Por Vasco Célio

O Algarve marítimo é o epicentro do novo livro da investigadora Maria Manuel Valagão. Ir em busca das vozes de quem viveu para as lides do mar, antes que a sua memória se perdesse, foi a motivação da autora. Ao longo de três anos, com os seus aliados neste projeto, a Professora Nídia Braz e o fotógrafo Vasco Célio, construiu-se um trabalho imenso e rigoroso que foi beber à geografia e à etnologia, que se guiou pelas metodologias sociológicas e que trouxe conhecimento tanto da biologia como da história, entre outras disciplinas.

O resultado, de uma aparente simplicidade, é a partilha de relatos e saberes numa escrita luminosa que apetece ler, com vagar, que nos faz saltar folhas à procura de novas imagens e episódios que aqui se revelam.

Em “Algarve Mediterrânico”, a obra que antecedeu e provocou esta, o peixe e mar surgiam em dois capítulos. Maria Manuel intuiu que isso seria apenas um início.

“Este livro nasceu do anterior, de coisas por tratar e de uma audácia. Eu queria fazer (um trabalho) sobre vozes e vidas. Queria a voz da pessoa que tem aquele saber oral, e privilegio muito quem não sabe ler, porque as pessoas têm uma memória fantástica (…), sobre a memória a identidade e memória marítima”.

Esse caminho começa, literalmente, na capa: o emaranhado das redes de pesca, as escamas de cor forte, do peixe saído há pouco da água; a mão que o agarra, de pele enrugada, curtida pelo Sol e ventos, à mistura com a salmoura, são o prenúncio de uma ligação singular.

“Vou citar Platão: «Há três espécies de homens, os vivos, os mortos e os que andam no mar». Os marítimos, os da beira da água são diferentes de tudo o que se possa dizer. Talvez porque todos os dias arriscam a vida. É muito diferente do agricultor. O agricultor trabalha muito porque só colhe da terra o que semeia. O pescador vai pescar lá, não precisa de semear, mas está sempre em risco”.

Quem seguir por este livro adentro irá descobrir um território algarvio autêntico, em relação com o mar, sem nunca largar a terra. A mesma simbiose sente-se neste trabalho, em que palavra e imagem se ampliam mutuamente. E com esse propósito, Maria Manuel escolheu a “voz” da fotografia de Vasco Célio.

“O Vasco tem essa autenticidade. (…) Esta fotografia, tirada em frente de Quarteira. Esta fotografia foi feita na mesma altura da rede (imagem de capa) numa noite que ele passou toda na água”.

Por Vasco Célio

Em relação à estrutura do texto, um fio lógico conduz-nos pelas várias “vidas do peixe”. Através do capítulo “Paisagem, Recursos e Portos” somos levados, com a ideia de maritimidade, a percorrer as águas diferentes da orla costeira, em que Mediterrâneo e Atlântico se misturam, para se fazerem soar, um mais alto do que o outro, a sotavento e a barlavento, com os seus portos e comunidades piscatórias. Mas há outras correntes, vindas de rios e rias, com os seus habitats povoados por formas de vida irrepetíveis. E depois a geometria antiga das salinas, que seguem os preceitos de outrora, do sal feito à mão, onde até flores (de sal) aí se colhem.

Segue-se “Pesca e Pescadores”, dedicado à faina e aos marítimos, homens e mulheres antigos, vivências intensas, gente nascida desde a década de vinte do século passado. Os seus testemunhos foram sendo conseguidos aos poucos.

“Tem de ir sempre uma figura acreditada (para me apresentar), porque a mim ninguém me conhece e a primeira coisa nestas pessoas é a desconfiança. É preciso querer. As pessoas gostam que alguém que as oiça, eu acho que sei ouvir”.

Muitas horas de conversa depois e estas figuras típicas passaram a ser “as suas pessoas”, assim as descreve a autora ao falar de Ti Andorinha e a mulher, Fernanda Horta Isabel, que se tornou pescadora para fazer companhia ao marido no barco; ou de Tóino do Rio ou ainda de Francisco Faleiro a quem telefonou no dia em que completava 95 anos:

“(…) e perguntei-lhe o que estava a fazer e ele disse-me que estava a fazer o almoço para a família”.

Já em “Pescas Lembradas” recuperam-se memórias das fainas do bacalhau e do atum. A primeira marcou populações como a Fuzeta, “Faz parte da sua identidade, é uma intensidade enorme”, sublinha Maria Manuel Valagão. São recordadas as muitas gerações que embarcaram para os mares do Norte, numa experiência dura e perigosa, quantas vezes para fugir à tropa ou à guerra. É sobre estes homens que emergem lembranças, seja dos preparativos de viagem, da permanência demorada noutras latitudes e da forma como a solidão era sentida pelas famílias, suspensas até ao seu regresso.

