Estremoz. Por PhillipC

Chamam-lhe a “cidade branca” do Alentejo por causa da cor do casario, mas também devido às jazidas de mármore branco, que tornaram a cidade conhecida a nível internacional. Mas há algo que pinta a cidade de Estremoz de várias cores garridas e fortes. São os famosos bonecos de Estremoz.

A produção de figurado em barro é uma arte com mais de três séculos e que faz parte da identidade cultural do concelho. Estão inventariadas mais de cem figuras diferentes e todos os dias se inventam novas temáticas, sempre relacionadas com o quotidiano das gentes alentejanas, na sua vivência rural e urbana.

É uma arte popular e por isso está muito pouco documentada. As técnicas de produção do figurado em barro em Estremoz foram essencialmente passando de geração em geração pelas mãos das “boniqueiras”, mulheres que faziam figuras de barro e que tinham um trabalho não reconhecido enquanto ofício.

São destas mulheres “boniqueiras” todas as peças do século XVIII e século XIX que estão expostas no Museu Municipal Prof. Joaquim Vermelho, em Estremoz, e que comprovam a sua enorme religiosidade e sensibilidade.

O renascimento dos bonecos

Mariano da Conceição. Imagem cedida por Jorge da Conceição

Nos anos 20 do século passado, os bonecos de Estremoz foram quase esquecidos após a morte de Gertrudes Rosa Marques, a única barrista que ainda os fazia naquela época. Após a fundação da Escola de Artes e Ofícios de Estremoz, em 1924, e a graças à ação do seu diretor, o professor e escultor José Maria Sá Lemos, na década de 30, os bonecos voltaram a ganhar um novo fôlego.

O professor Sá Lemos descobriu uma senhora de avançada idade, conhecida como Ti Ana das Peles, que ainda se lembrava de como se faziam os bonecos, embora não os fizesse, e convidou-a para ensinar os alunos da Escola de Artes e Ofícios. O diretor desafia ainda Mariano da Conceição, que até aí só fazia trabalho de olaria, para começar também a fazer bonecos.

Uma arte passada de geração em geração

Liberdade da Conceição. Imagem cedida por Jorge da Conceição

Depois da morte de Mariano da Conceição, é sua irmã, Sabina Santos, e a sua esposa, Liberdade da Conceição, que continuam o seu legado. Essa herança artística passou também para Maria Luísa da Conceição, filha do Mestre Mariano, e para Jorge da Conceição, seu neto.

“Eu já sou a quinta geração ligada ao barro”, afirma com orgulho Jorge da Conceição, que redescobriu esta paixão há cerca de sete anos, depois de uma carreira de 25 anos em consultoria. “Eu tenho peças desde os meus cinco anos. Portanto, eu sempre fiz, sempre brinquei com o barro. Sempre quis fazer bonecos, sempre tive esta paixão”, explica o artista.

Jorge da Conceição

Maria Inácia e Perpétua Fonseca, conhecidas como irmãs Flores (apelido da mãe), tinham apenas 15 anos quando aprenderam a fazer os bonecos com Sabina Santos, que estabeleceu na época uma oficina de bonecos com vários aprendizes. “Foi um acaso, porque nós tínhamos que trabalhar e depois na altura foi o que apareceu”, conta Maria Inácia.

Do mero acaso até à paixão de uma vida dedicada aos bonecos já se passaram 48 anos. “Aprendemos com ela e trabalhámos com ela 15 anos, depois a senhora reformou-se e nós na altura era aquilo que tínhamos aprendido, não tínhamos tido outra vida e continuamos até hoje”, explica Maria Inácia.

As irmãs Flores têm o seu atelier e loja aberta no centro histórico de Estremoz, onde recebem portugueses e estrangeiros que procuram muitas das peças simbólicas da arte estremocense: o “Amor é Cego”, a “Primavera”, figuras religiosas e os presépios.

Uma tradição com mais de 300 anos

Amor é Cego. Peça da autoria de Jorge da Conceição

Mas o que distingue então o boneco de Estremoz de outras figuras em barro? Segundo Maria Inácia, existem várias coisas que definem o boneco: “as cores, a maneira como se faz, os acabamentos, o rosto – é um rosto que não tem muita expressão. O boneco tem uma expressão muito característica”.

