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Aldeia da Cuada: do abandono ao renascimento

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Aldeia da Cuada
Fonte: Aldeia da Cuada

Carlos Silva chegou à ilha das Flores com 19 anos, apaixonou-se pela ilha mais ocidental do arquipélago dos Açores e pela mulher, Teotónia. Natural da ilha do Pico, Carlos fixou-se no município de Santa Cruz das Flores e por ali ficou.

Enquanto Carlos chegava às Flores para ficar, muitos eram aqueles que saíam da ilha em busca de uma vida melhor. Foi o que aconteceu nos anos 60, na Aldeia da Cuada, que faz parte da freguesia da Fajã Grande, que pertence ao concelho de Lajes das Flores. Todos os habitantes da aldeia emigraram para vários países, principalmente para o continente americano, deixando a aldeia abandonada.

Fundada em 1676, a aldeia chegou a ter 122 habitantes distribuídos por 20 casas modestas, no primeiro quartel do século XIX. A pobreza da aldeia era muito visível nas condições de vida da população que vivia em casas de construção muito simples, muitas delas sem telhado.

Aldeia da Cuada
Fonte: Aldeia da Cuada

Nesta parte da ilha, havia uma grande dificuldade dos habitantes terem acesso ao mar, por isso a agricultura era a sua principal fonte de subsistência durante alguns séculos. Muitos habitantes também se dedicavam à tecelagem como fonte de rendimento, sendo que existiam casas onde se encontravam dois e três teares.

Em meados do século XX, a aldeia estava já moribunda. A maioria da população tinha já partido, em busca de melhores condições de vida e de novas oportunidades. A Aldeia da Cuada parecia assim destinada ao abandono.

“Era uma aldeia fantasma”

Aldeia da Cuada
Fonte: Aldeia da Cuada

Teotónia e Carlos Silva não tinham nenhuma ligação com a Aldeia da Cuada, viviam a cerca de 20 quilómetros, em Santa Cruz das Flores. Mas tinham uma casa de férias na Fajã Grande e nas suas caminhadas passavam frequentemente pela aldeia. 

“Nós visitávamos a aldeia quando passávamos por aqui, era uma aldeia fantasma. Não havia nada, estava tudo destruído”, conta Carlos Silva em entrevista à EscapadaRural. Foi então que surgiu a ideia de o casal comprar uma das casas para a restaurar e utilizar como casa de férias da família. O objetivo era terem um lugar mais isolado e privado. 

Ainda sem pensar em alugar a casa para turismo rural, compraram a primeira casa há cerca de 38 anos. Depois começaram a interessar-se pelas outras casas abandonadas e foram comprando aos poucos. “Na altura, lembro-me que comprámos 10 ruínas. Depois o problema que se colocou foi: o que é que vamos fazer a estas ruínas?”, recorda Carlos Silva.

Aldeia da Cuada
Fonte: Aldeia da Cuada

Foi então que surgiu o projeto para reabilitar a Aldeia da Cuada, um processo lento e com vários contratempos, porque a aldeia não tinha água nem eletricidade.

Na cabeça da família Silva, a pergunta que pairava era: “Será que alguém nos vai procurar?”. Até porque “há quase 40 anos não se falava em turismo rural”, sublinha Carlos.

Abriram oficialmente o empreendimento turístico em 1999, com 10 casas reabilitadas e desde então nunca mais pararam. Conseguiram comprar a última casa no verão de 2022 e agora são proprietários das 21 casas da aldeia. Neste momento, têm 17 casas disponíveis para turismo, um restaurante, uma lavandaria e a casa de férias da família Silva.

Aldeia da Cuada
Fonte: Aldeia da Cuada

Carlos e Teotónia Silva fizeram questão de respeitar a traça original das casas e garantem que, “se fosse residente da aldeia há cem anos e voltasse agora, reconheceria a sua casa tal qual como ela era”. Aliás, alguns antigos habitantes da Aldeia da Cuada já revisitaram as suas casas e ficaram contentes por o casal ter abraçado este projeto e ter dado vida a este lugar.

Até os nomes das casas conservam a história de quem ali viveu e homenageiam os anteriores proprietários: Palheiro da Fátima, Casa da Luciana, Casa da Esméria, Palheiro do Pimentel, entre outros.

A povoação conseguiu em 2000 o estatuto de aldeia protegida e foi classificada pelo Governo Regional dos Açores como património cultural com interesse histórico, arquitetónico e paisagístico.

Aldeia da Cuada
Fonte: Aldeia da Cuada

Os proprietários explicam que quem vai até à Aldeia da Cuada procura sobretudo o silêncio e o contacto com a natureza. “Estamos bem localizados, a partir da própria aldeia, sem ter necessidade de ter viatura, tem acesso direto a vários trilhos”, afirma Carlos.

Dentro da própria aldeia não circulam carros, que são deixados no parque de estacionamento, junto ao restaurante. A partir daí, para chegar até às casas tem mesmo que ser a pé.

Poço da Ribeira do Ferreiro
Poço da Ribeira do Ferreiro. Por Pablosievert

Perto da aldeia, a cerca de três quilómetros, encontra o lugar mais bonito da ilha das Flores, na opinião de Carlos Silva, o Poço da Ribeira do Ferreira. “É uma zona espetacular que tem cascatas que caem dentro de um grande lago. É uma zona onde aconselho estar durante muito tempo a ouvir o silêncio, a ouvir as cascatas”, diz.

Mas há muito mais para descobrir na ilha: lagoas e cascatas, paisagens espetaculares e miradouros lindos. “Tudo isto faz com que a ilha seja uma das mais procuradas dos Açores”. Quem o diz é este açoriano que trocou o Pico pelas Flores e nunca mais voltou.

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