surfista Nazaré

Por Wirestock

Foi em novembro de 2011 que o surfista havaiano Garrett McNamara colocou a Nazaré nas bocas do mundo depois de ter batido o recorde da maior onda surfada, com 23,8 metros, na praia do Norte, inscrevendo o seu nome no Livro do Guiness.

Desde então, têm sido vários os surfistas dos quatro cantos do mundo que chegam à Nazaré para colocar à prova as suas capacidades físicas e mentais ao enfrentarem as ondas gigantes que todos os invernos se formam na costa nazarena.

Por Turismo Centro de Portugal

Em 2017, o surfista brasileiro Rodrigo Koxa bateu o anterior recorde do Guiness de Garrett McNamara ao surfar a maior onda de sempre com 24,38 metros. Mais recentemente, em fevereiro de 2020, a surfista brasileira Maya Gabeira conseguiu ultrapassar o seu anterior recorde do Guiness de maior onda surfada por uma mulher (22,4 metros).

Mas recordes do Guiness e competições de surf à parte, o que é que a Nazaré tem, em especial a praia do Norte, para apresentar consistentemente ondas significativamente maiores do que no resto da costa portuguesa? O segredo está no canhão da Nazaré.

O que é o canhão da Nazaré?

Mapa batimétrico do canhão da Nazaré. Por Rúdisicyon

O canhão da Nazaré é um desfiladeiro submarino de origem tectónica situado ao largo da costa desta vila portuguesa. A origem do canhão da Nazaré ainda está envolta em mistério, pois encontra-se numa zona geológica complexa. No entanto, considera-se estar relacionada com a falha da Nazaré-Pombal, uma fratura da crosta onde existem movimentos que podem causar sismos.

O canhão da Nazaré é conhecido desde há muito tempo e no passado foi até considerado como um abismo insondável e era uma zona temida pelos antigos pescadores. Contam-se vários naufrágios, inclusive o do submarino alemão U-963 da Segunda Guerra Mundial que jaz naquelas águas.

Considerado como um dos maiores da Europa, este vale submarino estende-se por cerca de 200 quilómetros, desde profundidades abissais de 5 mil metros até cerca de poucas centenas de metros da praia da Nazaré, onde a parte terminal do canhão, chamada a cabeceira do canhão, chega a 150 metros de profundidade.

Como se formam as ondas gigantes na Nazaré?

O canhão da Nazaré é então o grande responsável pelas ondas gigantes que atingem a praia do Norte, em combinação com uma série de outros elementos da natureza, como as grandes ondulações do oceano Atlântico, a junção de duas direções de onda, as marés, o vento, as correntes e os fundos.

De acordo com o Instituto Hidrográfico, a ondulação do largo que chega à zona costeira propaga-se mais rápido sobre o canhão, onde a água é mais profunda, do que na plataforma continental adjacente, onde a água é relativamente pouco profunda.

Esta diferença na propagação da onda, dependendo da profundidade sobre a qual ela se move, modifica a orientação das linhas de cristas (ponto mais elevado da superfície do mar durante a passagem da onda) e cavas (depressão da superfície do mar durante a passagem da onda), criando zonas onde a onda converge.

Esta convergência focaliza a energia da onda o que se traduz-se numa amplificação da mesma. Este processo parece ser particularmente eficaz na zona ao largo da praia do Norte, onde o canhão da Nazaré pode amplificar até três vezes o tamanho da onda prevista para aquela zona.

Nazaré

Por Luis Ascenso

Este processo é comum em outros canhões submarinos mas o que parece tornar a Nazaré especial é o facto da orientação deste canhão e o modo como ele interseta a linha de costa permitirem que ele modifique as correntes que a própria ondulação cria junto à costa, fazendo com que em certos períodos se desenvolva uma corrente forte que se opõe às ondas.

Em resumo, o Instituto Hidrográfico conclui que, de uma forma geral, os canhões submarinos modificam o modo como a ondulação se propaga, permitindo a existência de zonas na proximidade do canhão onde a onda converge e se amplifica.

Contudo, ao largo da praia do Norte este processo parece ser reforçado por correntes costeiras que se opõem às ondas e pela diminuição rápida do fundo que a onda sente ao passar do canhão para a plataforma próxima.

Quando e onde ver as ondas gigantes?

Praia do Norte, Nazaré

Forte de S. Miguel Arcanjo. Por Luis Ascenso

O fenómeno das ondas gigantes ocorre todos os anos na praia do Norte, entre outubro e março, altura em que ocorrem tempestades e grandes depressões em pleno oceano Atlântico.

As ondas, que podem atingir os 30 metros e que, desde sempre, foram olhadas pela população local com temor e respeito, são hoje um local de culto para quem quer enfrentar o gigante da Nazaré, numa espécie de luta entre David e Golias.

O melhor local para admirar a magnitude das ondas e a coragem dos que se atrevem a enfrentá-las numa prancha de surf, é junto ao Farol da Nazaré, no Forte de S. Miguel Arcanjo, a partir do qual se obtém uma vista de cima privilegiada sobre a praia do Norte.

Surfer Wall. Por Threeohsix

É também no Forte de S. Miguel Arcanjo, especificamente no Surfer Wall, que está patente uma exposição com as pranchas e as memórias das lendas do surf nacional e mundial.

Criado em 2016, o Surfer Wall é um projeto museológico que tem como objetivo materializar o reconhecimento da vila da Nazaré pelos surfistas que procuram a superação nas ondas da praia do Norte e que divulgam a Nazaré em todo o mundo.

A importância e o interesse pelo fenómeno natural levaram o Instituto Hidrográfico, em colaboração com a Câmara Municipal da Nazaré, a instalar uma exposição que ilustra o conhecimento adquirido com a investigação feita na área.

O Centro Interpretativo do Canhão da Nazaré, instalado numa das salas do forte, oferece aos visitantes a possibilidade de ler e observar vários cartazes, uma maqueta tridimensional do vale submarino e ainda imagens e informação sobre o submarino alemão U-963, afundado ao largo da Nazaré no final da Segunda Guerra Mundial.

Casas na Nazaré

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