Magazine Natureza De Itália até aos Açores para salvar o burro da Graciosa

De Itália até aos Açores para salvar o burro da Graciosa

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Burros da Graciosa
Burros da Graciosa. Por Franco Ceraolo

Dizem que no arquipélago dos Açores há três vacas por cada habitante, mas na ilha Graciosa o burro é o rei. Raul Brandão chamou-lhe “ilha Branca” na sua obra As Ilhas Desconhecidas, de 1926, pelo casario branco e por chover pouco, o que torna a ilha seca e lhe dá uma tonalidade esbranquiçada no fim do verão.

Mas a segunda ilha mais pequena do arquipélago é também conhecida como “a ilha dos burros”. Quem o confirma é Franco Ceraolo, um italiano que dedicou grande parte da sua vida ao cinema e ao teatro como cenógrafo, mas que em 2006 aterrou nos Açores e decidiu ficar por ali.

Franco Ceraolo
Franco Ceraolo com os burros da Graciosa

Franco abre-nos a porta da sua casa – através do telemóvel, entenda-se – ao som de Ray Charles enquanto cozinha um molho para a massa, claro, não fosse ele italiano nascido em Cerveteri, não muito longe de Roma. “Não consigo viver sem música. Eu gosto muito de música antiga”, confessa entre risos, transportando-nos imediatamente para aquele ambiente acolhedor onde quase conseguimos sentir o cheiro do que cozinha.

Quando lhe perguntamos como é que um cenógrafo italiano que já trabalhou com grandes nomes como Ettore Scola, Federico Fellini, Bernardo Bertolucci, Martin Scorsese, entre muitos outros, foi parar à Graciosa, Franco avisa-nos que “é uma história longa”. Não esperávamos outra coisa que uma figura tão vibrante e entusiasmante.

A ideia de visitar os Açores surgiu ainda em 2002 quando a sua namorada da altura, uma americana que vivia em Los Angeles, sugeriu que se encontrassem nos Açores, convenientemente a meio caminho para os dois – Franco vivia em Roma.

Ilha Graciosa
Ilha Graciosa, Açores. Por Angrense

Quando procurou livros sobre o arquipélago, Franco deparou-se com uma falta de informação e conhecimento em Itália sobre estas ilhas portuguesas. Este desconhecimento agradou-lhe. O cenógrafo pensou então partir à descoberta do arquipélago e até quem sabe publicar um guia de viagens sobre os Açores.

A sua ideia inicial, em 2003, era ficar um ano sem trabalhar e descobrir os Açores, conhecer as pessoas, viver como um local. “Eu não gosto de fazer viagens de turismo. Gosto de viver em contacto com as pessoas. Não gosto de ser turista”, esclarece Franco.

Mas o sonho de viajar para os Açores teve que ficar adiado porque surgiu a oportunidade de Franco Ceraolo trabalhar no filme “A Melhor Juventude”, aclamada obra do realizador Marco Tullio Giordana, um projeto que não podia recusar.

Burro da Graciosa
Burro da Graciosa. Por Franco Ceraolo

Chegou finalmente aos Açores em 2006. “Queria ficar um mês, queria dar uma volta por todas as ilhas”, conta Franco à EscapadaRural. “Estava à procura de um lugar para ficar, comprar uma ruína, não tinha ideia ainda nessa altura. Mas já tinha decidido que não queria ficar enterrado em Roma”, diz entre risos, enquanto prova o molho para a massa.

A primeira ilha que visitou foi Horta, depois seguiu de barco para a ilha do Pico. Do Pico foi para São Jorge e foi aí que percebeu algo muito importante. Franco queria encontrar um refúgio para quando fosse mais velho e em São Jorge deu-se conta que “estas ilhas são um lugar fantástico para viver todo o ano, mas não são ideais para fazer turismo”.

Para o italiano, o clima chuvoso e instável dos Açores não é para qualquer pessoa e até conta que deixou de falar com um amigo de longa data, porque, em visita à Graciosa, a esposa do amigo não conseguiu suportar a chuva de verão açoriana.

Burros da Graciosa
Burros da Graciosa. Por Franco Ceraolo

Quando chegou à ilha Graciosa, toda a gente lhe falava sobre o burro da Graciosa. Franco Ceraolo começou a interessar-se sobre o tema e a pesquisar mais sobre a raça. “O burro da Graciosa tem uma história fantástica. Foi um motor da economia da ilha antigamente, porque os burros eram tudo, eram transporte, serviam para lavrar a terra”, explica.

