Por Fernando Nuno Vieira

EN 2, ou apenas N 2, são as siglas de Estrada Nacional 2. Quem pegar no mapa de Portugal e traçar uma linha entre a Régua e Faro fica com uma ideia do passeio que este itinerário propõe, por um país longe de portagens, áreas metropolitanas ou pressas consumidoras.

Uma espécie de coluna dorsal, nem muito para o litoral nem demasiado chegada à fronteira espanhola; um meio virtuoso, que se cola, por vezes, a trajetos de estradas do período Romano no nosso território. Comparada até à exaustão com a Route 66, nos E.U.A., e a Ruta 40 na Argentina, fala-se de geminações entre as três.

O projeto da N 2 remonta a 1930 e aos planos de obras públicas lançados pelo Estado Novo. Desejava-se criar uma estrada que ligasse Portugal do norte ao sul. O projeto avançou, foi ganhando forma e as estradas de pedra e terra foram cedendo ao alcatrão. As ligações foram sendo lançadas aos poucos, até que o Plano Nacional Rodoviário de 1945 classificaria esta estrada como hoje a conhecemos. O trajeto, porém, não cumpriu a grandiosidade pretendida, provavelmente por passar longe das áreas metropolitanas. E assim foi caindo em desuso e sendo esquecida a sua utilidade.

Já nos nossos dias, a N 2 está a ganhar um novo desígnio, desde que os mais de 30 municípios que atravessa decidiram puxar por ela enquanto itinerário turístico. De resto, já em 2003 o troço entre Almodôvar e S. Brás de Alportel tinha ganho a classificação de Estrada Património, o que é revelador da riqueza natural e cultural que se concentra nesta área.

Por DrNOFX97

É assim que a N 2 ganha um novo e diferente fôlego e oferece ao viajante a oportunidade de redescobrir um país de paisagens incríveis e tão diferentes, com história e património fabulosos, a que se associam, claramente, grandes passeios gastronómicas.

E para melhor se interiorizar a ideia de viagem que percorre várias regiões, foi criado um “passaporte EN 2” para aquela que é apresentada com a mais longa estrada europeia e a terceira a nível mundial (a seguir às congéneres já mencionadas).

Diz-se que a N 2 é composta por cinco troços. Assinalamos aqui alguns dos pontos possíveis numa viagem que começa no seu quilómetro 0, em Chaves. Os romanos, deixaram aqui vestígios consistentes, desde logo a designação latina de Aquae Flaviae a esta cidade e a Ponte de Trajano que pula o Rio Tâmega. Já o centro histórico faz-nos avançar para o período medieval, fazendo jus à arquitetura das ruelas estreitas. Entre outros monumentos vale a pena visitar a torre de menagem do castelo.

Por aro49

Deixando Chaves para trás, a próxima etapa será perto dali, Vidago, pródiga nas suas nascentes de águas que favoreceram o estabelecimento de uma das mais importantes estâncias termais desde há muito. Segue-se para Vila Real, capital de Trás-os-Montes e Alto Douro. Ir ao solar da Casa de Mateus é obrigatório. A beleza natural desta zona é arrebatadora, tanto pelo relevo exigente das Serras do Alvão e do Marão, mas também pelo verde que cobre todo o trajeto.

A sensação de encanto vai tornar-se ainda maior com o Alto Douro Vinhateiro a surgir nesta sequência. As encostas, em curva e contracurva, debruadas por socalcos ocupados por vinha, com o Douro a percorrer o seu leito em tranquilidade, é das imagens mais extasiantes que se pode ter. Passa-se pela Régua, cidade que respira a tradição do vinho. Continua-se, com o sentido já em Lamego e o desejo de subir as escadarias do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, todo ele esculpido em granito, seguindo os princípios da arquitetura barroca. Quem não tenha pressa poderá ir em busca do castelo da cidade e da Sé Catedral.

Por homydesign

Viseu marca oficialmente a entrada na região dos vinhos do Dão. É de resto uma das cidades mais fascinantes pelo ambiente plácido onde se respira história e desenvolvimento. Vale a pena um passeio a pé pelas ruas estreitas, no centro, ao longo das quais se perfilam casas brasonadas e muitos outros edifícios antigos. A Sé ou Catedral de Santa Maria de Viseu, edifício gótico, com o Museu de Arte Sacra ali ao lado devem ser conhecidos (ou reconhecidos), assim como o Museu Nacional Grão Vasco ou o Solar do Vinho do Dão. Mas regressar à estrada é o que se quer.

