximo de 2,3 km e profundidade de 320 metros, possui uma lagoa e no seu interior estão implantados 12 cones secundários, na sua maioria cones de escórias.

Dada a erosão marinha a que está sujeito, a natureza dos seus produtos vulcânicos e ao facto desta ilha não possuir vulcanismo histórico nem qualquer atividade vulcânica recente (isto é, nos últimos milhares de anos), o litoral da ilha do Corvo apresenta-se muito escarpado e alto, com excepção da fajã lávica de Vila do Corvo, onde ocorreu a última erupção vulcânica na ilha.

10. Vulcão Caldeira do Faial

Vulcão Caldeira do Faial
Vulcão Caldeira do Faial. Por David Stanley

O vulcão da Caldeira do Faial corresponde a um grande edifício vulcânico central, que ocupa a maior parte da área da ilha do Faial. Formou-se por numerosas erupções, intercaladas com períodos de acalmia, ao longo dos últimos 400 mil anos, e apresenta uma grande depressão no topo, com cerca de 2 quilómetros de diâmetro: a Caldeira. 

No interior da Caldeira existe um cone piroclástico, um domo traquítico (a “Rocha do Altar”) e uma zona alagada de regime intermitente. Esta zona húmida constituiu outrora uma lagoa, que foi drenada em 1958 durante a atividade sísmica associada à erupção dos Capelinhos, dando origem a uma erupção hidromagmática no interior da Caldeira.

No Cabeço Gordo, no lado sul da Caldeira, atinge-se a maior altitude da ilha do Faial (com 1043 metros), de onde é possível desfrutar uma paisagem ímpar do Faial e ilhas vizinhas.

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