Óbidos. Por Lacobrigo

Bem no centro de Portugal, já envolta no ambiente do região do Oeste, fica Óbidos. Basta olhar esta vila de longe para se sentir o seu encanto. Mais de perto, ao entrarmos na povoação pela chamada porta da vila, que é mais do que uma simples entrada, somos de imediato recebidos por um relato de eras, o primeiro de muitos episódios protagonizados ligados a esta terra.

As ruas que vamos encontrar remetem para tempos presentes e antigos, sempre enfeitadas por vegetação luxuriante, ora cobrindo muros ora desprendendo-se de varandins das casas. Estas são dominadas pelo branco e emanam uma mistura ousada de culturas. Não surpreende por isso o enleio da arquitetura mourisca como a gótica, ou a presença do estilo manuelino cruzado com o barroco. Por vezes são detalhes mínimos, e no entanto marcantes, que colecionamos de memória ao passarmos por eles.

É fácil afeiçoarmo-nos a este lugar. Apetece ir de recanto em recanto até (re)conhecer esta povoação como se sempre aqui tivéssemos vivido. Deixa-se assim breves apontamentos para cada qual desenhar um passeio à medida das suas paixões e enlevos.

Porta da Vila

Porta da Vila. Por Pedro

A entrada principal, em Óbidos, faz-se pela chamada porta da vila, só por si um monumento que relata história. Foi edificada por vontade de D. João IV, que assim quis agradecer a proteção recebida da padroeira da povoação, Nossa Senhora da Piedade, durante o período da Guerra da Restauração, de 1640. No seu interior existe uma capela (também ela com o nome de Nossa Senhora da Piedade). Um detalhe de grande beleza é a varanda que faz parte deste cenário, enriquecido com a decoração em azulejaria. Esta é uma forma no mínimo original de dar os primeiros passos portas adentro, já com as expectativas elevadas.

Castelo e Muralha

Castelo e Muralha. Por Alvesgaspar

O modo como o castelo e a respetiva muralha surgiram e se foram reinventando ao longo de muitas eras, traduzem relatos em tudo semelhantes aos de muitas outras fortificações existentes no nosso país: a escolha da localização obedeceu a motivos de defesa e estratégia militar, antecipando movimentos de potenciais inimigos. Uma preocupação levada sempre em conta pelos povos que elegeram este lugar para viver: dos lusitanos aos romanos, dos visigodos aos muçulmanos. O mesmo se deu no período da Reconquista, desta feita com D. Afonso Henriques que tomou o castelo aos mouros em 1148. Atualmente classificado como monumento nacional, alberga a Pousada de Óbidos, um dos edifícios mais belos e que melhor preservou a História.

Museu Municipal de Óbidos

Este espaço oferece um repositório que remete para o universo de artistas autóctones, como é o caso da notável Josefa de Óbidos. Há ainda outras obras na área da pintura e escultura. O museu reúne património arqueológico entretanto descoberto na vila e que testemunha a presença romana em Óbidos. Para além disso existe uma considerável coleção de armas do período da guerra peninsular.

Igreja de Santa Maria

Igreja de Santa Maria. Por Paulo Juntas

Estamos perante a igreja matriz de Óbidos. Vários credos religiosos escolheram a mesma localização para os respetivos templos. Existe a ideia de que os visigodos começaram por instalar aqui o seu local de culto. Este transformou-se depois em mesquita durante a presença muçulmana. Com o movimento da Reconquista, D. Afonso Henriques dedicaria aqui uma igreja ao culto mariano. É fácil encontrá-la, na Praça de Santa Maria. O seu interior é de um imenso valor artístico, a começar pelo portal maneirista. As paredes estão decoradas, de baixo acima, com azulejos do século XVII. A parte superior é rematada com uma cobertura de madeira pintada, decoração concebida por Francisco Azevedo Caminha. Descobrem-se ainda pinturas de Baltazar Gomes Figueira e Josefa de Óbidos. Na sacristia expõe-se uma das obras desta artista, o retábulo do Casamento Místico de Santa Catarina.

Praça de Santa Maria

Ao sair da Igreja de Santa Maria abre-se um espaço franco numa praça com o mesmo nome, decorado com um chafariz, derradeiro ponto do aqueduto de Óbidos. Há ainda um pelourinho decorado com uma rede de pesca. A esse propósito conta-se que este apontamento foi ali colocado por indicação de D. Leonor, mulher de D. João II, como forma de agradecer ao pescador que havia recolhido, numa rede, o corpo do infante seu filho, após um acidente junto ao Tejo.

