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Ginjinha, o shot preferido de Portugal

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A Ginjinha
A Ginjinha. Por JoseManuel

Há bebidas que oferecem opções de aperitivo incluído no copo. Por exemplo, um Dry Martini pode ser pedido com ou sem azeitonas – também batido, mas não mexido, caso se sinta um James Bond – e um copo de ginja com ou sem cereja.

Para quem vive noutro planeta e ainda não conhece a bebida mencionada, aqui está a resposta: a ginja ou ginjinha é um dos licores mais famosos de Portugal. É feito a partir da maceração da fruta da ginja (nome científico Prunus cerasus), similar à cereja, muito popular em Portugal, especialmente em Lisboa, em Óbidos, em Alcobaça e no Algarve. A bebida pode ser tomada com ou sem cereja dentro, dependendo do gosto de cada um.

A pergunta “com o sem?” ouve-se todos os dias desde 1840 no pequeno estabelecimento A Ginjinha, localizado no Largo de São Domingos, perto da Praça do Rossio, em Lisboa. É o bar de ginja mais antigo da cidade e é atualmente gerido pela quinta geração da família Espinheira. O primeiro foi Francisco, um imigrante galego que aprendeu a fazer a bebida seguindo as instruções de um frade do Mosteiro de Santo António.

À porta, costumam reunir-se grandes grupos de pessoas – muitos deles turistas – à espera para pedir a sua ginjinha. O seu preço ronda os dois euros e embora haja alturas em que a afluência seja mais notória, não há má altura para beber um copo.

Perto fica outro dos locais míticos da cidade em relação a esta bebida, o Ginja Sem Rival. Um pouco mais moderno que o anterior, embora tenha mais de 100 anos, também atrai uma grande clientela que não discrimina os horários na hora de tomar uma bebida.

Ginjinha Sem Rival
Ginjinha Sem Rival. Por Edna Winti

João Manuel Lourenço Cima, o fundador do negócio, patenteou a fórmula da sua ginja em 1909 com o nome do próprio bar: “Esta casa nunca concorreu a nenhuma exposição nacional ou estrangeira”. Por outras palavras, ele tinha tanta certeza da sua qualidade que não precisava demonstrá-la comparando-se com os outros. A família também tem outra bebida registada, o licor “Eduardino”.

Em Lisboa, existem outros estabelecimentos que, embora talvez não sejam tão conhecidos como os dois mencionados, também têm a sua história. Um exemplo é a Ginjinha Rubi, que abriu em 1930 e também tem a sua própria versão do popular licor.

Embora a ginja ou ginjinha seja famosa na capital, as localidades de Óbidos e Alcobaça têm a Denominação de Origem (DOP) pela sua ginja desde 2012. É feita com produtos da própria região e cada local tem a sua forma particular de a fazer.

Quem a provou pela primeira vez?

Ginja em Óbidos
Ginja em Óbidos. Por dimbar76

Reza a história que o primeiro a comercializar a ginja foi o já referido Francisco Espinheira. Ele fez o licor seguindo as instruções daquele frade que, por sua vez, se baseava na receita de alguns antigos monges cistercienses. Estes começaram a produzir a bebida no século VII, devido a um excesso na recolha destas cerejas que se cultivavam em Óbidos.

No início, apenas as classes altas desfrutavam deste licor devido ao seu elevado preço. Atribuíam-lhe propriedades curativas e até se dava um pouco às crianças se se sentissem doentes ou para as fazer adormecer.

Embora as receitas de cada fabricante sejam secretas, em princípio a Ginja é feita com ginjas – obviamente -, aguardente de vinho, açúcar e canela. O tempo de maceração varia entre os três meses e um ano, embora isso dependa de quem gere a produção.

Há também uma ‘lenda’ que explica a receita da ginjinha com literatura: 

“Os seguintes ingredientes são colocados dentro de um castelo cercado por muralhas: 11 igrejas, um número significativo de casas caiadas de branco com barras de várias cores, algumas chaminés mouriscas; duas dúzias de ruas calcetadas, meia dúzia de largos e um pelourinho.

Mexa constantemente, polvilhando com flores. Quando conseguir uma certa consistência, adicione um conjunto de tradições e alguns atos históricos a gosto.

Por fim, agite muito bem e deixe repousar durante oito séculos. Deve ser bebido no local adequado, com ou sem elas [as cerejas], à temperatura ambiente”.

Muralhas e bombons

Ginjinha em copo de chocolate
Ginjinha em copo de chocolate. Por irina_lazutina

Estas orientações são indicadas para serem seguidas em Óbidos, uma das vilas medievais de Portugal e berço da ginja. Situa-se a cerca de 80 quilómetros de Lisboa e para além deste licor, também oferece outra tentação difícil de resistir: o chocolate.

Durante uma semana por ano a vila celebra o Festival Internacional do Chocolate. As ruas enchem-se de lojas e bancas com bombons, tabletes, esculturas e outros produtos feitos com este ingrediente.

E o próprio chocolate também está relacionado com a ginja da vila. Em Óbidos popularizou-se o costume de servir o licor em copos de chocolate que são consumidos após o shot. Com ou sem cereja.

No século XIII, o rei D. Dinis deu à sua esposa, Isabel de Aragão, a vila de Óbidos como ‘Casa das Rainhas’. Era um conjunto de bens que os monarcas cediam às suas esposas para que lhes servissem de fonte de rendimento.

Óbidos
Óbidos. Por StockPhotosArt

Um pouco antes de a consorte Isabel receber o seu presente, foi construído o castelo, que hoje é uma das principais atrações da vila. Em 2007 foi declarado Monumento Nacional e se fosse uma pessoa diríamos que “está muito bem conservado para a sua idade”. O seu bom estado deve-se às sucessivas remodelações a que foi submetido, que também contribuíram para a mistura de estilos que alberga.

Para além do castelo, o medieval reflete-se também na enorme muralha que circunda a vila, à qual se pode aceder pela porta de Santa Maria, decorada com típicos azulejos portugueses do século XVIII. O melhor a fazer é passear pelas ruas de casas brancas rodeadas de flores, visitar o castelo e terminar o dia com uma dose de ginja com chocolate. Certamente existem planos muito piores.

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