Marvao

Marvão. Por Anna Kompanieitseva

Castelo de Vide e Marvão são duas faces do Alto Alentejo. Se o Parque Natural da Serra de S. Mamede ampara estas vilas, quase coladas a Espanha, o que se descobre numa pouco ou nada se repete na outra. Ambas são discretos tesouros, de personalidade vincada pela História e histórias a que assistiram.

Castelo de Vide

Castelo de Vide. Por alexilena

Vide ganhou o seu castelo quando o edifício que lhe dá nome começou a ser construído no reinado de D. Dinis, sendo terminado no de Afonso IV, seu filho.

Desde sempre se associa esta paragem às águas com propriedades terapêuticas. Aliás, são várias as fontes construídas na povoação e à sua volta, merecendo mesmo o seu mapeamento através do chamado Roteiro das Fontes: estas são mais de uma dezena e servem de pretexto para se desfiarem quotidianos de outrora, sempre ligados às águas de exceção que aqui correm à medida que se calcorreia a terra a pé.

Outra particularidade de Castelo de Vide é a sua judiaria, testemunho palpável da presença enraizada dos cristãos-novos. Estes são associados à vila em diferentes momentos. Por exemplo, quando D. Pedro I concede terras ao Mestre Lourenço, seu físico. Séculos mais tarde, quando os reis católicos Fernando e Isabel, com apoio da Inquisição espanhola, expulsam o povo judeu dos seus territórios, muitos vêm para o reino vizinho. D. João II via com bons olhos a entrada de gentes com capitais, sendo que muitos aqui se refugiaram, acabando por modelar Castelo de Vide à imagem dos costumes hebraicos.

Fonte da Vila. Por StockPhotosArt

A judiaria iria crescer então desde as muralhas do castelo até à Fonte da Vila. Ao longo desta encosta começariam a desenhar-se ruas de casas baixas e pequenas. As portas, em forma de ogiva, por vezes eram marcadas com sinais, indicando se davam acesso a espaços particulares ou se estavam ligadas ao comércio e a outros ofícios. A sinagoga medieval é o símbolo maior da cultura judaica aqui acoitada, composta por dois pisos, um deles subterrâneo, e onde atualmente funciona um museu.

Num registo agora católico, as mesmas ruas sinuosas de Castelo de Vide, marcadas pelo branco da cal, de vasos em flor, continuam num emaranhado que expande pelo burgo medieval e por toda a muralha da vila, a merecerem tempo para se apreciar.

É curioso pensar como numa mesma terra conviveram uma sinagoga e várias igrejas, das quais se conta mais de 20. Vale a pena descobrir a igreja matriz de Santa Maria da Devesa. Foi construída no século XVIII sobre uma pequena capela, correspondendo a um dos maiores templos existentes no Alto Alentejo. E se se explorar o monte à frente da vila, descobre-se a Capela de Nossa Senhora da Penha, a partir da qual se tem uma perspetiva bem diferente de Castelo de Vide.

Sinagoga. Por StockPhotosArt

Passear a pé será a forma mais genuína de contactar com a terra e perceber os seus ritmos, sejam eles mais ligados à natureza ou ao quotidiano e história da vila. Ao dispor do visitante existem até vários percursos pedestres, como sejam o de Castelo de Vide a Marvão, a grande rota de Castelo de Vide, o percurso da Serra de S. Paulo, entre outros. Refira-se que esta é uma terra muito fértil em vestígios pré-históricos, daí que se identifique uma profusão de monumentos megalíticos, desde antas a menires.

Por fim um apontamento para a gastronomia que Castelo de Vide oferece, e que se insere na tradição de sabores da região: pratos como o sarapatel, a alhada de cação, o fígado à moda de Castelo de Vide ou os pezinhos de coentrada são algumas das iguarias a averiguar à mesa, demoradamente.

Junte-se-lhes os enchidos numa variedade que vai da morcela fresca à farinheira de assar, passando por linguiças e paios. Tudo isto fará sentido acompanhado pelos vinhos da região.

Marvão

Marvão. Por StockPhotosArt

Esta mesma mesa farta será comum em Marvão, assim como resquícios da presença judaica. Tirando isso, a terra de que agora se fala, Marvão, respira um ambiente distinto.

Para lá chegar, sobe-se até 862 metros acima do nível do mar. Daqui tem-se a sensação de se dominar o horizonte a partir de uma fortificação que lembra um ninho de ave de rapina, implantado sob escarpas de um majestoso penhasco, num acesso quase impossível, logo, inatacável.

Com efeito, está-se no ponto mais alto da Serra de São Mamede, apenas a seis quilómetros de distância de Espanha e a sua disposição geográfica permite observar quaisquer movimentos no Rio Sever, um dos afluentes do Tejo. O seu claro valor estratégico explica a razão para as muralhas e o castelo terem sido consecutivamente reforçados e mantidos em condições operacionais. Este era também um ponto estratégico para outros negócios ligados ao contrabando fronteiriço, uma atividade conhecida de todos mas mantida oficiosa, que alimentava muita gente, apesar dos riscos que envolvia.

Marvão. Por Anna Kompanieitseva

No interior das muralhas de Marvão vive-se o verdadeiro ambiente alentejano: as ruas estreitas, de calçada íngreme e pedra da terra, são o tapete para calcorrear a povoação. As suas casas misturam épocas e estilos, deixando conviver janelas com adornos do manuelino, lado a lado com arcos góticos.

Marvão foi buscar o nome a Ibn Marwan, um muçulmano a viver na Península Ibérica. Consta que no final do século IX, uma discórdia com o Califa o levou a refugiar-se aqui. Coincide com este período da História a primeira referência escrita à povoação, na crónica de al-Rázi. Nela fala-se do Monte com o nome de Amaia de Ibn Maruán – correriam os anos de 876-877 – e já nessa altura a sua importância militar era reconhecida.

Este território passou a ser cristão na sequência dos vários avanços (sucedidos por recuos) da Reconquista. Foi D. Sancho II a elevar Marvão a vila. Hoje estamos perante um miradouro extraordinário em que os melhores pontos de observação são a torre de menagem do castelo e a própria Pousada de Santa Maria.

Marvão. Por StockPhotosArt

Este é um lugar retirado ao tempo, que merece ser percorrido passando pelo Convento de Nossa Senhora da Estrela e ainda pelo Museu Municipal, a funcionar na Igreja de Santa Maria. Ligeiramente afastadas alguns quilómetros ficam as ruínas de Anmaia, resquícios arqueológicos de uma cidade romana e onde hoje funciona o museu arqueológico. Ainda ali perto vale a pena procurar a Ponte Quinhentista que atravessa o rio Sever.

Termina-se este passeio com uma sugestão: sair de Marvão tomando a estrada em direção a Abrantes. Este trajeto faz-se nos dois sentidos, por uma estrada estreita com uma fila irrepreensível de freixos a marcarem as bermas, de um lado e do outro, e cujos troncos estão pintados de branco, a meio. Este detalhe gera uma sensação visual belíssima à medida que se ganha velocidade ao volante. De tal modo, que se a imaginação se soltar, há quem pense que as árvores estão vestidas com aventais alvos.

Casas rurais em Castelo de Vide

Casas rurais em Marvão

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