Igreja da Misericórdia

Igreja da Misericórdia. Por StockPhotosArt

Este templo integrava a Santa Casa da Misericórdia de Óbidos, que a rainha D. Leonor aí fundara no ano de 1498. No lugar desta igreja havia existido anteriormente a antiga Capela do Espírito Santo. Ao longo dos vários arranjos e reformas de que foi beneficiando, o seu interior acabou por ganhar uma decoração das paredes em azulejaria, hoje uma das suas imagens de marca. Um detalhe surpreendente que vale a pena apreciar é a exuberância do portal que franqueia a entrada da igreja, ao nível das suas formas e volumes.

Igreja de S. Pedro

A Igreja de S. Pedro é das mais antigas de Óbidos e supõe-se que remeta para os séculos XIII-XIV. Como muitos outros edifícios sofreu com o terramoto de 1755, que apenas deixou incólume o altar-mor e a torre do sino. É aqui que está sepultada a pintora Josefa de Óbidos.

Como é evidente a vida da povoação sempre extravasou as suas muralhas. Daí os nossos passos saírem fora de portas, em busca do aqueduto e do Santuário do Senhor de Pedra.

Aqueduto

Aqueduto de Usseira. Por Paulo Juntas

O Aqueduto de Usseira inicia-se junto a uma nascente de água com o mesmo nome e termina no Chafariz Real da Praça de Santa Maria, em frente à igreja matriz, como já foi mencionado. Estende-se ao longo de seis quilómetros, três dos quais subterrâneos. A sua construção foi ordenada por D. Catarina da Áustria, mulher do rei D. João III, em 1573, e marca uma melhoria qualitativa na vida da população de Óbidos e um progresso ao nível da criação de infraestruturas.

Santuário do Senhor da Pedra

Santuário do Senhor da Pedra. Por dynamosquito

Foi edificado em 1740 em honra de D. João V. É uma construção com uma estrutura hexagonal, toda em pedra, seguindo os princípios da arquitetura barroca. Foi desde sempre um local de peregrinação. Mesmo hoje merece celebrações em honra do Senhor da Pedra, durante o mês de maio. No seu interior existem três capelas: uma dedicada ao Calvário, outra a Nossa Senhora da Conceição e a última à morte de São José. Na capela-mor guarda-se uma impressionante imagem em pedra de Cristo crucificado.

Gastronomia

Ginjinha de Óbidos. Por irina_lazutina

Como em qualquer paragem portuguesa, também aqui a riqueza gastronómica se confirma. A aliança entre a natureza e a mestria de quem cozinha leva-nos a procurar o peixe da Lagoa de Óbidos. Daí vem o ingrediente essencial para a caldeirada, a merecer a companhia dos vinhos da Região Demarcada do Oeste. E por se falar no que beber, é quase incontornável provar a Ginjinha de Óbidos, que se oferece num pequeno cálice, ecológico feito de chocolate.

Agenda de Atividades: A Vida Em Pleno

Óbidos tem vindo a tirar partido do seu ambiente acolhedor criando momentos festivos que se repetem anualmente. Uns mais abrangentes, outros dirigidos a públicos particulares, mas todos eles bem-sucedidos.

Um desses casos é o Festival Internacional do Chocolate. A base de cacau misturada em doses diferentes com mais ingredientes faz encher a vila de visitantes que tornam a paixão pelo chocolate num prazer saciado em degustações para todos os gostos.

Já no período natalício, a povoação assume a designação de Vila Natal, criando-se uma atmosfera em sintonia com a época. O mercado alusivo e a animação de rua imbuída do espírito da quadra, unem a vila e os seus visitantes.

Num registo cultural distinto, Óbidos também acolhe a Semana Internacional de Piano (SIPO). Aqui dá-se o encontro de amantes da música de piano, sejam grandes intérpretes, estudantes, apreciadores. A experiência tanto inclui concertos como breves cursos, entre outras ações, sempre à volta da música e deste instrumento.

Mas não é tudo, desde dezembro de 2015 que Óbidos passou a designar-se Creative City of Literature ao integrar a UNESCO creative cities network. Esta ideia ganhou forma como estratégia criativa de desenvolvimento que se tem vindo a desdobrar em várias ações culturalmente importantes.

Assim se compreende o surgimento do FOLIO, Festival Literário Internacional de Óbidos. Este certame abre espaço para a reunião e maior proximidade entre de autores e leitores dada a própria estrutura dos espaços que albergam o FOLIO e o registo intensivo deste evento, com um cartaz sempre muito rico.

Lagoa de Óbidos. Por Dipl. Ing. Guido Grassow

Uma última sugestão: ao redor de Óbidos há muito mais para desfrutar, sempre numa perspetiva de ligação profunda à natureza. Uma dessas propostas é o passeio à Lagoa de Óbidos. Mais adiante, descobrem-se outras águas mais revoltas, são as da Foz do Arelho que anuncia o Atlântico e nos recorda que estamos na região Oeste em todo o seu fulgor.

Casas rurais em Óbidos

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