Por Vasco Célio

Já a pesca do atum é sinónimo de um valor económico essencial para o Algarve, desde o século XVI. Quis a natureza que os cardumes deste peixe passassem em frente à costa, vindos do Atlântico, para desovar em águas mediterrânicas, repetindo depois o trajeto de volta. Assim se fala do atum de direito e de revés, do apogeu de cidades como Tavira, dedicadas a este tipo de pesca. Compreende-se também a importância das indústrias conserveiras da região, conjugadas em grande parte com a matéria-prima do atum.

Estamos a pouco mais de metade do livro e Maria Manuel prossegue a sua divisa “follow the fish”, agora em “O Peixe Já em Terra”. Fala-se de uma “nova vida” do peixe, a que se inicia com o consumidor: como chega o peixe do mar, como segue para as lotas, depois para os mercados; ou é distribuído de formas mais sofisticadas ou ruma para a transformação, nas fábricas de conservas. Tudo isto num duplo olhar que recupera o património de outros tempos para estas mesmas práticas.

O capítulo mais gostoso é “A Última Vida do Peixe”. O património gastronómico marítimo guia os sentidos: peixe, moluscos, bivalves são cozinhados e transformam-se em caldeiradas, massadas, arrozes, canjas, ligando-se ao melhor da terra: as plantas de cheiro mais simples casam com fatias de pão e pedacinhos de toucinho; vai-se à farinha de milho, às batatinhas; juntam-se grãos e fazem-se feijoadas. É assim que se sente o mar à mesa e em família alargada, seguindo as receitas com raízes profundas, transmitidas não se sabe desde quando.

E chegamos às páginas finais onde as vozes continuam a pontuar, agora na modernidade, com um bioquímico que vende peixe para o mundo inteiro e dois chefs. Estes foram desafiados a refletir sobre sustentabilidade dos mares e dos recursos da pesca, e ainda os caminhos possíveis para a conservação das espécies marinhas em nome da sua continuidade. A visão de Pedro Bastos é a de um conhecedor dos ecossistemas marinhos e dono de um negócio através do qual coloca peixe português, diariamente, junto dos melhores hotéis e restaurantes, seja na Polónia ou em Los Angeles. E porque o ato de cozinhar é aqui essencial juntam-se os chefs, Bertílio Gomes, responsável pelo restaurante Chapitô à Mesa, e Dieter Koshina, austríaco, à frente do restaurante do Hotel Boutique Vila Joya. Se os mares fossem deles, tudo seria bem mais radioso.

Por Vasco Célio

Termina-se este olhar sobre “Vidas e Vozes do Mar e do Peixe” com uma última ideia: não se pode perceber o poder do mar sem a relação com a terra. Isto porque os marítimos, nalgum momento, de algum modo, reatavam com a vida de campo. Mas também porque sempre houve a tradição de trocar os seus produtos com os das gentes dali, como recorda Maria Manuel Valagão:

“Pense no exemplo xarém (papas de farinha de milho). Para compreender as papas de milho tem de se pensar em termos de terra e de mar: o pescador ia descalço, chegava à Serra (do Caldeirão), à Cabeça do Velho. Não sei como é que chegava lá uma pessoa descalça com uma canastra. Mas chegava, com o berbigão, com as conquilhas… e as pessoas pagavam-lhe em géneros. Pagavam em farinha de milho, moída, em toucinho, pagavam em pão porque se fazia o pão amassado em casa. E quando esse milho chegava à beira-mar chamavam-lhe xarém. “Vamos fazer um xarém” é uma farinha de milho, era o nome da beira-mar. Mas tem de se compreender como é que a pessoa do mar interpretava aquela farinha de milho, porque as papas no mar são ótimas: eles põem bocadinhos de pão frito, toucinho frito, conquilhas e camarão, é ótimo”.

Para além de ser uma carta apaixonada ao mar algarvio, esta obra é um guia singular para percorrer a costa de Vila Real de Santo António até Sagres, e procurar mais do que aquilo que a vista alcança no primeiro instante. É um desafio para sentir estas águas com um olhar diferente; para ir em busca dos mercados tradicionais, para perceber mais da beleza das salinas, escondidas nas rias, esses habitats imensos. É também um excelente guia para procurar os comeres da tradição nos sítios certos, muitos deles no barrocal ou na Serra; porque até aí se sente o mar.

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