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No Pico, antes matavam baleias, hoje salvam-nas

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Esta podia ser a história do homem contra o animal, o monstro, a besta. Mas é na verdade uma história de respeito, nobreza, honra e, acima de tudo, de sobrevivência, tanto do homem como do animal.

Baleação
Baleação. Fonte: Direção Regional da Cultura/Museu do Pico

Nos Açores, a baleação, ou caça à baleia, desenvolveu-se essencialmente na segunda metade do século XIX, e foi uma atividade de grande importância para a economia do arquipélago, principalmente das ilhas do Faial e do Pico.

Os baleeiros açorianos caçavam sobretudo cachalotes, mas também baleias de barbas, baleias-francas, entre outras espécies de cetáceos. Manuel Costa, Diretor do Museu do Pico, explica em entrevista à EscapadaRural que o cachalote era a espécie que se apanhava mais porque “é a espécie mais dócil, mais mansa”. Apesar disso, não deixa de ser um animal enorme, que, no caso de um macho adulto, pode medir até 20 metros de comprimento e pode pesar até 45 toneladas. Era, portanto, uma luta de David contra Golias, em pleno oceano Atlântico.

Do cachalote, os açorianos aproveitavam tudo, ou quase tudo. O óleo extraído da carne derretida em grandes caldeiras servia para alumiar, fazer velas, sabão e margarinas; dos intestinos vinha uma substância usada na perfumaria; com ossos faziam-se espartilhos, pentes, escovas  e artesanato, os restos que sobravam de carnes e ossos fertilizavam a terra. Em 1955, no apogeu da caça à baleia nos Açores, óleos, farinhas e o “âmbar pardo” eram exportados para todo o mundo, originando receitas generosas.

A baleação começava ainda em terra firme com o lançar do foguete pelo vigia colocado em pontos altos e que durante horas a fio observava minuciosamente, com os seus binóculos, o mar à procura dos movimentos ou do jato dos cachalotes. Sempre que um era avistado, ora lançavam um foguete, agitavam um lençol branco ou usavam fumo para avisar que andava baleia ali por perto. Era o sinal para juntar a tripulação e lançar os botes ao mar em perseguição destes mamíferos. Faina que podia durar horas ou até dias.

Baleação
Baleação. Fonte: Direção Regional da Cultura/Museu do Pico

Antecipando uma luta duríssima e perigosa entre homem e animal, com técnicas arcaicas e embarcações pequenas e frágeis, os sete tripulantes de cada bote faziam-se ao mar, cada um com a sua função bem determinada, muita bravura e ousadia.

De facto era preciso muita coragem, porque “se arriscava a caçar baleias nos Açores de uma forma muito artesanal como se caçava há séculos atrás com os mesmo botes, com o mesmo arpão, a mesma lança, com sete tripulantes numa canoa, com as embarcações que já tinham séculos de existência”, explica Manuel Costa.

Por tudo isto, Manuel Costa considera que “a baleação foi a atividade mais espetacular, do ponto de vista piscatório, que os homens exerceram no mar”, até há autores que dizem que foi mais importante do que a guerra e a atividade mercante. “Balearam-se em todos os oceanos do mundo e por todos os continentes do mundo”, afirma o Diretor do Museu do Pico, defendendo que esta era uma atividade verdadeiramente global. 

Baleação
Baleação. Fonte: Direção Regional da Cultura/Museu do Pico

Foi por isso que os açorianos, nos séculos XVIII e XIX, para fugir à pobreza, foram balear para a América em navios-fábrica, que passavam pelo arquipélago para recrutar jovens. Portanto, a ligação dos açorianos à baleação não se restringe apenas àquela que foi feita nos Açores durante cerca de 100 anos. “Nós temos uma ligação à atividade muito profunda, porque nós emigrámos”, justifica Manuel Costa. 

