Monsaraz, Portugal

Monsaraz. Por seregayu

Tudo é tranquilo, e casto, e sonhador.
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,

Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

Florbela Espanca, O meu Alentejo.

Além do Tejo. Alentejo. Uma das zonas mais belas do nosso país e, sem lugar a dúvidas, uma das minhas preferidas desde a infância. Na verdade, o Alentejo sempre me fascinou. A imensa suavidade da planície, os montes adornados com as suas casas brancas debruadas a azul ou com a majestade de sobreiros e oliveiras.

Desde pequena as minhas saídas preferidas em família eram as idas ao Alentejo: a Serpa, comer queijadas, a Vila-Nova de Milfontes à praia, a Reguengos de Monsaraz para subir ao castelo e ver a paisagem, e à Ilha do Pessegueiro, onde acampei durante vários verões com a minha família.

Mais tarde, descobri Serpa e Mourão, onde participei em campanhas arqueológicas no período de construção da Barragem do Alqueva. Évora, Elvas, Beja, Mértola, no interior, Porto Covo, Milfontes, Zambujeira do Mar, Odeceixe ou Arrifana, no litoral, são todos eles lugares mágicos e imperdíveis.

O que vos proponho aqui é um passeio por três desses lugares, Monsaraz, Moura e Serpa que tenho a certeza vos vão encher a alma de planície e luz.

Antes de iniciar viagem, alguns dados interessantes relativos à região e à sua (nova) relação com o turismo. O Alentejo com aproximadamente 31.000 km², é a maior região do nosso país e possui um riquíssimo património arqueológico e cultural.

Repleto de vilas e cidades históricas, possui também um dos maiores parques naturais nacionais, o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, com mais de 110 km de extensão, que inclui as magníficas praias do Sudoeste Alentejano.

Contudo, o Alentejo, manteve-se durante muitos anos fora dos grandes roteiros turísticos, tendo havido um claro acréscimo de visitantes nos último anos, tanto nacionais como estrangeiros, e que conduziram a um aumento de 15% no número de dormidas em 2017. Curiosamente, os turistas que visitam o Alentejo, fazem-no sobretudo pelo seu património e gastronomia.

xerez cromlech monsaraz

Cromeleque do Xerez. Por compuinfoto

O primeiro destino da nossa viagem é Monsaraz, onde vamos saborear a profunda paz da planície alentejana. Faremos uma primeira paragem pelo caminho no Cromeleque do Xerez, caso único em Portugal por dois motivos: pela sua forma quadrangular, apesar de isso se dever provavelmente à interpretação do seu ‘redescobridor’, José Pires Gonçalves, em 1969; e por ser o único monumento que foi levantado antes do enchimento da Barragem do Alqueva e recolocado noutro lugar.

Penso que é interessante e merece a visita por que se trata de um monumento que representa o que a arqueologia muitas vezes é: descoberta, estudo e interpretação de sítios, monumentos, lugares, que muitas vezes não sabemos o que eram ou o que representavam exatamente, mas que nos conectam entre todos, através do tempo.

Nas palavras do arqueólogo Manuel Calado sobre o Cromeleque do Xerem, para o Jornal Público de 7 de Agosto de 2004, “A primeira instalação é de autor desconhecido, a segunda de Pires Gonçalves e a terceira de Daniel Monteiro [o arquiteto responsável pela reinstalação]”. Não sabemos se era esta a sua forma e sabemos que não era ali que estava originalmente, mas o valor patrimonial e simbólico, esse ninguém lhe tira!

Chegando a Monsaraz, entramos pela Porta da Vila, e encontramos um lugar mágico e pessoalmente, um dos meus lugares preferidos do mundo.

Monsaraz, Portugal

Monsaraz. Por Evgeni Fabisuk

Perder-se pelas suas ruas intemporais, entrar na Igreja da Nossa Senhora da Lagoa, do século XVI, ver o Pelourinho na praça da vila, e chegar ao Castelo para apreciar a vista, são memorias que guardo bem vivas da minha infância.

