Fonte dos Pasmados. Por MiguelG

É terra de queijo, de tortas e de vinhos. Todos eles deliciosos, conhecidos, reputados e premiados. Mas foi a azeitona que lhe deu o nome, quando há muitos, muitos anos eram os extensos olivais que cobriam os terrenos que circundam esta localidade. Consta que foram os árabes, com a sua passagem pelo território no século VIII, que deram precisamente o nome de Azzeittum à região, em alusão ao valioso fruto da oliveira.

Mas Azeitão é um destino que, na realidade, são quatro: Vila Nogueira de Azeitão, Brejos de Azeitão, Vendas de Azeitão e Vila Fresca de Azeitão. Partilham o nome Azeitão e, assim, juntas, ganham força para se fazerem notar numa região rica a muitos níveis, circundada por Setúbal, Sesimbra e Palmela, sempre com a Arrábida como pano de fundo.

Por MiguelG

Comecemos pela riqueza mais antiga e pouco conhecida de Azeitão, as oliveiras milenares que datam do século II a.C.. Quem percorre a Estrada Nacional 10 em direção a Setúbal, logo a seguir a Vila Nogueira de Azeitão, do lado direito, pode ver três oliveiras imponentes e testemunhas milenares da história da região. Uma placa identifica-as, mas basta olhar para perceber que os seus troncos largos e bem enraizados ali se emancipam há muitos, muitos anos. Foram classificadas em 1959 como árvores de interesse público pela então Direção-Geral das Florestas. E lá estão, a passarem despercebidas pela esmagadora maioria dos automobilistas que ali passam.

No campo do património natural, para além da serra e das suas falésias e praias, merecem destaque também os jardins de algumas quintas antigas, que remontam aos tempos áureos da nobreza. A natureza e a arquitetura unem-se aqui em projetos que ficaram para a história.

Jardim do Palácio da Bacalhoa. Por Bacalhoa

O Palácio da Bacalhoa é considerado a primeira manifestação da arquitetura renascentista em Portugal e pode ser visitado. Propriedade de reis, senhoras e senhores nobilitados na História de Portugal, com mais de 500 anos de história, o Palácio da Bacalhoa foi propriedade desejada ao longo dos últimos séculos. O jardim labiríntico com fontes e estátuas do Palácio da Quinta da Bacalhoa serviu de modelo aos jardins portugueses dos séculos XVII e XVIII. É a mais famosa quinta da região devido ao seu rico património azulejar dos séculos XV e XVI. Procure pelo famoso painel de azulejos ‘Susana e os Velhos’ na Casa do Lago, sendo considerado o primeiro azulejo datado em Portugal. Classificado como Monumento Nacional há mais de um século, apresenta uma exposição sobre a sua história, arquitetura e decoração. Tem de a visitar.

Painel de Azulejos Susana e os Velhos. Por MiguelG

Ali bem perto e com data posterior à Quinta da Bacalhoa, a Quinta das Torres, do século XVI, tem uma casa apalaçada construída em quadril com imponentes torreões em cada ângulo do edifício. Foi construída em 1570, por iniciativa de D. Diogo d’Eça, um adepto das novas ideias do Humanismo Renascentista. No centro do palácio, destaca-se o amplo pátio exterior, onde se encontra uma belíssima fonte. As paredes da casa que ligam ao pátio estão cobertas de folhas de hera. O interior do palácio tem várias salas destacando-se a sala das armas. A norte existe um jardim com um lago de 900 metros quadrados com um coreto ao centro. Apenas os jardins estão atualmente abertos ao público sem marcação de algum evento.

Palácio dos Duques de Aveiro. Por RicardoFilipePereira

Destaque também para o Palácio dos Duques de Aveiro, na freguesia de S. Lourenço. É a construção mais monumental e a que melhor simboliza o passado aristocrático das terras de Azeitão. Foi construído em meados do século XVI por ordem de D. João de Lencastre, primeiro Duque de Aveiro. Neste palácio foi preso o Duque de Palmela e toda a sua família, por alegada participação numa conjura contra o Rei D. José. Sobre o portal ainda é visível o brasão de armas ducais, picado por ordem do Marquês de Pombal, informa a Junta de Freguesia de Azeitão. É um solar severo e majestoso, em estilo maneirista, que se apresenta num estado de elevada degradação.

