Por Galyna Andrushko

Nem só de cerejas vive o concelho do Fundão, na Beira Baixa. As flores de cerejeira que pintam de branco a paisagem da serra da Gardunha na primavera dão lugar a cores mais outonais que albergam mais de 400 espécies diferentes de cogumelos.

Enquanto que na freguesia de Alcongosta a cereja é a rainha no mês de junho, na vizinha aldeia de Alcaide reina o cogumelo, particularmente os míscaros, o tipo de cogumelo que dá nome ao festival que se realiza em novembro desde 2009.

Míscaros ao domicílio

Por pedrosala

Este ano a pandemia obriga a que o Míscaros – Festival do Cogumelo decorra em moldes diferentes, mas nos dias 13, 14 e 15 de novembro os cogumelos silvestres irão continuar a estar presentes à mesa dos habitantes do Alcaide e arredores.

De acordo com a Fernando Tavares, presidente da Liga dos Amigos do Alcaide, associação que organiza o festival, este ano todo o programa do Míscaros será feito online. Mas não faltarão os habituais live cookings com chefs de cozinha, passeios micológicos virtuais na floresta, workshops e palestras.

Apesar de ser um festival diferente e à distância, se vive num raio de 10 quilómetros do Alcaide vai poder provar as iguarias tradicionais. Este ano o slogan é “fique em sua casa que nós vamos até si”, explica Fernando Tavares. “Vai ser o Míscaros – Festival do Cogumelo ao domicílio”, continua.

Haverá quatro tasquinhas que estarão abertas apenas para serviço de take away e entregas ao domicílio para que as pessoas que vivam no Fundão e nas aldeias vizinhas possam ter um pouco do Míscaros em sua casa. “As pessoas vão poder encomendar através da plataforma online ou através do número de telefone para receberem a comida em casa”, garante o presidente da associação.

Este é festival gratuito de famílias e para todas as idades, que atrai todos os anos milhares de pessoas de norte a sul de Portugal e até de fora do país e que em 2018 levou até Alcaide 40 mil pessoas nos três dias de Míscaros. Este ano será muito diferente e a organização apela às pessoas para que não se desloquem até à aldeia e para que assistam ao festival online.

Para Fernando Tavares, um festival inteiramente online abre a possibilidade de “ter participações especiais de grandes mestres dos cogumelos de todo o mundo”. “As facilidades de um festival digital é isto, é conseguirmos ter coisas que nunca pensávamos de íamos ter num festival normal”, remata.

Da aviação para a micologia

Amanitas. Por José Matos

José Matos participa no Míscaros desde que o festival começou, mas o seu interesse pela micologia começou há cerca de 14 anos quando aterrou no Alcaide, depois de 30 anos a trabalhar como comissário de bordo da TAP. “Quando eu cheguei aqui no primeiro outono começaram-me a aparecer cogumelos por todos os lados”, conta José.

José Matos começou por fazer passeios micológicos na serra da Gardunha com outros expertos para aprender a identificar os cogumelos que tinha na sua quinta. “Entretanto, comecei a interessar-me por aquilo, comecei a estudar, a procurar informação em livros, na internet”, explica o micólogo.

Míscaros brancos e amarelos. Por José Mata

“Como eu não sei fazer uma única fotografia de jeito, para mim é muito mais fácil desenhar os cogumelos do que os fotografar. Então, comecei a fazer um caderno com os desenhos dos cogumelos”, confessa José Matos. Desenhos esses que já foram publicados num livro e que o levam agora a outro projeto para lançar o primeiro livro sobre cogumelos em português escrito por portugueses.

Hoje, com 70 anos, José Matos dedica-se a fazer passeios micológicos na sua quinta com pequenos grupos entre outubro e dezembro e também desidrata, embala e vende cogumelos desidratados. Conta que não é nenhum chef profissional, mas nos passeios que organiza também ensina a cozinhar os cogumelos e garante que faz um risotto de cogumelos de comer e chorar por mais.

O que é que a Gardunha tem

Serra da Gardunha. Por Nuno Morão

Segundo José Matos, “a serra da Gardunha é um sítio especial em relação à micologia”. Esta região do país é muito rica em cogumelos porque ainda está preservada e ainda mantém parte da floresta original mediterrânica com uma variedade muito grande de árvores, o que permite a ocorrência de inúmeras espécies de cogumelos.

“A serra da Gardunha foi durante alguns anos desmatada para se produzir cerejas”, explica José Matos. No entanto, hoje em dia, há medidas que protegem a riqueza florestal da serra e já não se pode desmatar, apenas se podem plantar cerejeiras onde houver terrenos utilizados para esse fim.

“Qualquer floresta só é saudável se tiver cogumelos e os cogumelos também só aparecem se houver árvores, porque os cogumelos estabelecem uma relação de troca com as árvores”, diz o micólogo. Ou seja, “as árvores transmitem ao cogumelo a clorofila e o cogumelo transmite à árvore o azoto”.

Para José Matos, a grande ameaça para os cogumelos são os incêndios e o desmatamento. “Quanto mais árvores abaterem, menos cogumelos temos aqui. Há muitos cogumelos que já não existem”, confessa.

Casas de campo no Fundão

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