Magazine Slider Espaços de coworking atraem nómadas digitais para o interior de Portugal

Espaços de coworking atraem nómadas digitais para o interior de Portugal

222 Shares
Espaço de Cowork de Alvoco das Várzeas
Espaço de Cowork de Alvoco das Várzeas. Por Pedro Ribeiro

Quando a pandemia da covid-19 paralisou o país e o mundo, em março de 2020, Andreia Proença, de 27 anos, trabalhava e vivia no Porto. O quarto alugado na cidade para onde foi estudar Engenharia e Gestão Industrial com 18 anos começou a parecer-lhe demasiado pequeno para um confinamento forçado. Foi então que a jovem, natural de Videmonte, no concelho da Guarda, decidiu voltar para a sua aldeia natal.

Por essa altura, o espaço de coworking de Videmonte ainda não estava em funcionamento, por isso, Andreia continuou a desempenhar as suas funções como gestora de produto numa empresa tecnológica de e-commerce a partir de casa. Mas a ideia de criar “espaços inusitados de trabalho ou incubação de ideias” com vista a atrair gente de várias partes do mundo já estava a ser desenhada.

Espaço de Cowork de Videmonte
Espaço de Cowork de Videmonte. Por Pedro Ribeiro

“Pode parecer que esta iniciativa é uma consequência da covid-19 e destas questões ligadas à pandemia, mas não. Efetivamente, toda a ideia é muito anterior à situação pandémica”, explica Célia Gonçalves, coordenadora do projeto levado a cabo pela Associação de Desenvolvimento Integrado da Rede das Aldeias de Montanha (ADIRAM), em parceria com as juntas de freguesias da região. 

Tendo em conta as tendências europeias de criação de espaços de cowork urbano, para a rede das Aldeias de Montanha, inseridas no Parque Natural da Serra da Estrela e na Paisagem Protegida da Serra da Gardunha, fazia sentido levar esta ideia até ao interior de Portugal. No início de 2019, foi apresentada a candidatura para o projeto Cowork Rural

Espaços com história

Espaço de Cowork da Lapa dos Dinheiros
Espaço de Cowork da Lapa dos Dinheiros. Por Pedro Ribeiro

Até ao momento, existem três espaços de coworking em funcionamento, inaugurados em outubro de 2021. Além de Videmonte – onde Andreia Proença trabalha diariamente -, também existe um espaço na aldeia de Alvoco das Várzeas, no concelho de Oliveira do Hospital, e outro na Lapa dos Dinheiros, no município de Seia

A ideia também era dar uma nova vida a edifícios desocupados que existiam nas aldeias em questão. O cowork da Lapa dos Dinheiros, por exemplo, funciona numa antiga escola primária que foi recuperada para o efeito. É também nesse espaço que podemos encontrar uns sofás que estavam no ecocentro, prontos para serem destruídos, e que foram reabilitados e “são hoje sofás lindíssimos, prontos a ser usados”, diz a coordenadora.

Espaço de Cowork da Lapa dos Dinheiros
Espaço de Cowork da Lapa dos Dinheiros. Por Pedro Ribeiro

O conceito de economia circular está muito presente no projeto. Em entrevista telefónica para a EscapadaRural, Célia Gonçalves reconhece que sempre que havia possibilidade de reabilitar e de dar nova vida ao mobiliário, isso foi feito. Além disso, o objetivo da associação passava também por valorizar os produtos da terra, envolver as comunidades locais e promover os artesãos e as micro-empresas da região.

“Aquilo que nós quisemos fazer foi criar espaços de trabalho que contassem uma história e isso acontece. Cada peça, cada objeto de design e decoração tem uma história. Eu acho que também é isso que encanta as pessoas que visitam os espaços”, explica a coordenadora do projeto.

Troca cultural e de experiências

Espaço de Cowork de Videmonte
Espaço de Cowork de Videmonte. Por Pedro Ribeiro

Apesar de o projeto não ter sido pensado nem desenvolvido em consequência da pandemia, a covid-19 veio com certeza alterar a visão que tínhamos do local de trabalho. Em Videmonte, Andreia Proença admite que o teletrabalho tem os seus prós e contras, mas não poderia estar a viver na aldeia e ter a qualidade de vida que tem caso estivesse em regime presencial.

“O remoto tem o grande contra de ser mais difícil o espírito de equipa e manter ligações pessoais, mas também dá a possibilidade de eu estar onde estou hoje”, confessa Andreia, em entrevista por telefone.

O espaço de cowork ajuda a colmatar um pouco essa desvantagem do teletrabalho e, por isso, a gestora de produto utiliza o espaço todos os dias, desde que abriu. Até porque a videmontense prefere ter uma divisão clara entre o espaço de trabalho e a sua casa.

De acordo com a ADIRAM, já passaram por estes três espaços de trabalho cerca de 90 pessoas, sendo que cerca de 10% eram estrangeiros. Contudo, Andreia Proença reconhece que está a maior parte dos dias sozinha no cowork de Videmonte. “É por isso que eu também gosto muito de dar estas entrevistas para dar visibilidade e para trazer mais pessoas”, diz a jovem, que até já deu uma entrevista sobre o assunto para o Financial Times.

