Mina de S. Domingos

Mina de S. Domingos. Por MiguelG

Em pleno coração do Baixo Alentejo, entre montes e vales a perder de vista, uma mina abandonada faz-nos fazer uma viagem no tempo e recuar mais de 50 anos. É a Mina de S. Domingos, localizada no concelho de Mértola.

Terminou a sua laboração em 1966, mas após a venda da maquinaria e de tudo o que foi possível desmantelar na altura manteve tudo o resto a céu aberto: edifícios agora em ruínas, restos de linha férrea, montes de terra negra, estruturas enferrujadas, escavações abandonadas e um lago de águas negras ácidas, onde não vive um peixe.

Mina de S. Domingos

Mina de S. Domingos. Por MiguelG

Atravessar este complexo causa estranheza e perplexidade. Há espaços tomados pela natureza, mas há outros que nem 52 anos passados desde a última extração fizeram voltar a vida. É toda uma imensidão castanha, amarela, negra, silenciosa…

Mas é este cenário quase irrealista, motivado pela vandalização subsequente ao abandono, a sua ruína e o tempo, que transformaram o local agora num ponto turístico que atrai cada vez mais visitantes. Parece que fazemos uma viagem a uma base localizada no planeta Marte, mas em pleno Alentejo.

A Mina de S. Domingos faz parte da província metalogénica de classe mundial conhecida como Faixa Piritosa Ibérica, uma região com 30 a 60 km de largura e 240 km de comprimento que se estende desde o rio Sado e Setúbal (Portugal) até ao rio Guadalquivir e Sevilha (Espanha) e se constitui como uma fonte decisiva de metais básicos (Cu, Zn, Pb, Sn, Ag, Au, Fe, Co, Cd, etc.) e de outros elementos como o enxofre (S).

A mina esteve em atividade entre 1854 e 1966, e dos seus jazigos saíram neste período mais de 20 milhões de toneladas de minério, principalmente cobre, zinco, chumbo e enxofre, explorados pela empresa britânica Mason & Barry, que trouxe à região um lifestyle inglês que contrastou na altura com as gentes pobres e humildes da terra.

Por lá ainda restam vestígios desta passagem. Os antigos balneários, os ciprestes que traziam calma e altura ao cemitério e muitas, muitas histórias recordadas pelos mais antigos que ainda viveram esses tempos enquanto crianças. Uma curiosidade passada de boca em boca é que os vagões que saíam da mina carregados de minério voltavam carregados de terra inglesa. Isto porque os ingleses que geriam a mina e a comunidade inglesa que vivia no local queria ser enterrada em solo inglês.

Este foi o período mais dinâmico do território. A Mina acolheu inclusive algumas inovações no país: tinha saneamento básico e eletricidade nos bairros ingleses, cinema que exibia bastantes filmes mudos e diz-se até que o primeiro projetor Cinemascópio em Portugal foi na Mina. No coreto, ao domingo, tocava a banda filarmónica com trabalhadores e familiares que aprendiam música

“A Mina foi a maior exploração mineira portuguesa até à década de 1930, com uma força laboral continuamente superior a um milhar de trabalhadores até perto do seu encerramento. Na Mina de S. Domingos construiu-se, por exemplo, uma das primeiras linhas férreas do país, para fazer a ligação entre a Mina e o antigo porto fluvial no Pomarão, que permitia o escoamento do minério através do rio Guadiana. Recebeu também a primeira central elétrica do Alentejo. Para além disso, sustentada pela atividade mineira, existia uma sociedade local dinâmica e com acesso a vários serviços, como um teatro ou um hospital”, explica a Fundação Serrão Martins, a instituição sem fins lucrativos cujo objetivo é a proteção, conservação, valorização e divulgação dos valores patrimoniais deste complexo mineiro e da aldeia onde está localizada, a Mina de S. Domingos.

Foram 112 anos que ajudaram a moldar um território, tendo sido um dos principais empregadores da região, com implicações económicas, sociais, mas também ambientais. E estas últimas são as que perduram até hoje nas imediações da mina, com destaque para as águas ácidas que por lá ainda persistem.

O renascimento da Mina

Depois do seu encerramento e do desmantelamento do equipamento, tem restado apenas a paisagem marcada pela atividade mineira e pela drenagem ácida. Ainda assim, constitui um polo de interesse turístico cada vez mais divulgado pela região, inserida na rota do minério. Segundo a Fundação Serrão Martins, a estratégia de desenvolvimento está, neste momento, orientada para a busca de resoluções para os problemas ambientais e para a salvaguarda e valorização do património mineiro. Desde 2013 que o conjunto mineiro da Mina de S. Domingos foi consagrado pela lei portuguesa como ‘Conjunto de Interesse Público’.

A ausência de uma reabilitação adequada, bem como o abandono e a vandalização do património ditaram a decadência progressiva do território, consumada no êxodo populacional, na ruína e no enorme passivo ambiental de toda a antiga área mineira. Mas hoje está a ser recuperado o seu potencial turístico. A requalificação que está em curso vai tornar o espaço mais atrativo sobretudo para os amantes do turismo geológico e industrial, pois todo este complexo tem um impacto visual e fotográfico muito interessante.

Atualmente, um já grande polo de atração é a Praia Fluvial da Tapada Grande, localizada na mesma localidade, que resultou de uma barragem mandada construir pelos proprietários ingleses da mina para abastecer a aldeia de água, proporcionando momentos de convívio e lazer. É o chamariz de verão mais concorrido da região. Tem um bar/restaurante uma língua de areia, sombras e todas as comodidades que fazem dela uma das praias fluviais mais reputadas do país. Por ali pode nadar ou andar de canoa pela longa extensão de água da tapada. A Casa do Mineiro e o Jardim dos Ingleses ajudam a compor uma oferta turística diferenciada nesta localidade ‘perdida’ no Alentejo profundo.

Ali bem perto…

A poucos quilómetros, pode ainda visitar Mértola, conhecida como Vila Museu de Portugal. Com os primeiros vestígios que remontam ao Neolítico, há cinco mil anos, por esta vila alentejana passaram diversos povos ao longo dos séculos. Já foi romana, já foi islâmica e por todo o concelho abundam provas da antiguidade desta terra que já se chamou Myrtilis Julia e Martulah.

Imperdível também é o Pulo do Lobo. A poucos quilómetros a norte de Mértola, uma característica geológica faz com que o rio Guadiana estreite de tal forma que é possível atravessar as margens apenas ‘com um pulo’.

Visite também o Museu do Contrabando, na aldeia de Santana de Cambas, na mesma margem da Mina de S. Domingos. Este imortaliza o intenso contrabando que se fazia, entre 1930 e 1960, nas zonas fronteiriças do Baixo Alentejo e da Andaluzia, em Espanha, e que, juntamente com a mina, era um modo de vida destas gentes nesses tempos idos.

O regresso ao passado também se consegue fazer por estas paragens através da sua gastronomia, assente na caça, no peixe do rio e nos múltiplos pratos feitos à base de pão. A lebre com feijão branco, o coelho frito, o cozido de grão ou de feijão, as açordas de alho e de tomate, as migas, as enguias e o muje continuam a perpetuar o modo de vida simples e tranquilo do Alentejo. Não esquecendo, claro está, os famosos enchidos e queijos da região.

Se quer fugir a um turismo de massas e descobrir um Portugal tranquilo e ainda com muitas vivências do passado, esta é a escolha certa. Boa viagem.

Texto: SSD

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