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O Natal celebra-se com caretos em Varge

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Caretos de Varge
Fonte: Caretos de Varge

Não é só no Carnaval que os caretos saem à rua. O Natal também é época para travessuras e na aldeia de Varge, na freguesia de Aveleda, no concelho de Bragança, não há Natal sem caretos e Festa dos Rapazes.

Os caretos e a Festa dos Rapazes de Varge são uma das principais expressões das tradições de Trás-os-Montes do solstício de inverno e realiza-se nesta icónica aldeia do nordeste transmontano, localizada no Parque de Montesinho.

De acordo com Cláudio Moreira, um dos mordomos da festa, não se sabe ao certo qual a origem desta tradição, mas acredita-se que tem origens célticas e faz parte da aldeia de Varge há muito tempo, atravessando gerações.

O que é certo é que a Festa dos Rapazes de Varge é uma experiência quase espiritual, que nos lembra antigas festividades pagãs, na qual a paz aparente de uma aldeia parece transformar-se num mundo de cor, alegria, música, loucura e convívio.

Caretos de Varge
Fonte: Caretos de Varge

Festa dos Rapazes começa muito antes da época natalícia. Todos os anos, no dia 1 de novembro, Dia de Todos os Santos, os rapazes solteiros da aldeia juntam-se para irem ao monte comunitário recolher lenha que depois é leiloada. Parte do valor conseguido fica para os rapazes que tiveram o trabalho duro de apanhar a lenha, a outra parte do valor fica para a realização de missas em nome dos entes queridos que já faleceram.

Assim começa o ciclo de inverno e é a partir desta data que começam oficialmente as preparações para a Festa dos Rapazes. A partir de dezembro, os rapazes solteiros reúnem-se todos os fins de semana para fazerem rondas pelas adegas de cada um, acompanhados de músicos (gaita, caixa e bombo).

Estas reuniões servem, entre outras coisas, para elaborar as loas, que são versos em forma de crítica aos acontecimentos e condutas de pessoas da aldeia durante o ano. As loas são acompanhadas por vezes de pequenas representações cómicas, que podem também conter duras críticas, mas ninguém pode levar a mal o comportamento dos caretos ou as suas loas.

Três dias de festa e muitas tropelias

Caretos de Varge
Fonte: Caretos de Varge

Os dias 24, 25 e 26 de dezembro são os dias mais aguardados em Varge, porque “é a festa mais importante do ano e todos os habitantes gostam”, conta Cláudio Moreira. No dia 24, no final do jantar, todos os rapazes que participam na festa se reúnem para vestir os fatos e os caretos saem à rua.

Após algumas tropelias pela aldeia, os rapazes prosseguem todos para um moinho um pouco mais afastado da aldeia onde se vão ouvir pela primeira vez as loas. De seguida, os rapazes dividem-se para roubar os carros de vacas e os fardos de palha, e para preparar o colóquio para a apresentação das loas ao povo.

O dia 25 de dezembro começa bem cedo com a missa de Natal, seguida do colóquio. Depois disso, é hora dos mordomos, com os seus chapéus e as varas, darem a volta a todas as casas da aldeia para desejar boas festas, acompanhados pelos caretos.

Caretos de Varge
Fonte: Caretos de Varge

Os caretos espalham o caos e a desordem por Varge, saltando, gritando e rindo ao som dos seus chocalhos e de um gaiteiro acompanhado por bombo e caixa. O feno é atirado ao povo, as raparigas são achocalhadas, a água das fontes é espalhada e os animais são provocados. A atmosfera transforma-se e cria-se a sensação de um mundo sobrenatural onde até o frio parece desvanecer.

O dia termina com a corrida das roscas, um doce típico que é transportado pela aldeia na vara dos mordomos. Depois da ronda pelas casas da aldeia, as roscas são leiloadas e o comprador desafia alguém que corra contra ele pelas roscas numa corrida de cerca de 100 metros.

Caretos de Varge
Fonte: Caretos de Varge

No dia 26 de dezembro, toda a gente tem de estar presente quando o gaiteiro começar a tocar às 6h da manhã, sob pena de serem atirados ao rio caso se atrasem. É um dia mais solene, sem caretos, comemora-se Santo Estêvão e há uma missa. Depois, escolhem-se os novos mordomos e as raparigas são convidadas a jantar com os rapazes.

Apesar do despovoamento que afeta muitas aldeias do interior de Portugal, como Varge, de 24 a 26 de Dezembro os jovens oriundos da aldeia regressam a casa para participar nesta festa e manter viva a tradição, com orgulho e dedicação. Cláudio Moreira conta que já não há muitos jovens a querer manter esta tradição “porque cada vez mais se faz notar a desertificação, mas ainda há rapazes com interesse na festa”.

Este ano e devido à pandemia da COVID-19, a Festa dos Rapazes de Varge foi cancelada. Os fatos e os chocalhos dos caretos ficarão guardados no armário à espera de poderem sair à rua no próximo ano como manda a tradição.

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