Cacela velha

Cacela velha. Por e55evu

Cacela Velha pertence a um Algarve onde o mar, a Ria Formosa e a terra são um todo.

Chega-se a esta povoação pela Estrada Nacional 125, quer se venha de Tavira, ou pela Via do Infante. Atravessamos campos divididos por valados de pedra solta até desaguarmos numa terra larga, com as ilhas barreira e o oceano ao fundo.

Cacela velha

Cacela velha. Por F8studio

Choveu há pouco. A água caiu, breve, ligeira. O suficiente para soltar os cheiros do mato. A nuvens embrulhadas ainda hesitam, mas os fiapos de luz começam a furar, e o céu ganha o azul aberto e alto de sempre.

À nossa volta estende-se a Várzea de Cacela. A paisagem envolve o núcleo histórico das pedras e das gentes. Mas também ela conta uma narrativa sua: por aqui, oliveiras e amendoeiras pontuam os solos num esforço de arborização em curso. Dezenas de espécies autóctones –muitas em vias de extinção– foram reunidas e convivem no jardim representativo da flora do Algarve.

E, ao fazer o passeio da Ribeira das Hortas até à Ria, descobre-se um talude destinado a travar a erosão dos solos. Foi criado com oliveiras centenárias, trazidas de Silves, enraizadas por entre murtas, palmeiras anãs, medronheiros e aroeiras. Um esforço de renascimento a lembrar que Cacela também viveu ligada aos campos.

Percorremos agora o caminho de empedrado irregular, por entre uma sucessão de casas baixas, brancas de cal, ornamentadas com platibandas e chaminés.

Cacela é um Algarve antigo. Sincero.

Cacela velha

Cacela velha. Por F8 studio

Os poetas que amaram este lugar dão nome às ruas, e os seus poemas são o fio de Dédalo que vamos seguindo ao virar de cada esquina. E é assim que nos enchemos do mar chão à nossa frente, contornado pela Ria formosa e as ilhas barreira. Cacela desprende-se do alto desta falésia, debruada por um muro caiado de pedras toscas a que nos encostamos, rendidos à essência, como Sophia já o tinha dito:

As praças fortes foram conquistadas
Por seu poder e foram sitiadas
As cidades do mar pela riqueza
Porém Cacela Foi desejada só pela beleza.
Sophia de Mello Breyner Adresen
Há várias Cacelas em Cacela. De várias raças e línguas. E se o Atlântico chega a ela, o Mediterrâneo sempre aqui viveu.
Quando a aurora chega, dorme e guarda como avaro o seu perfume.
Quando cai a noite espalha-o e exalta-o.

Assim era descrita Cacela, terra natal do poeta berbere Ibn Darrag al-Qastalli, no século X.

Lugar magnífico, passado de mão em mão, apetecido e disputado pela sua geografia e abundância de recursos.

No século XII, o geógrafo Al-Idrisi, relata-a como “(…) uma fortaleza construída à beira-mar. (…) Está bem povoada e há nela muitas hortas e campos de figueiras”.

Para fenícios e cartagineses, teve a função de entreposto no contexto do comércio que animava o Mediterrâneo. Mais tarde ,os romanos fizeram dela uma importante base militar. Também promoveram um intenso povoamento rural, que se deu sobretudo nas planícies interiores até ao barrocal, tocando o início da serra.

Cacela velha

Cacela velha. Por paulojsr

Mas é sob domínio árabe que Cacela vive o seu apogeu, considerada a sede de um extenso território à sua volta, a que se aliava a importância em termos de defesa, graças à sua alcáçova. O prestígio alcançado na época chegou mesmo a ultrapassar o de Tavira.

Já na Idade Média foi um dos últimos castelos a ser conquistado pelos cristãos aos almóadas, em 1239. Um ano depois, foi doada por D. Sancho II à Ordem Militar de Santiago da Espada.

O testemunho de cada um destes povos chega-nos hoje através dos incontáveis vestígios arqueológicos, constantemente postos a descoberto, com uma villa romana ou um possível bairro residencial islâmico, entre muitos outros. Mesmo à luz do dia é possível adivinhar estas camadas de vida diferentes. Basta estar atento.

Entretanto, o adro da Igreja renascentista de Nossa Senhora da Assunção enche-se com a chegada de turistas falando um espanhol com sotaque andaluz.

Cacela velha

Cacela velha. Por Marta Neves

Este cortejo segue-nos em direção à fortaleza, edifício em forma de estrela, com dois baluartes pontiagudos, virados estrategicamente para o mar. Foi sempre esta a vantagem: ver mais de cima e até mais longe, e assim controlar piratas, mercadores ou pescadores, enfim, qualquer embarcação que navegasse ali perto.

Continuamos. Pelo meio passamos por uma escultura atual em ferro forjado, a lembrar uma árvore de braços erguidos para o céu, ou talvez pássaros enlaçados que se preparam para voar do alto deste promontório. Quem sabe. É preciso ver.

Chegamos por fim à cisterna, símbolo comum a todos os povos que se apaixonaram e escolheram este pedaço de terra como seu. Todos eles cientes do bem precioso que a água representava, aproveitada com engenho e respeito.

Se o tempo fosse estival, por estas ruas haveria mesas corridas de pequenos restaurantes. As ostras, as conquilhas e outras delícias trazidas da Ria seriam os pratos ansiadas.

Mas e a Ria? Como se chega lá? Por umas escadas feitas de pedra, onde se contam mais de 100 degraus. Tem-se a sensação de se passar por entre uma floresta agreste, em que os catos em volta vão crescendo e agigantando e ultrapassando as nossas cabeças. Os longos picos aguçados são o que nos impede de colher os figos rosados que ali se dão, felizes e intocáveis.

Já cá em baixo, na areia, uma noiva dirige um cortejo de dois convidados até um barco de madeira ali tombado pela maré baixa. O consorte, de calças arregaçadas até aos joelhos, acaba de sair de uma poça de água, sem receio de molhar com salmoura as roupas de cerimónia. Cenas magníficas.

Está desse lado do verão
onde manhã cedo
passam barcos, cercada pela cal.
Das dunas desertas tem a perfeição,
dos pombos o rumor,
da luz a difícil transparência
e o rigor.

Eugénio de Andrade

Se da Ria se quiser chegar ao mar, a volta é outra: saindo da vila, fazemos um quilómetro mais para poente, até chegar ao sítio da Fábrica. O nome vem de uma antiga fábrica de cerâmica, a companhia algarviense, que aí funcionou até 1940. Um pequeno ancoradouro serve para apanhar boleia num qualquer barco de pescadores. É assim que se chega até ao cordão de areia mais à frente, a Praia da Fábrica Praia de Cacela, considerada uma beleza inexplicável. Mas há quem nem se importe e atravesse a Ria a pé, quando a maré está baixa.

Tudo isto para lembrar que Cacela é moura. Mais do que tudo. Um ponto caiado, uma luz. Aqui sente-se o compasso das marés e o ritmo da terra. Ouve-se o silêncio e o ar é maresia.

Casas de campo em Cacela

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