Por Michael Meijer

Castro Marim é uma mão cheia de cores e formas: o castanho seco dos montes, pontuado pela sombra da vegetação mediterrânica, é suavizado pelo Guadiana, quando o rio chega perto da foz, pronto a juntar-se ao Atlântico. Do lado do sapal, a alvura dos montes de sal é tingida por bandos garridos de flamingos nas lagoas da Reserva Natural de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

E se a paisagem natural se faz de contrastes, o mesmo acontece com a paisagem criada pelos habitantes desta vila, ao longo dos seus vários momentos. É assim que à placidez das casas térreas, caiadas de branco, salpicadas por platibandas vivas, e às ruas de ambiente pacato e suave se opõe a imagem poderosa e robusta do castelo, do cimo do monte; no fundo, personificando o coração de Castro Marim.

A localização raiana da vila fez dela, desde sempre, um ponto estratégico de proteção face às gentes vindas do Mediterrâneo, sobretudo serviu de travão contra potenciais investidas do reino de Castela, mesmo ali ao lado.

A herança cultural e histórica e o seu património natural permitem perceber como se desenvolveu e organizou este lugar, e o que o tornou único até aos dias de hoje. São muitos os pontos de interesse a percorrer. Comecemos por aquilo que foi edificado pela mão humana, como o Castelo de Castro Marim. Quando se vislumbra ao longe lembra logo uma fortaleza militar.

Por Marc Ryckaert

A sua história relata os momentos essenciais de Castro Marim: tudo indica que o monte onde está implantado já era ocupado por um castro, no fim da Idade do Bronze. Sabe-se que a foz do Guadiana era muito concorrida, por via do comércio feito por fenícios, gregos e cartagineses vindos até este ponto mais ocidental. E daí a evidente necessidade de controlar quem se aproximava.

Esta estrutura militar vai sendo construída e reconstruída ao longo dos séculos: no período da romanização a fortificação é renovada, acompanhando a preponderância política e económica da povoação na época. É com a ocupação muçulmana que se julga que o castelo tenha ganho a sua forma quadrangular, com torres semicirculares nos vértices.

Com a Reconquista Cristã, durante o reinado de Sancho II, Castro Marim é tomado aos muçulmanos por D. Paio Peres Correia, em 1242. Inicia-se a partir daí uma política de repovoamento, a cargo das ordens militares. Com D. Dinis e a assinatura do Tratado de Alcanizes, em 1297, as fronteiras do reino são convencionadas de forma definitiva com Castela.

Para garantir o seu cumprimento, interessa vigiar os movimentos do lado de lá do Guadiana; por isso mesmo o rei ordena que se reforce a estrutura do Castelo. Outro momento essencial é em 1640, com a guerra da Restauração. A necessidade de fortalecer o sistema defensivo-militar justifica a renovação de partes da fortaleza.

Por sergojpg

A mesma motivação explica que por essa altura se tenha erigido o chamado Forte de S. Sebastião de Castro Marim. É construído a partir de 1641, na zona sul do Monte do Castelo, numa zona conhecida pelo nome de Serro do Cabeço. A sua designação vem de uma ermida a São Sebastião que aí existia.

Com o mesmo efeito junta-se ainda a construção do Revelim de Santo António de Castro Marim. No seu interior fez-se a Ermida de Santo António, em estilo barroco. Todas estas estruturas podem hoje ser visitadas. Para além delas, há um conjunto de igrejas a percorrer. Destaca-se a Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Mártires: vai ser criada no século XVI como ermida, fora das muralhas. Isto porque a sua congénere inicial, situada dentro do castelo, começou a revelar-se demasiado pequena para uma população em crescimento.

A natureza é também mãe deste sudeste algarvio onde se descobre a Reserva Natural de Castro Marim e Vila Real de Santo António. Aqui, junto à foz do Guadiana, são muitos os ecossistemas que convivem ainda em equilíbrio. A paisagem alberga espécies animais e flora próprias das chamadas zonas húmidas.

Um passeio a pé ou de bicicleta por entre os trilhos de areia é a forma perfeita para apreciar uma ambiência serena que abriga sapais sobrevoados por bandos de aves. Enquanto isso, os tons de azul que vamos contando desde o céu até aos charcos, veios ou pequenos cursos de água contrastam com a brancura dos montes de sal.

Por KajzrPhotography.com

O sal foi, desde tempos ancestrais, a grande riqueza de Castro Marim. A sua exploração começou com fenícios e romanos, apostados nos processos à volta da conservação do peixe. Hoje continua válida a mesma geometria das salinas e a sua produção tradicional tal qual era feita por aqueles povos. Na Casa do Sal, encontra-se o melhor repositório de conhecimento sobre esta tradição, a merecer toda a atenção.

Mas há mais: se a alimentação e a indústria sempre contaram com estes cristais marinhos, desde há alguns anos o sal somou o estatuto de “condimento de bem-estar e beleza”. Foi o que aconteceu na Salina Barquinha, que passou a ser explorada como se fosse um spa em plena natureza, através da oferta de banhos flutuantes, com aplicação de argilas, sempre ao ar livre.

Mas outras águas rodeiam a região de Castro Marim; por aqui existem dois importantes recursos. Um deles é a barragem de Odeleite, construída na Ribeira com o mesmo nome, com a nascente na Serra do Caldeirão: em 2015, uma fotografia aérea partilhada online, deixava ver que a albufeira da barragem que parecia mesmo ter os contornos de um dragão azul.

Ora este é símbolo de poder e boa sorte entre os chineses. Este “sinal” tornou a fotografia viral e acicatou a curiosidade à volta do globo. O facto é que muitos têm sido os visitantes em busca daquele a que passaram a chamar “Rio do Dragão Azul”.

Por Alexmol

Já na Barragem de Beliche pode-se praticar uma série de atividades desportivas, desde natação, windsurf, para além de os barcos de recreio que por aqui se passeiam. Tudo isto é também é possível na orla marítima, por exemplo na Praia Verde ou em Monte Gordo, ambas com uma temperatura de água bastante elevada, devido à influência direta das correntes vindas do Mediterrâneo, para além das suas famosas marés muito baixas.

Nos anos mais recentes, durante o mês de agosto, a vila de Castro Marim vive o seu festival “Dias Medievais” e que toma o centro histórico como cenário para reproduzir o quotidiano da população durante aquele período da história. Este acontecimento permite compreender os ritmos de então, os afazeres, as profissões, os pequenos nadas que dessas épocas passadas chegaram até nós. Este é motivo de atração em período de férias.

Fora desta data as tradições continuam a ser um pouco o que eram, daí que não surpreenda nada encontrar gentes antigas, ocupadas com ofícios como o de sapateiro, a trabalhar a empreita ou a fazer a renda de bilros.

Há tanto por onde espalhar a vista, pelo antigamente e pelos dias de hoje; pela Serra, por Espanha ali ao lado e depois o mar a seguir aos sapais. Quem sabe o que mais se irá descobrir em Castro Marim, onde o ritmo da terra se resguarda tão bem.

Casas de campo em Castro Marim

Publique um comentário

* Estão marcados os campos obrigatórios.