Por Joaomartinho63

Alcácer do Sal é uma cidade do distrito de Setúbal, já com o pé no Alentejo e o estuário do Sado a noroeste, mostrando o caminho para o Atlântico. É um ponto elevado com o rio Sado a ligar mar e interior. Quem conduza na autoestrada A2 ali ao lado, vislumbra apenas um rasgo da sua beleza. Avisado será abrandar a velocidade e deixar-se levar, sem pressas em direção à próxima saída.

Um Pouco de História

Por Hovallef

Desde o Neolítico que a presença humana se sentiu por estas paragens. Muitas foram as invasões bem sucedidas e as tentativas goradas também, senão vejamos: Há testemunhos da presença de vários povos da bacia do Mediterrâneo que se encantaram por esta curva do rio. Fala-se muito dos fenícios, sobretudo a partir do século II. Os visigodos também se apossaram do mesmo território. Até os viquingues tentaram a sua sorte, mas sem grande sucesso.

O seu nome romano foi Salacia Urbs Imperatoria. Por ser um porto fluvial numa terra de interior, facilmente se podiam escoar produtos da terra para outros pontos do Mediterrâneo dominados por Roma –ao tempo era o trigo, o azeite e o vinho.

Alcácer ficou sobretudo conhecida pelo fabrico de sal, acrescentado ao seu topónimo, e pelas indústrias derivadas de salga e pasta de peixe neste período romano.

Com os muçulmanos, a partir do século VIII, a terra ganha o nome de Qasr Abu Danis e viria a ser a capital da província de Al-Kassr ou Al-Kasser. A fortificação edificada no alto da colina seria nesta época especialmente reforçada, ganhando duas cercas. Também se atribui ao povo árabe a construção das trinta torres, revelando a intenção de se fundar um poderoso bastião militar.

Por volta de 1158, Afonso Henriques toma esta terra pela primeira vez aos mouros, sendo perdida mais adiante. Será recuperada numa segunda ofensiva, já em 1217. É Afonso II quem o conseguirá, com ajuda de cruzados que faziam escala a caminho da Terra Santa. Alcácer é assim entregue à Ordem Militar de Santiago em sinal de reconhecimento.

Patrimónios

Por Xuaxo

Não é pois de surpreender que alguns dos templos ainda hoje existentes tenham sido construídos por esta Ordem. É o caso da Igreja de Santa Maria do Castelo. Implantada dentro das muralhas, no lugar antes ocupado por um templo pagão e depois uma mesquita. A mesma origem se reconhece ao Santuário do Senhor dos Mártires, a cerca de dez minutos a pé em relação ao castelo.

Subir ao castelo é um pretexto para descobrir o que as gentes de Alcácer foram construindo nesta colina, como foram desenhando caminhos e ruelas, e esculpindo o ambiente da vila ao longo de séculos. Cá de cima percebe-se o feitiço por esta colina, de olhar espalhado pela planura dos campos, picados por bandos de aves, amantes deste habitat tranquilo, dominado pelas águas do Sado, bordadas a arrozais.

Dentro da fortificação do castelo correm histórias que se tocam e desdobram noutras, senão veja-se: a atual Pousada D. Afonso II está aqui instalada no edifício do antigo Convento e Igreja de Nossa Senhora de Aracoelli. Este tinha sido fundado no século XVI, no reinado de D. Sebastião. As clarissas da Ordem de Santa Clara aí viveram durante três séculos, encarregues da tarefa ampla de educarem raparigas.

Por Francisco Santos

Nos anos 90 iniciaram-se trabalhos de recuperação do espaço, entretanto uma ruína, para se instalar a pousada. Nessa sequência foram feitas descobertas arqueológicas extraordinárias. Os investigadores deram com um achado magnífico: um subterrâneo, denominado Cripta Arqueológica, manteve incólume testemunhos de 26 séculos de vida. Institucionalmente é um museu.

Na prática é um achado magnífico de vestígios preservados da ocupação do homem nesta zona, desde o século VII até ao século XIX. São extraordinários os testemunhos e palpáveis que nos chegam da Idade do Ferro, assim como dos períodos romano, visigótico, islâmico, medieval, moderno e contemporâneo. A memória do dia a dia dos habitantes de Alcácer pode ser visitada neste espaço com uma ambiência única, como que a voltar atrás no tempo.

Outro lugar de visita obrigatória é o Museu Municipal Pedro Nunes: abriu de novo portas no início de abril de 2019, funcionando na Igreja do Espírito Santo, restaurada para receber um espólio composto pelas descobertas arqueológicas feitas entre 2008 e 2010 nesta igreja. A sua arquitetura, de traça manuelina (exemplo disso é a janela principal do edifício) confirma a ligação de Dom Manuel I neste templo, onde veio celebrar a sua segunda boda.

Cá fora, a praça do Museu dá pelo nome de Pedro Nunes, um dos naturais da terra e figura destacada do humanismo português, ligado aos Descobrimentos e aos avanços científicos conseguidos na época, no campo da matemática, acompanhados por invenções como o nónio.

Do Rio à Costa

Por Claus Bunks

Mas Alcácer também é património natural, dominado pelo Sado e pelas riquezas que aqui encontram. Destaca-se um monumento de belíssimas formas toscas, criado pelo homem, o cais palafítico da Carrasqueira. Fica em plena Reserva Natural do Estuário do Tejo; começou por ser um passadiço de madeira, suportado sobre estacas que os pescadores, nos anos 50 e 60 construíram.

A intenção era a de chegarem aos seus barcos, evitando o lodo do leito do rio durante as longas marés baixas. Hoje descobre-se aqui um labirinto de passadiços com ar frágil e no entanto competente na sua função. Para além de que este toque humano foi certeiro e veio embelezar ainda mais a paisagem.

Outra opção para quem busque simplicidade, silêncio e comunhão com as águas calmas, são estas duas albufeiras, do Pego do Altar e do Vale do Gaio. São especialmente muito concorridas por quem se dedique a atividades náuticas, passeios pela natureza.

Uma nota final para o conjunto de quatro praias, Comporta, Torre, Carvalhal e Pego. É de extensos areais, águas revigorantes e uma beleza indiscutível que se está a falar. O melhor é mesmo ir até lá sem hesitar.

Casas de campo em Setúbal

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