Almoçar na Vila e se possível passar a noite num dos turismos rurais do lugar, é algo que aconselho vivamente, porque ver o pôr do sol do cimo do Castelo e acordar bem cedo em Monsaraz, são experiências únicas que nos conectam com a essência do Alentejo.

Muito mudou na paisagem de Monsaraz com a construção da Barragem do Alqueva, e a planície foi substitua por uma extensão de água, mas sobre isso falaremos noutra viagem.

Seguindo caminho para sul, poderemos apreciar a imensidão da planície alentejana, até chegarmos a Moura, cujo nome tem origem na lenda da Moura Salúquia.

Diz a lenda que Salúquia, filha do governador muçulmano Abu-Hasan, se atirou da torre do castelo ao perceber que o seu amor tinha morrido nas mãos dos cristão. Ainda hoje em Moura há uma torre que tem o seu nome, em clara alusão a esta história de amor.

Moura

Moura. Por inacio pires

Para além do nome, a presença islâmica deixou em Moura algo único e extraordinário: a Mouraria, considerada uma das mais maiores, das mais antiga e mais bem conservadas da Península Ibérica.

Foi nesta parte da cidade que os mouros, expulsos da cidade pelos cristãos, em 1232, se reagruparam, dando origem a 3 largas ruas no centro histórico cuja toponímia é eloquente: Primeira, Segunda e Terceira Rua da Mouraria, Travessa da Mouraria, e Largo da Mouraria. Estando aqui não deixem de visitar o Núcleo Árabe do Museu Municipal, instalado num edifício da Mouraria, com um poço árabe do século XIV, em excelente estado de conservação, e várias cerâmicas, candis e lápides entre outras peças.

Moura é também conhecida pela abundância de água refletida pelas várias fontes da cidade, pelas suas Termas (Balneário) e pela famosa Água do Castello, engarrafada aqui desde 1899.

Serpa. Por PHB.cz (Richard Semik)

De Moura a Serpa, a paisagem não desilude e quando se vê a muralha da cidade sabemos que uma vez mais, uma cidade branca nos espera. As primeiras muralhas de Serpa datam do período islâmico, contudo foi D. Dinis, que as mandou reconstruir, juntamente com o castelo, em 1295.

É na Alcáçova do Castelo que se encontra o Museu Arqueológico Municipal, que reabriu as portas em 2016, com uma nova museografia que inclui conteúdos multimédia, a cargo do cineasta João Botelho, e os achados arqueológicos encontrados durante o período da construção do Alqueva. Foi aliás o primeiro Museu da região a integrar esses materiais na sua coleção e a visita é obrigatória!

Passear por Serpa é uma delicia. A entrada à cidade deve ser feita pelas Portas de Beja, pois como diz a canção:

Das ruas que Serpa tem
P’ra mim a que tem mais graça
É a das Portas de Beja
Desde o arco até à praça

Chegando à Praça da República, onde está a Câmara Municipal encontramos a Casa Paixão, onde se podem saborear as magníficas queijadas de Serpa. Saindo da praça sobe-se ao Castelo pelas Escadas de Santa Maria, que ladeiam a Torre do Relógio, datada de 1440, e que é considerada a terceira mais antiga do país! No cimo espera-nos a Igreja Matriz ou Igreja de Santa Maria, do século XIV, e que foi construída sobre a antiga mesquita da povoação.

Serpa, Alentejo, Portugal

Serpa. Por Tiago Ladeira

Outro interessante elemento do património da cidade é o aqueduto do século XVII, que foi construido para abastece uma casa privada: o Palácio dos Condes de Ficalho. Consiste em 19 arcos que ligam a nascente a um tanque no jardim do palácio, estando integrado na muralha do castelo, com uma nora mourisca associada.

Em Serpa não podemos deixar de saborear algumas das iguarias tradicionais: para o queijo de Serpa recomendamos a Queijaria José Bule, uma queijaria tradicional e familiar que vai na 4 geração. Para as queijadas, a Casa Paixão, herança de uma avó à sua neta e para as iguarias da gastronomia local, um almoço ou jantar na Adega Molhó Bico, o lugar ideal para terminar a nossa viagem alentejana, tudo isto bem regado com um vinho de Pias, obviamente!

Casas de campo em Alentejo

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