“Houve milhares de açorianos que para fugir à fome, ao serviço militar, à falta de terra, à pobreza, falta de emprego, à miséria, ao sofrimento, à solidão, aproveitou esses barcos que passavam por aqui”, acrescenta o diretor. “Portanto, esses barcos passaram a fazer parte do imaginário dos açorianos que fugiam dos Açores e entravam nas baleeiras para chegar à América”, conclui.

A valentia dos jovens açorianos foi até elogiada por Herman Melville num dos clássicos da literatura norte-americana, Moby Dick (1851): “Não poucos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde as naus de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente, para aumentar a tripulação com os corajosos camponeses destas ilhas rochosas. […] Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias.

Pico, o grande centro da baleação nos Açores

Lajes do Pico
Lajes do Pico. Por Lichinga

Manuel Costa relembra que “viver no meio destas ilhas há 100 anos não é como viver agora”, principalmente na ilha do Pico, o grande centro da baleação nos Açores. Num total de cinco fábricas em todo o arquipélago, duas ficavam no Pico: a Fábrica da baleia SIBIL, nas Lajes do Pico, que agora é o Centro de Artes e de Ciências do Mar, e a Fábrica da Baleia de São Roque do Pico, que é o primeiro museu industrial dos Açores, o Museu da Indústria Baleeira.

O Pico era também a ilha com o maior número de portos e com os portos mais bem apetrechados, muitas embarcações e muitas sociedades baleeiras. A concentração da atividade baleeira no Pico pode ser explicada pelo facto de esta ilha ter apenas cerca de 3% de solo cultivável. Ao contrário das outras ilhas do arquipélago que viviam da agricultura e pecuária, isso não era possível no Pico devido à pouca terra arável disponível.

Apesar de ser a segunda maior ilha dos Açores, logo a seguir a São Miguel, Manuel Costa explica que o Pico “é uma ilha que não teve a possibilidade de concentrar muita gente porque era muito pobre”. Por isso, para os picoenses, a solução para fugir a essa pobreza estava no mar, quer fosse na emigração para o outro lado do Atlântico, os Estados Unidos, quer fosse na caça à baleia.

Daniel Martiniano

Para o pequeno Daniel Martiniano a solução foi tornar-se baleeiro. Com o avô, o tio e o pai todos baleeiros, parecia o destino mais provável para o menino que com apenas 12 anos foi o protagonista do livro Daniel e os Caçadores de Baleias, do fotógrafo e freelancer alemão Bernard Wolf, que conta a história da família Martiniano e da primeira saída à baleia de Daniel, em 1972.

Começou verdadeiramente mais tarde, já com 15 anos, mas ainda sem cédula profissional, a enfrentar aqueles animais que apelida de “monstros”. Confessa que nunca teve medo, mas sim respeito pelas baleias.

Daniel Martiniano recorda que, quando lançavam o foguete para dar sinal de que havia alguma baleia perto, “era uma loucura”, os baleeiros “deixavam tudo o que tinham para fazer para correr para os botes para ir para a baleia”. 

“Naquela altura aquilo era uma ajuda do nosso ganha-pão”, explica Daniel que, além da baleação, criava vacas, trabalhava no campo e ajudava nas descargas dos navios. “Era o que aparecia”, diz. 

Na verdade, ninguém nos Açores vivia exclusivamente da baleação. Era um trabalho sazonal e os ganhos não eram suficientes para sobreviver, mas era uma preciosa ajuda no orçamento de cada família. Como explica Manuel Costa, “a baleação foi sempre uma atividade complementar, nunca foi uma atividade nuclear. Os baleeiros não eram profissionais da baleia. Iam à baleia no verão e quando havia baleia, e quando não, tinham as suas atividades. A baleia dava dinheiro, embora pouquíssimo, dava um pouco de dinheiro, que só era repartido no fim do ano.” 

Daniel Martiniano conta que no seu bote, o “Maria Armanda”, o seu recorde foram 33 baleias mortas num ano. Por cada caça à baleia bem sucedida, o ex-baleeiro levava para casa dentes e ossos do animal, que usava para fazer peças de artesanato, que começou a fazer aos 14 anos e ainda hoje faz. Em termos monetários, “recebia cerca de 4 contos por ano”, isto é, cerca de 20 euros.