Apesar das profundas alterações na agricultura e da mecanização do trabalho agrícola, atualmente, ainda há pessoas na ilha que utilizam o burro para lavrar a terra e como meio de transporte.

Burricada
Burricada na Graciosa. Por Franco Ceraolo

Antigamente, o burro era até utilizado em atividades lúdicas, como as burricadas, que eram passeios de burro pela ilha. Depois de 40 anos, Franco conseguiu organizar uma burricada na Graciosa em outubro de 2020.

“Eram à volta de 14 burros, alguns de cela, de albarda, outros em carroça. Fizemos um passeio, que era uma coisa que antigamente se fazia. Era uma forma de convívio para as pessoas se juntarem. Para mim era a parte mais interessante, juntar as pessoas para fazer um passeio”, recorda o “italiano dos burros”, como é conhecido na ilha.

Preservação de uma raça autóctone

Burricada
Burricada. Fonte: Confraria do Catarino

Um relatório estatístico de Manuel Bettercourt sobre a Graciosa, publicado em 1950, revela que em 1926 a ilha contava com cerca de 6800 habitantes e 1164 burros burros. “Ou seja, era mais de um burro por família”, conclui Franco.

Hoje em dia existem cerca de 90 burros em toda a ilha, sendo que Franco tem a criação maior com 26 burros. “Mas existem também noutras ilhas, porque, até hoje, estes burros são vendidos para outras ilhas”.

Burro da Graciosa
Burro da Graciosa. Por Franco Ceraolo

Com origem no norte de África, o burro da Graciosa é cinzento, tem riscas nas costas, barriga ou pernas e tem menos de um metro ao garrote, não ultrapassando os 1,05 metros. Apesar de não ter características para ser considerado anão, nos Açores é assim que o burro é conhecido, devido à sua baixa estatura.

Para os proteger e evitar o desaparecimento da raça, o primeiro passo foi criar a Associação de Criadores e Amigos do Burro Anão da Ilha Graciosa e fazer um levantamento dos animais que existiam em todas as ilhas, particularmente na Graciosa.

Com a ajuda do professor Artur Machado, do Centro de Biotecnologia da Universidade dos Açores, foram feitos estudos biométricos e genéticos e, em finais de junho de 2015, o burro da Graciosa foi reconhecido como raça autóctone.

Burro da Graciosa
Burro da Graciosa. Por Franco Ceraolo

O desafio passa agora por fazer um registo genealógico para cada burro, o que tem um custo. Franco Ceraolo explica que os criadores ainda não têm apoios comunitários, porque para isso é necessário fazer um registo de todos os animais existentes.

A associação açoriana mantém contacto com outra associação do continente que trata de proteger a raça autóctone do burro de Miranda. “Eles estão a ajudar-nos para conseguirmos encontrar um apoio”, afirma.

Quem visita a Graciosa pode visitar os burros de Franco e outros espalhados pela ilha, interagir com eles e dar-lhes comida. Estes animais têm potencial turístico para pequenos passeios, terapia (asinoterapia) ou até produção de leite, como já acontece na ilha Terceira.

Burro da Graciosa no cinema

Burros da Graciosa
Burros da Graciosa. Por Franco Ceraolo

Apesar de estar retirado da carreira de cenógrafo, o gosto pelo cinema de Franco Ceraolo mantém-se bem vivo. Depois de ler a obra Platero e eu, do escritor espanhol Juan Ramón Jiménez, que recria poeticamente a vida e morte de um animal de estimação, o burro Platero, o italiano pensou imediatamente que tinha fazer um filme sobre a história.

Franco entrou em contacto com Gonçalo Tocha, um realizador português que em 2011 estreou um documentário filmado nos Açores sobre a ilha do Corvo, intitulado É na Terra não é na Lua, vencedor de vários prémios internacionais.

“Já conhecia o Gonçalo Tocha, já conhecia o seu trabalho fantástico, entrei em contacto com ele, enviei o texto e perguntei o que ele achava de fazer um filme sobre os burros”, explicou Franco com entusiasmo.

As gravações já decorrem há mais de um ano e deverão terminar em breve. Ainda não há data de estreia nem título para este filme onde o burro da Graciosa é o protagonista. No entanto, Franco Ceraolo garante que têm “muito bom material”.

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