Depois das mais famosas casas nobres, vamos agora prosseguir para o centro da Vila Nogueira de Azeitão. É hora de olhar para a Igreja de São Lourenço. Data do século XVI e tem um interior rico em azulejos: os da cúpula (século XVII), os da capela-mor (século XVIII) e os do baptistério (época pombalina) que merecem observação cuidada. Bem perto, os Lavadouros de Azeitão mostram um Portugal de antigamente, testemunhando que nem todos eram aristocratas aqui em Azeitão. Já em frente, a Fonte dos Pasmados, uma das várias fontes antigas existentes na região, destaca-se pela sua grandiosidade.  Terá sido um juiz a mandar construí-la no século XVIII. Em estilo barroco, tem uma bacia em mármore rosa com duas bicas. Diz a lenda que de quem dela beber ficará para sempre ligado a Azeitão.

Igreja de São Lourenço. Por MiguelG

Nesta visita ao centro histórico, deverá passar também pelo Museu Sebastião da Gama, dedicado à memória do “poeta da Arrábida”. Além de poeta, Sebastião Artur Cardoso da Gama (1924-1952) foi um dos primeiros defensores da Serra da Arrábida. Terá sido pela sua insistente intervenção que terá sido criada a Liga para a Proteção da Natureza, em 1948, a primeira associação ecologista portuguesa.

Mas visitar Azeitão é entrar também no mundo dos vinhos. A vila faz parte de uma das regiões vitivinícolas mais antigas de Portugal. No centro poderá visitar a Casa Museu José Maria da Fonseca. Instalada num edifício do século XIX, alberga um pequeno museu com fotografias, troféus e maquinaria antiga desta casa que vai já na sétima geração de proprietários. Também aqui se ficam a conhecer uns vinhos originais chamados Torna Viagem. Basicamente são vinhos que fizeram uma viagem de barco até ao Brasil e, no regresso a Portugal, por não terem sido todos vendidos, apresentaram características como se tivessem envelhecido alguns anos. Foi na altura uma descoberta e tanto.

Jardim e Casa Museu José Maria da Fonseca. Por JMF

Segue-se a visita às antigas adegas: a Adega da Mata e a Adega dos Teares Novos, onde estagia, entre outros, o vinho Periquita em grandes barricas de mogno de 20 mil litros, e a Adega dos Teares Velhos, onde repousam em pipas de carvalho francês os mais antigos Moscatéis de Setúbal. Estes são guardados na penumbra por aranhas e ao som de cantos gregorianos. No final desta adega, por detrás de grades de ferro cheias de teias de aranha, está a coleção pessoal de Moscatel de Setúbal da família José Maria da Fonseca. Uma coleção que se iniciou em 1880. Só a família tem a chave deste tesouro que podemos ver espreitando por uma pequena janela.

Adega dos Teares Velhos. Por JMF

Prosseguimos para conhecer outra das atrações de Azeitão, a azulejaria tradicional, feita manualmente como se fazia nos séculos XV e XVI. A fábrica de Azulejos de Azeitão, em Vila Fresca, continua a manter a tradição de produzir azulejos completamente manuais através da técnica da faiança. Reproduz azulejos ao estilo árabe, do século XV, ao estilo hispânico, do século XVI, e ao estilo majólica, do século XVI.

Azulejos de Azeitão. Por MiguelG

Azeitão é isto mesmo: uma ode ao passado. Por isso, se for visitar a vila no segundo domingo do mês poderá ainda comprar alguma antiguidade no Mercado de Velharias. Mas também o poderá fazer nas várias casas de antiguidades que existem nas várias freguesias de Azeitão.

Mercado de Velharias. Por MiguelG

Como já percebeu, esta vila tem muito para oferecer. Mas falta falar da gastronomia, que é um dos expoentes máximos da atualidade. Colada à Serra da Arrábida, terra de tradições, a vila de Azeitão é rica em vinhos, como já dissemos, e também em queijo e doces.

