Por Programa Ex-Situ Conservação do Lince Ibérico

O lince ibérico percorreu um longo caminho desde espécie criticamente ameaçada até espécie ameaçada de extinção, segundo a classificação da Lista Vermelha de espécies ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza. Contudo, continua a ser considerada a espécie de felino mais ameaçada do mundo e o carnívoro em maior perigo na Europa.

Este caminho percorrido é considerado um milagre, uma vez que hoje existem, entre Portugal e Espanha, em liberdade, mais de 650 linces ibéricos. Ou seja, seis vezes mais do que no início do milénio, quando havia menos de 100 no total dos dois países.

Este felino de orelhas peludas, pernas longas, cauda curta e colar de pêlo, que quase parece uma barba, de cor castanho-amarelada com manchas, é endémico da Península Ibérica. O lince ibérico alimenta-se quase exclusivamente de coelhos e tem fraca capacidade de se adaptar a outro tipo de alimentação. E foi exactamente a queda acentuada do número de coelhos que contribuiu em grande parte para o declínio da população de linces ibéricos.

Por Programa Ex-Situ Conservação do Lince Ibérico

A diminuição do seu habitat principal pela mão do Homem, devido a mudanças no uso do solo e a construção de barragens e estradas, também afetou o felino. No entanto, o grande responsável pela morte não natural do lince ibérico é mesmo o atropelamento por veículos. Outra das principais causas de morte não natural são as armadilhas ilegais para coelhos e raposas. A caça ao lince está proibida.

Em Portugal, foi em dezembro de 2014 que foram reintroduzidos na natureza os primeiros exemplares como parte do projeto “LIFE+Iberlince”. O “milagre” acontece todos os dias entre Silves e Mértola, onde uma equipa de veterinários e biólogos trabalha para contrariar as probabilidades e salvar esta espécie da extinção.

Dentro dos 16 cercados do Centro Nacional de Recuperação do Lince Ibérico (CNRLI), forrados a arame e com câmaras de vigilância, estão 30 exemplares, que mais tarde serão colocados em liberdade, caso reúnam todas as aptidões necessárias.

Por Programa Ex-Situ Conservação do Lince Ibérico

Os linces que não tenham as capacidades técnicas para sobreviver na natureza ou que têm problemas genéticos e que por isso podem comprometer a saúde de outros exemplares, são enviados para jardins zoológicos, onde servem como embaixadores do projeto.

A questão da genética é outro problema que enfrentam estes profissionais empenhados em fazer com que o lince ibérico deixe de ser uma espécie ameaçada. Portanto, devido ao número muito reduzido de animais que existiam no início do projeto, o objetivo não é só fazer crescer o número de felinos, mas também garantir uma genética equilibrada e diversificada.

A reprodução em cativeiro e os programas de reintrodução têm aumentado o número de exemplares. Em Espanha, é nas zonas de Doñana e Serra Morena, na Andaluzia, que são libertados os linces ibéricos. Em Portugal, estes animais rumam à região do Vale do Guadiana, nomeadamente nos concelhos de Mértola, Serpa e Castro Verde. Dos cinco centros de recuperação do lince ibérico (um em Portugal e quatro em Espanha) já saíram para a liberdade 248 animais.

Parque Natural do Vale do Guadiana. Por Francisco Antunes

Nos dois países tem havido um esforço comum para conservar e restaurar a escala nativa do animal. Nesse sentido, há uma especial preocupação em escolher áreas de habitat adequadas para libertar o lince ibérico. A abundância de coelhos e aceitação pelas comunidades locais são os principais critérios de escolha.

Apesar de não haver muitos registos da existência de linces ibéricos em Mértola no passado, hoje em dia, este é o habitat de referência em Portugal, precisamente pela abundância de coelho-bravo. É ainda em Mértola que irá nascer o Centro de Interpretação e Observatório do Lince-ibérico, um investimento que se insere no projeto “Por Terras do Lince-ibérico”. Segundo a Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM), o objetivo é valorizar a oferta turística e dar visibilidade a atividades, percursos turísticos, recursos patrimoniais, gastronómicos e culturais.

O convívio do lince ibérico com a população nem sempre foi pacífica. Este felino selvagem é visto por muitos como uma ameaça às explorações agrícolas locais, mas também como uma oportunidade de turismo. Daí o esforço da ADPM em lançar iniciativas de divulgação ambiental junto das comunidades locais para aceitarem o regresso do lince ibérico ao seu habitat natural.

Por Programa Ex-Situ Conservação do Lince Ibérico

Uma dessas iniciativas para envolver a população num esforço de aceitação do animal selvagem na região, foi a atribuição de nomes aos linces ibéricos escolhidos pelas crianças das escolas de Mértola e Serpa. Mais recentemente, foi até colocada uma votação online para que a população em geral pudesse também participar na escolha de nomes.

Há ainda um longo caminho a percorrer para que nos próximos anos o lince ibérico passe a ser considerado espécie vulnerável e perca o estatuto de espécie ameaçada, e até, dentro de algumas décadas, deixe de ter qualquer estatuto de ameaça. No entanto, os dados são positivos. De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e Ministério do Ambiente, terão nascido no Vale do Guadiana 30 crias de lince ibérico desde o início de 2019. Atualmente, o ICNF estima que a população de linces ibéricos a viver em Portugal seja de 105 exemplares.

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