Praia de Mira. Por Juntas

De norte a sul do país, em algumas praias, ainda é possível assistir a uma forma artesanal de pesca que remonta ao século XVII. Este espectáculo ainda pode ser contemplado nas praias de Mira, Torreira, Vieira, Pedrógão, Costa de Caparica, Meco e Sesimbra.

Com o mar a ditar o ritmo da vida e o coração a pulsar ao som das ondas, poucos são aqueles que ainda se dedicam à secular tradição da arte Xávega de pesca. As mãos estão curtidas pelo sal, os rostos a que os anos ainda não conseguiram arrancar o sonho, vão sorrindo e a pele – queimada pelo sol e pelos sustos que o mar lhe foi oferecendo – vai resistindo dia após dia e os homens da arte Xávega lançam ao mar as suas artes e, com elas, lançam também a esperança diária de que o mar lhes retribua o amor que têm por ele.

Esta forma artesanal de pesca – que se pratica em Portugal desde meados do sec. XVII – deve o seu nome ao vocábulo arabe “xábaka” que significa redes – é um tipo de pesca de arrasto feito a partir da praia, em que a rede, fixa a um cabo no areal, é transportada para o mar por uma pequena embarcação, a aiola que, num movimento semicircular, larga a rede a várias dezenas de metros da costa, voltando imediatamente para terra com a ponta do outro cabo.

Arte Xávega na Praia do Pedrógão. Por Fernando Moital

Logo que o barco chega à praia os pescadores distribuem-se pelos dois cabos, separados por cerca de cem metros, e começam a puxar a rede, encurtando a distância entre os cabos à medida que o saco com o peixe se aproxima do areal. Consiste assim num lance único de redes em meia lua – desde o mar – que depois é auxiliada pela força de quem puxa em terra firme na esperança de que o mar seja generoso.

Se hoje em dia é a força de um pequeno trator que ajuda nesta tração, em tempos idos – de norte a sul do país – eram juntas de bois que, levados até ao areal, garantiam que as lides do mar matavam a fome às famílias dos pescadores que ganhavam o pão pela vontade do mar.

Praia do Pedrógão. Por Jteodosio

De Espinho a Aveiro, de Mira a Sesimbra e de Sines ao Algarve, muitas foram as praias que se notabilizaram pelo uso desta técnica ancestral de arrasto que – desde Fevereiro de 2017 – faz já parte do Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Hoje em dia, as embarcações já são poucas e escasseiam já os locais onde pode assistir a este espetáculo de vida e tradição. Os pequenos barcos característicos com a forma de meia lua, de fundo plano e proa orgulhosa, são construídos assim para entrarem e saírem do mar perpendiculares à direção das ondas.

Estes pequenos barcos são empurrados diretamente contra a rebentação das ondas num processo extremamente difícil e perigoso, já que os barcos são apenas movidos à força de remos operados manualmente por um ou dois pescadores e – infelizmente – muitos pescadores têm perdido a vida por amor ao mar, à pesca e às artes.

Ainda hoje – sempre que o mar o permite porque nestas coisas da pesca quem manda é a altura das ondas – ainda consegue assistir ao espetáculo de ver os pescadores entrar com a proa das pequenas embarcações de madeira levantada e a enfrentar as ondas em várias praias do país entre os meses de maio e até ao final de outubro normalmente com dois horários coincidentes com os nascer e pôr-do-sol, um entre as 6 e as 9 da manhã, e outro ao final do dia entre as 19 e as 21 horas.

A norte do país, zona onde tradicionalmente terá sido implantada esta forma de pesca – vinda originalmente da região da Galiza em Espanha – é na praia de Mira e na praia da Torreira, ambas perto de Aveiro, que melhor pode assistir ao verdadeiro espetáculo da retirada das redes carregadas de peixe (maioritariamente sardinha, carapau e cavala) da arte Xávega.

Praia do Pedrógão. Por Fernando Moital

Continuando a descer a costa do país rumo ao sul, é em Leiria – nas praias da Vieira e do Pedrógão que a arte Xávega tem maior expressão. Se estiver de passagem e se deparar com esta arte ancestral, desça até junto das redes. Os pescadores agradecem a ajuda de braços para a estocada final de arrastar as redes para terra seca e – se tiver fome e vontade – ainda pode aproveitar para comprar peixe que ainda mexe à frente dos seus olhos.

Se a sua escolha for a zona sul do país – especialmente apetecível nesta época de Verão – lembre-se de fazer algumas paragens para assistir à faina da pesca artesanal. Logo à saída de Lisboa, na Costa de Caparica, não deixe de visitar a Praia da Saúde, a Praia do Castelo e a Praia da Fonte da Telha onde – diariamente ao pôr-do-sol – é comum encontrar duas ou três embarcações a fazerem-se ao mar.

Mais a sul, é absolutamente obrigatório fazer uma paragem na Praia do Moinho de Baixo no Meco ou nas Praias do Ouro e da Califórnia em Sesimbra onde – se o mar estiver de feição – já se tornou num ritual de pôr-do-sol para os locais e para os turistas que visitam a região dar uma mãozinha aos pescadores ao som de gemidos sincopados que arrastam as redes para a segurança da areia. Se tiver sorte e o mar tiver sido generoso, os pescadores seguem-lhe o exemplo e – em troca da sua ajuda – oferecem-lhe peixe para o jantar.

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