Dá-se agora um salto para o troço entre Góis e Portela do Vento. Já no distrito de Coimbra, Góis encontra-se num vale estreito, o Vale do Ceira, percorrido pelo rio com o mesmo nome. Atravessa-se através da Ponte Real. Esta é uma zona procurada pelos seus cursos de água, sejam eles piscinas naturais, praias fluviais ou lugares privilegiados para descidas em águas movimentadas e envolver muita adrenalina.

Coimbra

Por saiko3p

As terras altas são cenário procurado pelos amantes de atividades radicais. A comunhão com a natureza é plena e o Góis Camping é uma boa opção para estacionar e desfrutar deste ambiente. Para quem siga caminho, o rumo é em direção à Serra da Lousã. As Aldeias do Xisto são as protagonistas da paisagem.

O terceiro troço, da Sertã a Abrantes, corresponde à entrada no distrito de Castelo Branco, se bem que o terreno xistoso continue a acompanhar o relevo dominado por montanhas. Está-se literalmente no centro de Portugal. O Castelo da Sertã e a Ponte Romana da Carvalha merecem atenção. Um pouco mais adiante, em Vila do Rei, o Centro Geodésico de Portugal é um desvio imprescindível, tal como a passagem pelo Museu da Geodesia.

Por analuciasilva

Continuando a descida, entra-se no distrito de Santarém, com Sardoal no GPS. Esta vila, nascida numa colina, ainda guarda traços das serranias da Beira Baixa, apesar de já estar implantada na típica lezíria ribatejana. Um passeio em tempo de primavera significa um espetáculo apetecível para os olhos, com a vegetação em flor. Abrantes fecha este troço. Avista-se a cidade numa encosta sobre o Tejo.

Talvez por isso mesmo tenha sido lugar apetecido, pela sua capacidade de vigiar e antecipar os movimentos do inimigo, ao longo de várias épocas da história, especialmente durante a Reconquista e, mais tarde, com as invasões napoleónicas. E porque o rio ali passava a caminho de Lisboa, a sua importância como porto de comércio foi determinante. Deixa-se apenas a sugestão de subir ao castelo e reparar na torre de menagem.

Em Abrantes faz-se a entrada no Alentejo. A primavera é a estação certa para fazer este caminho, com a natureza no auge da floração, o espetáculo de cores é magnífico. Opta-se por ir através de Montargil, passando pela sua barragem. A seguir Montemor-o-Novo, já no distrito de Évora.

Por aciero

Vale a pena percorrer o castelo da cidade, se bem que fora de portas existam outros pontos de interesse: a Gruta do Escoural, monumento de arte rupestre, do período paleolítico, merece ser conhecida, assim como a Anta de Nossa Senhora do Livramento.

Próxima etapa: Aljustrel, já em pleno Baixo Alentejo. A sua vida, nos últimos dois séculos, esteve ligada à exploração mineira. Esta atividade veio definir a personalidade da região que oferece hoje a Rota do Património Mineiro de Aljustrel.

O fim começa a pressentir-se. O lanço final são 95 quilómetros; começam em Castro Verde e hão de terminar em Faro. Pelo caminho o viajante irá deixar a vista correr pelas planícies doces do sul alentejano. Mas primeiro as atenções vão para Castro Verde: a povoação ganhou relevo pela sua proximidade das minas de Aljustrel e também do porto de Mértola que aproveitava a navegabilidade do Rio Guadiana. A riqueza que estes contextos lhe traziam contrastava com a pobreza natural de uma terra, ligada apenas à terra e à agricultura que a natureza permitia.

Por Alberto Novo

Almodôvar é vila de passagem. Vão encontrar-se as produções de cortiça, aguardente de medronho, mel, queijo de cabra, o que se espera destas paragens. Uma nota surpreendente é aqui estar instalado o Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar, albergado no antigo Cine-Teatro Municipal; basta percorrer o centro histórico lá chegar.

Falta afrontar a Serra do Caldeirão, já em território algarvio, desenhada em curvas e contracurvas que não perdoam e que apenas terminam às portas de S. Brás de Alportel. Aí, se se fizer uma paragem no adro da igreja matriz, olhando para sul, por entre os vales à frente, já se irá ver uma faixa de azul: é o mar.

É nessa direção que se segue, talvez fazendo uma breve visita ao edifício da Pousada de Estoi, também em caminho. Mas a reta da meta é mais à frente; e é ao entrar em Faro que se cumpre o desafio iniciado em Chaves, (re)conhecer um percurso precioso, a nossa “Route 66”.

Casas de campo em Chaves

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