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Em Montalegre, as sextas 13 são a sorte grande do turismo

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Sexta 13 em Montalegre (2004). Fonte: Câmara Municipal de Montalegre

Sempre que o calendário acerta o “número do azar” com o penúltimo dia da semana, a vila raiana de Montalegre, que pertence ao distrito de Vila Real, transforma-se na “capital do misticismo”. Mas o supersticioso número 13 não traz má sorte a esta vila. Muito pelo contrário. As sextas 13 são o jackpot para a hotelaria e restauração do concelho.

Na única sexta-feira 13 do ano – a primeira pós-pandemia -, a 13 de maio, Montalegre já esgotou a capacidade hoteleira do concelho e em alguns dos concelhos vizinhos, como Chaves, Boticas e até Ginzo de Límia, na Galiza. Com mais de 500 camas, o vice-presidente da autarquia, David Teixeira, espera receber perto de 50 mil visitantes “para uma grande noite e para um grande fim de semana”.

Como todas as sextas 13, o evento começa às 13h13 em ponto com animação e música tradicional pelas principais ruas de Montalegre. Em entrevista à EscapadaRural, David Teixeira revela que todo o casco histórico estará decorado e haverá sete palcos com diferentes tipos de animação.

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Sexta 13 em Montalegre (2006). Fonte: Câmara Municipal de Montalegre

A partir das 23h, no Castelo de Montalegre, terá lugar o espetáculo “A Besta e a Donzela”, com o bruxo Queiman e Andrea Pousa. Seguido da atuação da banda Virgem Suta, junto ao edifício da Câmara Municipal, a partir da meia-noite.

Contudo, o momento mais aguardado da noite é protagonizado pelo padre António Fontes, a quem caberá fazer a tradicional queimada, uma bebida feita à base de aguardente, limão, maçã, canela e açúcar. O objetivo é queimar o azar, o mau olhado, a inveja, pragas e feitiços, explica o padre Fontes em entrevista por telefone. “Só fica o bom, que é o licor que se bebe”, acrescenta.

“Montalegre sempre esteve ligado à superstição e ao misticismo”

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Sexta 13 em Montalegre (2006). Fonte: Câmara Municipal de Montalegre

O padre Fontes, também conhecido como Dom Bruxo, agora com 82 anos e um pouco debilitado devido à doença de Parkinson que lhe foi diagnosticada há 20 anos, é a figura central do evento, tanto das sextas 13 como do Dia das Bruxas (31 de outubro).

Segundo o vice-presidente, “Montalegre sempre esteve ligado à superstição e ao misticismo”. Por um lado, pela sua localização de montanha e isolamento, num autêntico enclave entre a Galiza e o norte de Portugal. Esse isolamento é uma das razões para que se tenha preservado uma identidade muito própria e tradições muito vincadas na região. Parte importante dessas tradições está diretamente ligada ao sobrenatural e à ideia de que a bruxaria teria poderes curativos.

Se recuarmos dezenas de anos e enquadrarmos a realidade de isolamento da região, onde era difícil de chegar um médico e medicamentos, conseguimos entender a necessidade de recorrer a mezinhas e crenças populares como cura para males físicos e de espírito. É dessa necessidade que nasce a queimada, à qual David Teixeira chama de “poção mágica”, usada “para combater o frio, as constipações, as gripes e os resfriados”.

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Padre Fontes (à direita) na Sexta 13 em Montalegre (2006). Fonte: Câmara Municipal de Montalegre

Muito provavelmente esta sabedoria popular não teria chegado até aos dias de hoje se não fosse pelas mãos do padre Fontes que “sempre alimentou esta memória coletiva e sempre foi valorizando rezas, mezinhas, lendas e tradições”, diz o vice-presidente, que acredita que se não fosse pelo sacerdote já teriam desaparecido.

Foi o padre António Fontes o responsável por colocar Montalegre no mapa com a realização do Congresso de Medicina Popular de Vilar de Perdizes, que se realiza todos os anos no primeiro fim de setembro, desde 1983. Em 2002, o sacerdote começou também a celebrar todas as sextas-feiras 13 com um jantar para um grupo restrito de pessoas.

Nessa altura, três restaurantes da vila faziam um jantar baseado em algumas crenças populares do imaginário tradicional local. No fim desses jantares o padre Fontes passava pelos três restaurantes para servir a queimada e fazer o esconjuro.

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Jantar de Sexta 13 em Montalegre (2006). Fonte: Câmara Municipal de Montalegre

Mas houve um ano em que apareceram num dos restaurantes mais de 150 pessoas que também queriam participar e não tiveram lugar. Foi aí que se percebeu o potencial do evento que aumentaria se fosse organizado a uma escala maior. Passa então para o Mercado Municipal e mais tarde para o castelo, onde atualmente decorrem as principais atividades.

Todo este legado do passado aliado a um lado mais festivo é o segredo para o sucesso de um evento que cresceu ao longo dos anos e se tornou num fenómeno em termos de público.

Para o padre Fontes, “a razão de promover esta atividade sempre foi desenvolver o turismo, a gastronomia e a procura por esta região. Partindo dos costumes, das crenças, das superstições, da cultura popular, trazer movimento e desenvolvimento para a terra”.

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Padre Fontes distribui a queimada (2006). Fonte: Câmara Municipal de Montalegre

E é por isso que, todas as sextas 13, milhares de pessoas, supersticiosos ou não – embora o padre Fontes diga que “somos todos um bocadinho supersticiosos” -, rumam até Montalegre para ter uma experiência do além. 

O número 13 até pode ser conhecido como o número do azar, mas a verdade é que até agora só trouxe sorte a Montalegre e a quem visita esta vila transmontana. “Quem beber da queimada do padre Fontes terá um ano de sorte”, garante o vice-presidente.

Vilar de Perdizes: a aldeia mais mística de Portugal

Desde 2002 que a sexta-feira 13 significa festa em Montalegre. Neste município do distrito de Vila Real não há azar. Aqui a população convive em perfeita harmonia com bruxarias, poções mágicas, mezinhas e curas.

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