Fiadeiras de Soajo

Fiadeiras de Soajo. Imagem cedida por Sandra Barreira

Os invernos na vila de Soajo, no concelho de Arcos de Valdevez, são habitualmente longos e frios. Mas há algo que quebra a solidão e a obscuridade destes meses mais duros: o fiadeiro.

Os fiadeiros eram muito comuns antigamente e, à semelhança de outros trabalhos como as debulhadas das espigas, eram feitos nas casas, à noite. Servia para juntar as mulheres, amigas, familiares à volta do trabalho da lã, entre conversas e confidências femininas.

Fiadeiras de Soajo

Fiadeiras de Soajo. Imagem cedida por Sandra Barreira

Quando se aproximava a hora de terminar, os homens apareciam e ficavam à porta da casa onde se realizava o fiadeiro. Acompanhados por uma concertina, cantavam para as mulheres, a pedir para entrar, e só depois de obterem resposta delas é que entravam.

Depois disso, dançavam e cantavam. Enquanto se fiava, muitas mulheres carpeavam a lã, outras faziam meias ou outras peças. “Era sempre um momento de muita partilha e cumplicidade entre as mulheres”, explica à EscapadaRural Sandra Barreira, advogada, que vive entre o Porto e Soajo, e é uma das grandes impulsionadoras da preservação desta tradição.

“Era um momento em que as mulheres se juntavam, sobretudo ao final do dia, à volta da lareira, reuniam-se em casa ou quando eram grupos mais organizados na Casa do Povo. Era um momento de festa e de baile”, continua Sandra.

Fiadeiras de Soajo

Fiadeiras de Soajo. Imagem cedida por Sandra Barreira

“Para além de toda a partilha de conversas e saberes, havia muitas cantigas, cantavam muito”, conta Sandra Barreira. E foi precisamente através da música e dos cantares tradicionais que Sandra começou a desenvolver este projeto de reavivar os fiadeiros. “Comecei pela parte das cantigas, não só do fiadeiro, mas sobretudo as cantigas do trabalho no campo, porque era sempre uma coisa que me comovia e que achava que não tinha um grande palco”.

Esse grande palco chegou em 2014 aquando da comemoração dos 500 anos do Foral de Soajo, quando Sandra conseguiu reunir um grupo de mulheres com o objetivo de darem uma nota mais festiva e original ao evento cantando uma cantiga tradicional – a cantiga escolhida foi o “São João” – e fazendo uma teatralização do fiadeiro.

A atuação gerou eco e Sandra Barreira foi contactada por Tiago Pereira do projeto “A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria” que pretendia gravar em Soajo este grupo de mulheres a cantar. Nestas gravações, os cantares eram espontâneos, à semelhança do que faziam no dia a dia. A preocupação era, essencialmente, encontrar os estilos (os ritmos), para não se enganarem em cada uma das cantigas. De resto, fluía consoante a inspiração.

Ao mesmo tempo, o grupo começou a recriar os antigos fiadeiros, na Casa do Povo, abertos a todos os que quisessem participar. “Era como se passava antigamente, as pessoas iam para fiar, para fazer meia, para trabalhar a lã e para ensinar umas às outras. Houve muita gente nova que aprendeu. Eu também fui uma das que aprendi. E depois estava-se constantemente a falar ou a cantar”, recorda Sandra.

Em março de 2018, as fiadeiras de Soajo foram convidadas, mais uma vez por Tiago Pereira, para encerrar o ciclo “Portugal em Vias de Extinção” que decorreu no teatro D. Maria II, em Lisboa. Esse convite obrigou a que o grupo se organizasse e houve uma recolha de quadras e cantigas tradicionais. “Fui recolhendo e organizando e temos mais ou menos 15 cantigas”, conta Sandra.

O grupo que ficou definido para o espetáculo em Lisboa é o grupo que ainda hoje alegra os serões de Soajo, com a excepção da Tia Ana, que faleceu com 92 anos e que Sandra recorda com carinho como “a figuraça do grupo” e “uma mentora”. Hoje em dia, o grupo conta com 12 mulheres com idades compreendidas entre os 58 e os 87 anos.

Preservar a herança cultural de Soajo

Fiadeiras de Soajo

Fiadeiras de Soajo. Imagem cedida por Sandra Barreira

Sandra Barreira em entrevista à EscapadaRural conta que há vários projetos em cima da mesa, entre os quais a criação da Associação Cultural das Cantadeiras e das Fiadeiras de Soajo. A associação pretende juntar o grupo das fiadeiras – parte mais teatral – e as cantadeiras – um grupo mais pequeno que usa em algumas cantigas instrumentos musicais como a concertina e as castanholas.

O grande objetivo de Sandra é conseguir melhorar a recolha e arquivo da herança cultural de Soajo, a terra que a viu nascer e crescer e onde volta sempre que possível. Com 40 anos, o que a move é a vontade de, apesar de algumas adversidades, contribuir sempre para que não se perca o pouco que Soajo ainda tem. “Tento estar envolvida, porque acho que é uma forma de contribuir para dinamizar, para divulgar, para que não continuemos a perder”, afirma.

Fiadeiras de Soajo

Fiadeiras de Soajo. Imagem cedida por Sandra Barreira

Sandra pertence a uma geração que emigrou para fora de Soajo, para fora de Portugal, em busca de melhores oportunidades. Apesar de dividir o seu tempo entre Soajo e o Porto, por questões profissionais, a advogada tem muito orgulho nas suas raízes e acredita que projetos como este podem ajudar a dar a conhecer a vila e contribuir para que os próprios soajeiros se sintam mais ativos.

Num lugar onde morrem mais pessoas do que nascem, para Sandra “é mesmo muito importante tentar preservar, divulgar, recuperar o que se perdeu, o que está perdido ou que está ali meio adormecido, porque é a única forma também de manter ali alguma vida”.

Letra de uma cantiga do Fiadeiro

“Sarão”

Estou à porta do sarão
C’um pé dentro, outro fora
Se é cedo mandai-me entrar
Se é tarde mandai-me embora
Entrai olhinhos, entrai
Por este sarão adentro
Reparai olhai se vides
Quem trazeis no pensamento
Fiadeiras que fiais
O linho à minha sogra
Fiai-o bem fiadinho
Que vai passar vila nova
Quem me dera ser o linho
Que vós na roca fiais
Quem me dera tantos beijos
Como vós no linho dais
Estou à porta do sarão
Com um feixinho de lenha
Estou à espera de uma fala
Que da vossa boca venha

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