A vila é terra de produção dos melhores e mais ricos vinhos de mesa de Portugal. As condições de clima e do solo existentes favorecem a produção de uvas e de vinhos de diversos tipos, com destaque para o Moscatel de Setúbal, vinho licoroso, floral e exótico, bem como de tintos e brancos, por diversas empresas aqui residentes.

Queijo de Azeitão. Por MiguelG

O Queijo de Azeitão nasceu com base no queijo Serra da Estrela, tornando-se depois num queijo com particularidades únicas, conseguidas pelas condições e características específicas da Arrábida. Integra o grupo dos melhores queijos de ovelha de pasta mole portugueses, com denominação de Origem Azeitão desde 1986.

Já o grande destaque da doçaria de Azeitão vai para as tortas, o cartão de visita desta vila das costas da Arrábida. São feitas à base de ovos, a partir de uma receita caseira centenária, que deu a esta iguaria fama mundial e vários prémios internacionais. As tortas de Azeitão nasceram da mão de Manuel Rodrigues, “o Cego”, bem como os Esses e os Amores.  Tudo uma delícia. A 35 km de Lisboa e a 15 km de Setúbal, Azeitão é uma vila cheia de atrativos durante todo o ano.

O que fazer?

Visitar uma adega

Sugerimos que faça uma visita guiada à Casa José Maria da Fonseca. Aí vai saber mais sobre a empresa fundada há mais de 180 anos, descobrir o que são vinhos Torna Viagem e visitar duas adegas excecionais: uma com pipas gigantes em mogno que levam 20 mil litros de vinho tinto e outra que, ao som de cantos gregorianos e na companhia de teias de aranha, guardam em pipas de carvalho francês os moscatéis mais antigos da região. Há uma prova de vinhos no final.

Visita ao Palácio da Bacalhoa

Descubra a mais famosa quinta da região devido ao seu rico património azulejar dos séculos XV e XVI. Atente à arquitetura, decoração e jardins do Palácio influenciados ao longo dos séculos pelos diferentes proprietários, inspirados pelas suas viagens através da Europa, da África e do Oriente, contribuindo assim para o transformar numa joia única. Também aqui pode fazer prova de vinhos.

Pintar azulejos

Pode pintar o seu próprio azulejo na fábrica Azulejos de Azeitão, onde se produz azulejos completamente manuais pela antiga técnica da faiança. Aqui pode reproduzir azulejos ao estilo árabe, do século XV, ao estilo hispânico, do século XVI, ou ao estilo majólica, do século XVI.

Onde comer?

By The Wine Azeitão

Localizado dentro da Casa Museu da José Maria da Fonseca, é um espaço descontraído e cosmopolita com uma oferta gastronómica cuidadosamente selecionada. Para acompanhar os vinhos da casa, sugere-se tábuas de queijos nacionais e de presunto de porco preto alentejano, ceviche de salmão, prego do lombo, carpaccio de novilho ou bochecha de vitela e ainda sobremesas para acompanhar os famosos moscatéis de Setúbal, como bolo de chocolate, tarte de amêndoa e a típica torta de Azeitão.
Localização: Rua José Augusto Coelho nº 1, Vila Nogueira de Azeitão.

Restaurante Jardim do Moscatel

Aqui pode encontrar a cozinha típica portuguesa num ambiente de restaurante tradicional. Da ementa fazem parte pratos como favas guisadas com entrecosto, pernil assado no forno, arroz de pato e umas deliciosas bochechas de porco preto estufadas. Também encontra peixe, como o típico choco frito de Setúbal ou os linguadinhos de Setúbal fritos ou grelhados.
Localização: Rua 9 de Abril, nº 9, Vila Nogueira De Azeitão.

O Cego

Para a sobremesa tem de passar pela pastelaria regional O Cego, que data de 1901, onde se produzem as originais e absolutamente deliciosas tortas de Azeitão, os irresistíveis esses de Azeitão e muitas outras iguarias doces.
Localização: Rua José Augusto Coelho, nº150, Vila Nogueira De Azeitão.

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