Espaço de Cowork de Videmonte
Espaço de Cowork de Videmonte. Por Pedro Ribeiro

Recentemente, Andreia teve a oportunidade de trabalhar lado a lado com Manuel Fernandes, engenheiro informático de 33 anos, natural de Ribeira de Fráguas, uma freguesia de Albergaria-a-Velha. A trabalhar desde julho de 2021 para uma empresa norte-americana, Manuel também sente falta da interação com outras pessoas. Foi por isso que decidiu procurar espaços de cowork em Portugal.

As suas pesquisas levaram-no até Videmonte, onde esteve a trabalhar e a viver durante uma semana – este espaço é o único que oferece também a possibilidade de alojamento. Acima de tudo, o engenheiro informático procurava conhecer novas pessoas, novas abordagens, novos estilos de vida. “Uma das coisas muito boas desses espaços é realmente a troca cultural, de experiências e de vivências”, conta.

Apesar de o espaço ter cozinha para fazer as refeições e um espaço de descanso, o que mais interessava a Manuel Fernandes era falar com as gentes de Videmonte. Por isso, ia sempre fazer compras à mercearia e ao café para interagir com os locais. “Tentei ‘mergulhar’ ao máximo na vivência e na forma de viver daquelas pessoas. Eu acho que isso é a grande riqueza de ir trabalhar para um sítio diferente: perceber como é que as pessoas vivem ali”.

Uma nova esperança para o interior

Espaço de Cowork de Alvoco das Várzeas
Espaço de Cowork de Alvoco das Várzeas. Por Pedro Ribeiro

Andreia Proença acredita que “os espaços de cowork são uma nova esperança para o interior”, mas precisam de ser alicerçados noutras coisas. “É preciso depois ter uma comunidade, eventos, tudo o que as pessoas querem onde vivem”, afirma. 

A jovem conta que não sente falta de viver numa grande cidade, mas preocupa-a num futuro mais próximo essa falta de comunidade. Para a gestora de produto este é um problema difícil de resolver: “As pessoas não vêm porque não está cá ninguém e a comunidade nunca se cria”.

Já Célia Gonçalves aponta a questão da habitação como um entrave para atrair os jovens para o interior do país. No entanto, a coordenadora do projeto mantém-se positiva em relação ao impacto dos espaços de trabalho das Aldeias de Montanha: “Os espaços de cowork não vão resolver os problemas das aldeias, mas juntamente com outras estratégias e com outras iniciativas, julgo que poderão ser uma mais-valia”.

Espaço de Cowork de Alvoco das Várzeas
Espaço de Cowork de Alvoco das Várzeas. Por Pedro Ribeiro

Até agora, os três espaços de cowork têm funcionado de forma gratuita, uma vez que o projeto ainda está numa fase experimental. “Antes de fazermos mais investimento queremos ter o feedback dos utilizadores”, explica Célia Gonçalves. Posteriormente, será cobrado um valor simbólico pela utilização dos espaços. 

O objetivo passa agora por abrir mais espaços de cowork, pelo menos um por concelho – são nove os municípios que integram a rede de Aldeias de Montanha. Com o projeto de design já preparado, está a aldeia de Folgosinho, no concelho de Gouveia. Alpedrinha, no concelho do Fundão, está já na fase final do projeto, o que significa que dentro de alguns meses poderá começar a funcionar. Em Cortes do Meio, no município da Covilhã, também já está preparado o projeto.

Espaço de Cowork de Videmonte
Espaço de Cowork de Videmonte. Por Pedro Ribeiro

Manuel Fernandes confessa que é suspeito para falar sobre o tema, porque também optou por viver numa aldeia e adora o estilo de vida que tem. Ainda assim, o engenheiro informático acredita que esta experiência é muito interessante para qualquer pessoa. “Aprende-se muito, desconcerta-nos, tira-nos da zona de conforto de uma maneira muito boa, porque é uma troca cultural muito grande”.

Para Manuel, “a pandemia teve coisas horríveis, mas também teve coisas positivas”. Inspirar os nómadas digitais a conhecer e ir trabalhar para o interior de Portugal foi certamente uma dessas coisas positivas.

Quatro famílias procuram “liberdade para recomeçar” em Bragança

Quando Ivo Neto, jornalista a viver no Porto, se candidatou ao programa “Bragança. Liberdade para Recomeçar” não pensou que um mês depois estaria de facto a viver nesta cidade do Nordeste Transmontano e a acordar ao som do rio Fervença. Ivo e a mulher, Rita Vilaça, copywriter, e o gato Sebastião são uma das quatro famílias selecionadas para um projeto piloto inédito promovido pelo Município de Bragança.

Read more

222 Shares

Artigos relacionados

1 comentário

Maria Carlos Salgado 25/05/2022 - 16:38

Em LX existe 1Projeto
Mto interessante q se chama
“A Avó veio trabalhar ” e q envolve a Comunidade de Ocupação de Tempo livre.
Talvez fosse interessante englobar actividades nos Coworks e com apoio das Juntas de Freguesias.
Parabéns pela V/a dinâmica!

Responder

Faça um comentário

Ao clicar em ENVIAR aceita a privacidade

Copy link
Powered by Social Snap