Uma atividade em decadência

Baleação
Fonte: Direção Regional da Cultura/Museu do Pico

Quando, em 1984, Portugal se preparava para entrar na Comunidade Económica Europeia (CEE) – o que viria a acontecer em 1986 -, a caça à baleia foi proibida nos Açores. Nessa altura, como conta à EscapadaRural Manuel Costa, “a baleação estava praticamente acabada em quase todas as ilhas”. As últimas ilhas resistentes eram o Pico e o Faial, mas também já com pouca expressão.

Com o surgimento e desenvolvimento da indústria petrolífera, na segunda metade do século XIX, a tendência foi fazer com que o petróleo pudesse substituir todos os combustíveis conhecidos até então, como era o caso do óleo de baleia. Como explica o Diretor do Museu do Pico, o “óleo de baleia servia para lubrificar as máquinas da Revolução Industrial e assegurar a iluminação pública das cidades do mundo”. Por isso, quando em 1984 se decreta que a baleação tem que terminar, “o óleo de baleia já não era necessário. Era uma atividade anacrónica e que não era economicamente rentável”.

Com o fim da caça à baleia já há muito anunciado, Manuel Costa acredita que os últimos baleeiros continuavam a caçar como um gesto de resistência cultural. No entanto, muitos deles já tinham encontrado no atum uma alternativa viável, “porque a pesca do atum era bem mais proveitosa e rentável”.

Enquanto que na maior parte das ilhas açorianas, a proibição da caça à baleia “foi acatada com a maior das indiferenças e até desconhecimento, nas Lajes do Pico, que era de facto o porto baleeiro mais importante dos Açores, esses baleeiros revoltaram-se”. Para Manuel Costa, “era uma questão cultural, era uma questão de uma raiz, de uma identidade, de um gesto cultural e profundo que pertencia aos avós e aos bisavós e que estava na massa do sangue daqueles homens”.

Essa revolta de alguns baleeiros do Pico culminou com a morte de um cachalote em 1987, já em plena interdição. O cachalote já não foi processado nem derretido, porque já ninguém comprava o óleo, já não havia mercado. Foi apenas aproveitada a carne e vendida.

Este foi “um gesto que teve consequências terríveis”, como classifica Manuel Costa, “porque o apoio que vinha para indemnizar os baleeiros dos prejuízos do encerramento compulsivo da atividade, esses fundos foram suspensos imediatamente perante este gesto e os baleeiros perderam”. 

Daniel Martiniano foi um dos baleeiros que participou na caça desse cachalote. Hoje em dia arrepende-se de o ter feito, mas na altura não pensou que aquele gesto iria ter consequências tão graves para todos. “Os donos das armações disseram ‘isto é nosso, a gente é que manda’ e nós queríamos ganhar algum naquele tempo. Agora já estão abertos os olhos. Foi o nosso mal e não recebemos indemnização nenhuma”, confessa Daniel.

O whale watching como bóia de salvação

Baleia Açores
Baleia perto da costa entre o Pico e o Faial. Por Gonzalo Jara

Sem atividade baleeira nem qualquer apoio monetário, os baleeiros ficaram sem nada. Restava-lhes a memória de uma baleação que se fez nos Açores como em nenhum outro lugar do mundo – de forma artesanal, de arpão e lança, num bote a remos -, e as baleias que continuaram a nadar em águas açorianas. Foi então proposto a alguns baleeiros, que gostavam da atividade e que tinham tido prejuízos com o fim da baleação, que ingressassem pela atividade de observação de cetáceos para poderem beneficiar de apoios.  

“Mas os baleeiros não se adaptaram e rejeitaram essas soluções, porque contrariavam completamente a sua própria idiossincrasia e natureza. Eles tinham sido durante um século caçadores nos Açores, tinham sido caçadores durante séculos no mundo e iam-se transformar em observadores? Isso não fazia sentido para eles”, esclarece Manuel Costa.

