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O último habitante de Vale de Poldros

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Vale de Poldros
Vale de Poldros. Por Fernando Gonçalves

Palavras como confinamento e isolamento social entraram no vocabulário do nosso dia-a-dia devido à pandemia da COVID-19, mas para Fernando Gonçalves, o único habitante permanente de Vale de Poldros, essas palavras não são novas. Desde 2004 que Fernando vive sozinho nesta aldeia abandonada do concelho de Monção, também conhecida como a aldeia dos hobbits, porque parece saída de um cenário da saga O Senhor dos Anéis.

“Isto aqui a gente chama-lhe uma aldeia mas isto nunca foi nenhuma aldeia”, começa por esclarecer Fernando. “Vale de Poldros é uma branda”, atira. Mas afinal o que são as brandas? Típicas das serras do Soajo e da Peneda-Gerês, as brandas são núcleos habitacionais temporários de verão, ou seja, durante os meses de calor as populações deslocam-se das suas casas de inverno para as zonas mais altas da serra, onde abundam pastos férteis para alimentar o gado.

Por Fernando Gonçalves

No fim do verão ou princípio do outono, as pessoas deixam as brandas e descem para a inverneira, onde permanecem até março, altura em que voltam a subir para as brandas para fazerem as sementeiras do centeio e deixar o gado a pastar.

Com o abandono das atividades agrícolas e pastoris, as brandas foram perdendo importância e, por isso, foram praticamente deixadas à sua sorte ou então transformadas em casas de férias. A Branda de Santo António de Vale de Poldros é uma das cerca de 10 brandas que existem no Alto Minho que se viu castigada pelo tempo e pelo despovoamento, mas que manteve a beleza única da sua paisagem.

“Era um sítio emblemático e é um sítio bonito”, afirma Fernando sem hesitar. Apesar de ter nascido no centro da freguesia de Riba de Mouro, a 11 quilómetros de Vale de Poldros, quando decidiu regressar a Portugal, depois de ter passado 17 anos como emigrante em Andorra, Fernando Gonçalves não teve dúvidas do sítio onde queria viver e abrir o seu restaurante.

O restaurante para combater a solidão

Vale de Poldros
Por Fernando Gonçalves

Restaurante Val de Poldros, que abriu há 18 anos, ajuda a colmatar a solidão. “Quando [o restaurante] está aberto sempre vem gente comer ao meio dia”, conta. “É capaz de vir o funcionário logo ajudar-me. Ontem fui à lenha. Tenho aí uns animais, umas ovelhas, uns cavalos para me entreter”, acrescenta.

Fernando vai assim passando o tempo entre os animais e a cozinha. “Durante a semana tenho quatro ou cinco clientes, no fim de semana é que normalmente temos muitos”, explica. Fernando conta que tem alguns clientes fixos que já se tornaram amigos. Vêm da vizinha Galiza, do Porto e até de Lisboa à procura da especialidade da casa: costeletão grelhado na brasa.

“Também vendo muito costeleta de cachena, que é vitela daqui, cabrito, bacalhau e também faço o cordeiro, aquele que chamam ‘a foda à Monção’, mas esse só por encomenda, porque é em forno de lenha”, salienta.

Vale de Poldros
Por Fernando Gonçalves

Apesar de não ter muitos clientes, principalmente no inverno, o que realmente frustra Fernando Gonçalves é a falta de mão de obra disponível. “Não é fácil encontrar gente para trabalhar”, conta. “Quantas vezes fechei a porta porque estava enervado, chateado… E muitas vezes pus os clientes a descascar as batatas”, desabafa.

Mas desde que Kelson Boa Esperança começou a trabalhar no restaurante as coisas melhoraram. “Estou muito contente com o rapaz que tenho. Ele é de São Tomé [e Príncipe] e veio para cá estudar. Já está cá há sete anos. Às vezes também vem ajudar a mãe dele”, explica.

A amizade entre os dois já levou Fernando a cruzar o oceano para conhecer as raízes de Kelson. “Gostei, mas é outro mundo”, diz entre gargalhadas. Foi apenas uma semana de férias, mas ainda houve tempo para levar um pouco da cozinha são-tomense para a sua própria cozinha minhota. “Trouxe picante que comprei no mercado local”, conta.

Um chef autodidata

Vale de Poldros
Por Fernando Gonçalves

Mas desengane-se quem pensa que o anfitrião de Vale de Poldros sempre teve um dom para a cozinha. “Da cozinha só gostava de comer”, confessa. O sonho de Fernando era ser mecânico de motas, mas com apenas 18 anos emigrou para Andorra para escapar ao serviço militar obrigatório. Aí trabalhou numa quinta de animais, na construção civil e até num supermercado. Aos 35 anos decidiu regressar às origens e abrir um restaurante pareceu-lhe a desculpa perfeita para voltar.

“Quando vim para cá pensei em contratar cozinheiras, mas não dava. E também como não havia tanta gente tentei aprender”, explica. “Eu faço grelhados e isso já sabia fazer”, continua. “Comecei a ver vídeos e gostava muito de ver programas de televisão só de cozinha. Foi aperfeiçoar e ver o que os clientes gostam”, conclui.

Vale de Poldros
Por Fernando Gonçalves

Apesar de dizer que gosta da cidade, Fernando garante não ter saudades da sua vida citadina. “Aqui não temos grandes confusões, é mais relaxado”, afirma. Contudo, Fernando Gonçalves garante que gosta do contacto com as pessoas e de falar. “Conheço pessoas de longe, que é o mais agradável. Se a comida estiver boa, as pessoas agradecem sempre”, assegura.

O único habitante de Vale de Poldros gostava que a sua aldeia estivesse mais bem preservada e de ter mais visitantes, no entanto, não aprecia o turismo de massas que já vai chegando a aldeias vizinhas, como Sistelo. Na sua pequena aldeia, Fernando quer receber boa gente que aprecie a beleza natural envolvente, sem danificar nada. Quanto à comida, Fernando garante que nunca faltará. Seja a que hora for, haverá sempre algo para colocar na mesa.

10 aldeias abandonadas que merecem uma visita

Com a estagnação demográfica, o envelhecimento da população e a forte emigração, a desertificação de lugares de menor dimensão tem acelerado e é provável que atualmente existam ainda mais aldeias abandonadas. Apesar de estarem à mercê da natureza, muitas destas aldeias mantêm os seus encantos e guardam inúmeras histórias para contar. Descubra 10 aldeias abandonadas que vale a pena visitar.

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