Magazine Gastronomia O segredo destas bolachas é o amor e a fé com que são feitas

O segredo destas bolachas é o amor e a fé com que são feitas

248 Shares

Na freguesia de Roriz, no concelho de Santo Tirso, não há quem não conheça as deliciosas bolachas feitas pelas monjas beneditinas do Mosteiro de Santa Escolástica. Em épocas especiais, como é o caso do Natal, as irmãs que aí vivem permanentemente não têm mãos a medir para conseguirem satisfazer todos os pedidos que lhes chegam.

Mosteiro de Santo Escolástica
Mosteiro de Santo Escolástica, em Roriz, Santo Tirso. Por Ângela Coelho

Tocámos à campainha e somos recebidos pela irmã Maria do Carmo Tovar, a Madre Superiora do Convento. O silêncio é uma presença forte e indica-nos que estamos num lugar de recolhimento e oração. O cheiro forte a madeira antiga sobrepõe-se a qualquer outro na pequena salinha de entrada.

À medida que descemos as escadas que nos levam à cozinha onde são feitas as famosas bolachas, deixamos para trás o cheiro a madeira que é substituído pelo cheiro a bolachas acabadas de sair do forno.

Mosteiro de Santo Escolástica
Cozinha onde se confecionam as bolachas. Por Ângela Coelho

Na cozinha, que é pequena, tendo em conta a quantidade de bolachas que aí são confecionadas – o Jornal do Ave fala em 300 quilos de bolachas por mês -, encontramos a irmã Lúcia, atualmente a responsável por assegurar que estas especialidades claustrais mantêm o sabor e a qualidade de sempre.

Além da irmã Lúcia, trabalham também duas funcionárias a tempo inteiro – Enaltina e Cecília – para garantir que são produzidas bolachas suficientes para satisfazer a procura. Em momentos de maior trabalho, como é o caso de festividades como o Natal e a Páscoa, as outras monjas do convento dão uma ajuda. Atualmente, vivem 15 irmãs no Mosteiro de Santa Escolástica, sendo que a mais velha tem 94 anos.

Tudo começou com sete monjas belgas

Mosteiro de Santo Escolástica
Irmã Lúcia a cortar a massa das bolachas. Por Ângela Coelho

A receita mantém-se inalterada desde que sete monjas vindas da Bélgica decidiram começar a fazer bolachas porque, nas palavras da irmã Maria do Carmo, “precisavam de viver de alguma coisa”. As irmãs chegaram a Portugal em 1935 a pedido dos monges do vizinho Mosteiro de Singeverga para os ajudarem nas missões, mas o convento só ficou finalizado em 1937.

Antes das bolachas, as irmãs belgas começaram por fazer bolos uma vez por semana, que eram vendidos porta a porta. “Mas os bolos estragam-se mais. Portanto, daí partiram para bolachas, porque têm um maior tempo de duração e maior validade”, explica a Madre Superiora em entrevista à EscapadaRural.

Inicialmente, as bolachas eram empacotadas em caixas metálicas, que até “eram enviadas para Lisboa de comboio”, relembra a irmã Lúcia, que já vive no convento há 40 anos. Hoje em dia, o sortido de bolachas traz seis variedades – rochedo (côco), lagarto, maizena, areada, pão de amêndoa e sablé – que são empacotadas manualmente em caixas de cartão.

Mosteiro de Santo Escolástica
Irmã Lúcia com a especialidade de bolachas maizenas. Por Ângela Coelho

Aliás, aqui tudo é feito manualmente. Talvez seja esse o segredo destas bolachas tão especiais. A irmã Maria do Carmo diz que não há nenhum ingrediente secreto, apenas o amor que colocam no trabalho que fazem. “É tudo manual. É feito com tempo. Não é feito à pressa com máquinas industriais. É embalado à mão. E depois também tem amor na própria bolacha, isso também passa”, afirma.

De facto, as únicas máquinas que vemos na cozinha são uma batedeira grande para misturar os ingredientes da massa e uma máquina onde se coloca a massa e esta sai como se fosse um churro enorme que depois é cortado manualmente para fazer os lagartos e as maizenas. Esta é uma máquina muito especial e da qual a irmã Lúcia fala com muito carinho: “esta máquina é única”.

Mosteiro de Santo Escolástica
Enaltina e irmã Lúcia a fazerem as bolachas. Por Ângela Coelho

A verdade é que a máquina destaca-se na cozinha e, como explica a irmã, foi construída aos poucos com diferentes partes que foram sendo adicionadas conforme a necessidade, como um compressor de ar comprimido que facilita o trabalho.

Bolachas que vão bem com café, chá e até vinho do Porto

Mosteiro de Santo Escolástica
Irmã Lúcia com a especialidade pão de amêndoa. Por Ângela Coelho

As seis variedades de bolachas feitas no convento são muito diferentes umas das outras e, portanto, requerem diferentes ingredientes e métodos de confeção. Geralmente, cada dia confecionam uma variedade de bolacha, dependendo do que esteja mais em falta naquele momento para incluir na caixa de sortido. Há umas que dão mais trabalho do que outras, como é o caso das bolachas pão de amêndoa

A irmã Lúcia abre a arca frigorífica e mostra-nos caixas com diversas massas que estão a repousar para depois serem cortadas e irem ao forno. A massa da especialidade pão de amêndoa, por exemplo, precisa de estar cinco dias no frigorífico. “Até é uma pena metê-las no saquinho porque se partem facilmente”, confessa a irmã Lúcia.

Além das caixas de sortido de meio quilo (9 euros) ou de um quilo (16 euros), ideais para oferecer a alguém, também se podem comprar sacos de papel com uma mistura de três especialidades (lagartos, maizenas e pão de amêndoa), que custam 6 euros (meio quilo).

Com sabores delicados e pouco doces, as bolachas são ótimas para tomar com chá, café ou algum vinho mais doce, como um moscatel ou um vinho do Porto. Ou então algum licor, como o produzido pelos monges do vizinho e também beneditino Mosteiro de Singeverga, conhecido também por albergar uma vasta coleção de borboletas e de arte africana e que pode visitar.

Mosteiro de Santa Escolástica
Mosteiro de Santa Escolástica. Por Ângela Coelho

Além das bolachas, as irmãs do Mosteiro de Santa Escolástica também fazem compotas com fruta da quinta. “As compotas não se vendem tanto como as bolachas, porque é uma coisa que toda a gente faz. Mas as nossas compotas são bastante boas, porque é só mesmo fruta e açúcar, não tem mais nada”, acrescenta a irmã Maria do Carmo.

Bem perto do convento, vale a pena também visitar a Igreja de São Pedro de Roriz, um dos mais belos exemplares da arquitetura românica do Douro Litoral. A igreja integrava um importante mosteiro, cuja fundação é atribuída a D. Toure Serrão por volta de 1070.

10 doces tradicionais portugueses

Independentemente da ocasião, há algo que não pode faltar à mesa dos portugueses: os doces. Quer seja a típica doçaria da avó que foi passando de geração em geração ou os doces inventados por freiras residentes em conventos que se mantiveram até aos nossos dias, há doces para todos os gostos.

Read more

248 Shares

Faça um comentário

Ao clicar em ENVIAR aceita a privacidade

Copy link
Powered by Social Snap