Perante a rejeição inicial dos baleeiros em relação ao whale watching, a atividade começa a ser então desenvolvida primeiramente por estrangeiros que viram ali um lugar com potencial.

Apesar de alguma hesitação inicial, Daniel Martiniano considera que o whale watching é uma atividade maravilhosa e até trabalhou como skipper (comandante de uma embarcação) em duas empresas de observação de cetáceos durante 13 anos, após ter deixado de ser baleeiro. “Além da gente ter aquela loucura pela baleação, mas a acabar uma coisa, a melhor coisa que se poderia ter feito foi o whale watching”, afirma. 

Whale watching Açores
Whale watching nos Açores. Por Luca Nebuloni

Eduardo Sousa, ex-baleeiro picoense que trabalhou no whale watching como skipper, também encara a transição da baleação para a observação de cetáceos como algo positivo e garante não ter saudades desses tempos. “O whale watching para mim é mais vantajoso e os animais não sofrem”, confessa.

Embora tenha matado dezenas de baleias durante os oito anos que foi baleeiro, Eduardo Sousa admite que estes animais são muito especiais e muito importantes na sua vida. “Eu adorei trabalhar com os animais e não matá-los”, disse. 

O antigo baleeiro conta orgulhosamente uma experiência que o marcou e que demonstra precisamente o seu amor pelas baleias: “Há cinco anos atrás havia uma baleia que estava presa pelo rabo com cabos, ela estava quase a morrer e eu atirei-me à água e fui salvá-la”.

A celebração da baleia

Barco baleeiro
Barco baleeiro em São Roque do Pico. Por Carlos Luis M C da Cruz

Hoje em dia, já ninguém quer matar baleias nos Açores. Atualmente, as baleias celebram-se e são verdadeiros objetos de culto, com uma grande carga mágico-simbólica. Manuel Costa explica que a ilha do Pico é de alguma especial, porque é o grande repositório dessa cultura baleeira. “Como foi o grande centro da baleação e também a última ilha a praticar a atividade, a baleação aqui é mais do que uma atividade económica, foi um modo de vida que deixou marcas profundas”, continua.

Como prova disso, o Pico tem dois museus inteiramente dedicados a esta atividade: o Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico, o único em Portugal especializado na baleação artesanal, estacional e costeira, e o mais visitado dos Açores; e o Museu da Indústria Baleeira, antiga Fábrica da Baleia Armações Baleeiras Reunidas, em São Roque do Pico.

Museu dos Baleeiros
Museu dos Baleeiros. Por Carlos Luis M C da Cruz

Existe ainda uma festa religiosa com quase 130 anos. A festa de Nossa Senhora de Lourdes é uma das maiores festas do Pico e é uma homenagem à atividade baleeira, que nasceu de um episódio de quase naufrágio no mar. Esta é uma festa muito importante que deu ainda lugar à Semana dos Baleeiros, nas Lajes do Pico.

“Daí a importância que os picoenses e os lajenses, em particular, deram a estas memórias, a estas identidades, que marcaram a ferro e fogo a personalidade e a fisionomia destes lugares e desta gente”, explica o Diretor do Museu do Pico.

monumento baleeiro
Monumento ao baleeiro, São Roque do Pico. Por Carlos Luis M C da Cruz

Manuel Costa garante que quem visitar os Açores, especialmente o Pico, “vê que a cultura baleeira está viva”. A memória dessa atividade está presente na arquitetura, na arte, na paisagem, nas tradições, na religiosidade, nas pessoas. 

“A baleação deixou traços muito profundos na comunidade e depois converteu-se numa espécie de amuleto, numa imagem de culto, numa imagem de consumo visual, uma espécie de emblema da própria açorianidade e de emblema da própria condição açoriana e da sua relação com o mar”, explica Manuel Costa. Portanto, hoje, a baleia e, em especial, o cachalote assume-se como o grande símbolo da Região Autónoma dos Açores.

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