Por Natalia Mylova

Há muitas razões para visitar a Serra da Estrela, um sistema montanhoso situado no centro do país. Uma, é o monumento da Torre, que marca o ponto mais alto de Portugal Continental. E outra, é uma das maiores delícias gastronómicas do mundo: o queijo que habita neste ambiente idílico desde o século XVI (até há quem diga desde antes). O que não há dúvida é que é o mais antigo de todos os queijos lusos.

Este laticínio tem uma forma redonda e no interior da sua crosta descobre-se uma textura tenra e untuosa. Pode comer-se abrindo a parte superior e utilizando a própria peça como recipiente.

São três os segredos que dão personalidade própria ao Queijo Serra da Estrela: o animal que dá o leite, o coalho que se usa e a forma de trabalhá-lo. O primeiro é a ovelha bordaleira, autóctones da serra. O segundo é a flor de cardo, uma planta que também existe na zona e que marca uma importante diferença (geralmente o coalho usado para fazer laticínios é animal). E o terceiro, as mãos que o elaboram.

Séculos de tradição

Por Antonio Gaudencio

Não existem truques industriais, nem enormes quintas de gado nem truques da modernidade. Este queijo continua a ser feito da mesma maneira desde há centenas de anos e assim continuará a ser feito.

O processo começa com a ordenha manual das ovelhas. Depois aquece-se o leite obtido e junta-se a flor de cardo. Deixa-se repousar durante uma hora ou duas até que fique sólido. Depois separam-se as partes coaguladas do soro líquido e colocam-se num pano, onde são amassadas com as mãos. São moldados numa forma redonda e colocados no molde para curar.

O queijo estará pronto para consumo cerca de um mês e meio depois. Durante este período de maturação, é necessário virar as peças e limpar a casca para evitar a formação de bolor. As normas de produção estão muito bem definidas e existe até uma denominação de origem protegida a nível europeu.

Só é produzido na zona da Beira Interior, em localidades como Fornos de Algodres, Gouveia, Celorico da Beira, Seia, Nelas, Oliveira do Hospital, entre outras. Existem aproximadamente 120 rebanhos de ovelhas na área, mas o queijo é tão famoso que pode haver uma lista de espera.

A maior parte da produção é distribuída por Portugal, embora agora já seja exportada para outros países como Brasil, Espanha, França e até já se fala do Japão como um possível destino.

O templo de veneração

Por Downunderphoto

Para entender a magnitude da sua importância, o Queijo Serra da Estrela tem a sua própria catedral. Encontra-se no centro histórico de Celorico da Beira, dentro do edifício Paços do Concelho do século XVII e é conhecido como o Solar do Queijo. Fica próximo do castelo e da igreja de Santa Maria, por isso, além de prestar uma homenagem ao queijo, também pode fazer um passeio turístico.

Dentro do edifício, o visitante pode conhecer a história do queijo, conhecendo os utensílios que servem para a sua produção e as diferentes etapas da sua produção. Também pode comprar e provar queijos, além de outras comidas típicas como pão de centeio, presunto, mel ou vinho.

Aliás, costuma-se comer com pão torrado ou ao natural e um copo de vinho, por isso não se engane: poderá sair bem abastecido do restaurante.

Deve-se ter em conta que a produção e comercialização deste alimento é um dos pilares da economia da Serra da Estrela. Assim, procura-se preservar a sua tradição e aumentar a sua fama no mundo, para além do grupo de apreciadores de queijo (que também não é pequeno, diga-se).

Contemplar a serra

Uma vez por ano celebra-se a Festa do Queijo Serra da Estrela, em Oliveira do Hospital. É uma das mais importantes, embora não seja a única: na região organizam-se algumas mais, geralmente nos últimos meses de inverno. Como é fácil de imaginar, nestes eventos, as fábricas de queijo montam as suas bancas e colocam os seus produtos à venda. Os visitantes comem e fazem compras. Toda a gente fica feliz.

Em 2011, foi promovida uma campanha para escolher as sete maravilhas da gastronomia portuguesa. E com 70 pratos a concurso, o Queijo Serra da Estrela entrou na lista dos vencedores.

Ao seu lado estavam outras estrelas da gastronomia portuguesa como a alheira de Mirandela, o caldo verde, o arroz de marisco, a sardinha assada, o leitão da Bairrada e, claro, os pastéis de Belém.

Apesar de não precisar de uma desculpa para visitar a região da Beira Interior e a Serra da Estrela, a possibilidade de saborear as iguarias da zona, como o queijo, é sem dúvida um bom motivo para decidir pegar nas malas e fazer-se à estrada.

Casas de campo na Serra da Estrela

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