Por Rosino

Caretos há muitos. Mas os caretos de Podence são os únicos que têm chocalhos e que, desde dezembro de 2019, integram a lista da UNESCO de Património Cultural Imaterial da Humanidade. Todos os anos, durante o Entrudo, que este ano decorre de 22 a 25 de fevereiro, a paz que habitualmente reina nesta aldeia de cerca de 200 habitantes do concelho de Macedo de Cavaleiros é interrompida por estas personagens endiabradas que saem à rua para chocalhar as raparigas.

Os caretos representam uma tradição do Carnaval de Trás-os-Montes e Alto Douro com raízes célticas e de um período pré-romano, provavelmente relacionada com a existência dos povos Galaicos e Brácaros na Galiza e norte de Portugal.

Por Rosino

Inseridos nas festividades de inverno destas regiões, os caretos de Podence simbolizavam a fertilidade numa estação do ano escura e num tempo de muita solidão nas comunidades rurais. O Carnaval era um pretexto para cometer muitos exageros e os rituais estavam ligados à entrada na primavera e à esperança das sociedades agrícolas em terem boas colheitas.

Hoje em dia, o “Entrudo Chocalheiro” atrai a Podence milhares de curiosos portugueses e estrangeiros durante os quatro dias em que duram as festividades. Mas nem sempre foi assim. Em meados dos anos 70 não deveria haver na aldeia mais do que dois ou três fatos de caretos.

António Carneiro, Presidente do Grupo de Caretos, explica que “a tradição esteve quase extinta nos anos 60 e 70” muito por causa da emigração, a Guerra Colonial e o regime salazarista, que era adverso a este tipo de tradições. A partir dos anos 80, houve um renascer destas figuras diabólicas muito por causa da criação do Grupo de Caretos, em 1985.

Por Rosino

A antiguidade e originalidade desta tradição e a vontade das gentes de Podence em preservar estas figuras fizeram dos caretos personagens famosas para lá dos limites da aldeia.

Estes homens de fatos às riscas com capuz de cores garridas e máscara com um nariz saliente feita de couro, latão ou madeira já fizeram soar os seus chocalhos não só de norte a sul de Portugal, mas também na Disneylândia em Paris, no Carnaval de Nice, no Carnaval de Viareggio em Itália, na Alemanha, em Espanha, e até em Macau. António Carneiro acredita que estas participações nacionais e internacionais foram também uma forma de cativar os jovens da aldeia a juntarem-se ao Grupo de Caretos.

Caretos de Podence no Porto. Por Helderrobalo

No Domingo Gordo e na Terça-feira de Carnaval, os rapazes da aldeia encarnam as misteriosas personagens e cheios de energia percorrem Podence aos saltos e gritos. Um dos principais motivos das correrias é encontrar raparigas para dançar com elas e as “chocalhar”. Esta relação dos caretos com as mulheres simboliza a fertilidade que a terra começa a ganhar por esta altura do ano.

Mas para quem quer visitar Podence fora da época do Entrudo e saber mais sobre os caretos, a inauguração da Casa do Careto, em fevereiro de 2004, contribuiu para dar mais visibilidade à tradição. Em exposição permanente podem ser encontradas telas da pintora Graça Morais e de Balbina Mendes e outros artistas da região, fotografias de António Pinto e Francisco Salgueiro, algumas publicações, os fatos, os chocalhos, as máscaras e toda a indumentária destas figuras.

Caretos de Podence, um património a preservar

Casa do Careto. Por Joseolgon

Na Casa do Careto, aberta diariamente ao público, funciona também uma tasquinha regional onde podem ser saboreados os produtos de Podence. E foi precisamente aqui que as pessoas da aldeia se juntaram, em dezembro de 2019, para assistir à transmissão em direto da Colômbia da confirmação de que os tradicionais mascarados transmontanos são Património Imaterial da Humanidade da UNESCO.

“É um grande orgulho e uma grande alegria ver que a sua aldeia, uma aldeia tão pequena, hoje é conhecida a nível mundial”, garante António Carneiro. Um orgulho não só para a aldeia mas também para o resto do país que se uniu para apoiar a candidatura dos caretos de Podence a Património da UNESCO com várias homenagens e ações de apoio. Exemplo disso foi a criação de uma música especialmente dedicada ao grupo, gravada pela banda Quinta do Bill, intitulada “Olhem os Caretos”, que se assumiu como um hino e um tributo aos mascarados de Podence.

A tradição dos caretos passou também para o ecrã através do mini-documentário “A Pele do Diabo”, de Zé Maria Mendonça e Moura. O objetivo do realizador era retratar a dicotomia da realidade dos caretos que procuram fazer o bem durante o ano, mas durante o Entrudo vestem “a pele do diabo”.

The Skin of the Devil // A Pele do Diabo from Ze Maria M Moura on Vimeo.

Casas de campo em Macedo de Cavaleiros

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