No atelier das irmãs Flores a tradição é para cumprir. “Nós respeitamos mesmo a tradição. Nós aprendemos assim. O boneco ao longo destes séculos sempre teve estas características. Mas infelizmente hoje vemos as pessoas a alterar muito o típico boneco de Estremoz”, confessa com tristeza Maria Inácia.

Para Jorge da Conceição, “os bonecos de Estremoz correspondem a um conjunto de tipologias e a um conjunto de figuras em cada uma das tipologias, mas depois cada artista tem o seu estilo pessoal”. “Há artistas que têm um cunho mais popular e há pessoas que fazem um trabalho mais elaborado, figuras mais realistas, menos populares”, explica o barrista.

Primavera. Peça da autoria de Jorge da Conceição

No entanto, para o artista, o que está em causa não é a tradição, nem a técnica utilizada, mas sim, a dedicação que coloca em cada peça. “O que é alterado é o tempo que nós dedicamos a cada peça e o pormenor que lhe pomos e o nível de acabamento da modelação”, assegura Jorge.

“É óbvio que a peça ficando com um aspecto mais perfeito pode ser por algumas pessoas interpretado como não sendo tradicional”, explica o artesão. Mas Jorge da Conceição considera que durante os 300 anos de história dos bonecos de Estremoz “há estilos diferentes em cada um dos barristas e há uns que têm um trabalho mais grosseiro, mais popular, e há outros que têm um trabalho mais fino”.

Segundo Jorge, a classificação dos bonecos de Estremoz como Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO, em dezembro de 2017, trouxe “uma responsabilidade ainda maior de manter a tradição e de dar continuidade às formas ancestrais de fazer os bonecos”.

O reconhecimento internacional

Barrista. Peça da autoria de Jorge da Conceição

Perpétua Fonseca esteve presente na ilha Jeju, na Coreia do Sul, no dia em que a produção de figurado em barro de Estremoz foi reconhecida pela UNESCO. “Foi uma emoção muito grande ver reconhecida uma coisa que antigamente era um pouco desvalorizada chegar a um ponto de ser conhecida pelo mundo inteiro”, relembra a sua irmã Maria Inácia.

É um motivo de orgulho muito grande, porque as pessoas antigamente para a arte chegar até hoje passaram por muitas dificuldades, mas foi com certeza o gosto que as pessoas tinham por fazer que prevaleceu”, remata a artesã.

“Os bonecos eram vistos, nomeadamente pelos estremocenses, como uma arte pouco valorizada, uma arte pouco nobre”, afirma Jorge da Conceição. “A classificação da UNESCO veio assim dar muita notoriedade a este tipo de arte, trouxe mais clientes, trouxe também mais responsabilidade obviamente a quem faz estas figuras, mas sobretudo trouxe atratividade”, explica.

Apesar de não haver muitos jovens interessados em aprender este ofício, Jorge acredita que “hoje em dia já não há o risco da arte morrer”.

Presépio. Peça da autoria de Jorge da Conceição

Com 34 anos, Ricardo Fonseca é um dos mais jovens barristas de Estremoz. Sobrinho das irmãs Flores, foi aprendendo a arte com as tias aos 13 anos para ocupar os tempos livres durante as férias da escola. “Começou a aprender aqui connosco porque vinha no tempo das férias”, conta Maria Inácia.

Jorge da Conceição considera que o município de Estremoz tem desenvolvido nos últimos anos um importante trabalho educativo junto dos mais novos. O artesão acredita que “não deve haver nenhuma criança em Estremoz que não saiba o que é um boneco de Estremoz e que não tenha feito os seus bonecos na escola”.

Todas as crianças de alguma forma são expostas a isto. Depois nem todas seguem, obviamente, mas fica lá a semente e pode ser que mais tarde alguns venham a aprender”, explica Jorge, esperançoso em relação à nova geração. Tal como aconteceu com ele, que aos 50 anos redescobriu a sua paixão de criança e voltou a sujar as mãos no barro, carregando agora também ele o legado da sua família.

Casas de campo em Estremoz

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