Igreja de São Pedro. Por MiguelG

Quem ouve falar em Óbidos logo exclama um profundo ‘ahhhh’. Ora é pela deliciosa e afamada ginjinha, ora é pelo recordar de um chocolate quente por lá apreciado num dia frio de inverno, ora é pelas ruelas características desta vila que convidam à contemplação.

Localizada a cerca de 80 km acima de Lisboa, a chegada a esta vila antiga mostra-nos logo ao longe um pouco do que nos espera. Um castelo secular de origem romana protege a vila do seu alto, como assim tem de ser. Mais ao perto começamos a ver as casas brancas de barras coloridas que lhe dão o seu ar pitoresco, visão exponenciada na Rua Direita, a principal rua de passagem e comércio desta pequena vila do Oeste. É aqui que várias lojas de artesanato e cafés dão vida a esta pacata vila.

Mas passear por estas ruas caiadas de branco, com barras coloridas e flores à janela despertam-nos uma saudade de tempos antigos. Pois muitas destas casas com cal a cair e pinturas desbotadas fazem-nos lembrar uma terra parada no tempo. As ruas tranquilas e labirínticas, o castelo no alto e as várias igrejas ajudam a criar este ambiente sereno e calmo… a maior parte do ano.

Por MiguelG

Sim, porque toda esta calmaria é arrebatada, volta e meia, pela enchente de turistas que visitam os grandes festivais que aqui se realizam, sendo os mais afamados o Festival Internacional de Chocolate, realizado entre fevereiro e março, o Mercado Medieval, que faz uma recriação histórica e transforma a vila num burgo da Idade Média no verão, e a Vila Natal, que transforma Óbidos num mundo encantado, que atrai visitantes de todos os pontos do país, em dezembro.

A vila tem, portanto, esta particularidade: ora acolhe milhares de visitantes que querem entrar nestes cenários mágicos de doces, iguarias, cenários históricos e fantasia, ora mostra-se singela, com toda a sua antiguidade, calma e tranquilidade nos restantes períodos do ano. Por isso, se quer apreciar esta vila tal e qual como ela é, escolha datas fora destes grandes eventos anuais. Falemos melhor deles mais à frente, pois são muito apetecíveis e interessantes.

Assim, para fazer uma visita mais tranquila, sugerimos que escolha particularmente o inverno. Pois o frio convida a aquecermo-nos com um chocolate quente ou com uma ginjinha, que pode vir com ou sem elas, num copo normal ou de chocolate. Imperdível.

Calcorreando por Óbidos

Por MiguelG

A entrada na zona muralhada da vila faz-se pela chamada Porta da Vila. Esta é encimada pela inscrição –«A Virgem Nossa Senhora foi concebida sem pecado original»– mandada colocar pelo Rei D. João IV, em agradecimento pela proteção da Padroeira aquando da Restauração da Independência em 1640. No seu interior, encontra-se a capela-oratório de Nossa Senhora da Piedade, Padroeira da Vila, com varandim barroco e azulejos azuis e brancos (c.1740-1750) com motivos alegóricos à Paixão de Cristo. Começa logo aqui a expressão das inúmeras edificações dedicadas ao credo religioso, desde igrejas, capelas, ermidas e até um santuário, que existem nesta pequena vila.

Logo atravessada, somos convidados a passear pela Rua Direita. Recheada de comércio, é aqui que se sente o pulsar da vila, onde o artesanato, a ginja e os artefactos medievais fazem as delícias dos turistas. Passa-se muito tempo aqui, a provar iguarias, a apreciar artesanato em madeira ou metal, com motivos medievais, ou a escolher cerâmicas ou rendilhados.

Após uma demora nesta rua, dirigimo-nos ao castelo, bem no final da mesma. Atribui-se-lhe origem romana, tendo sido posteriormente fortificação sob o domínio árabe. Depois de conquistado pelos cristãos (1148) foi várias vezes reparado e ampliado. No reinado de D. Manuel I, foi aqui construído um paço e alteradas algumas partes do castelo. Destacam-se as janelas de belo recorte manuelino abertas para o interior do pátio. O paço sofreu fortes danos com o terramoto de 1755 e assim ficou até, no século XX, ser recuperado para aí se instalar a Pousada, a primeira pousada do Estado em edifício histórico.

Por Pixabay

Óbidos é uma terra habitada desde o paleolítico, e que por aqui passaram fenícios, árabes e romanos. Outra da característica da vila são as inúmeras edificações religiosas. Tem cinco igrejas (São João Baptista, São Pedro, Misericórdia, Santa Maria e São Tiago), duas ermidas, (Nossa Senhora do Carmo e Ordem Terceira), uma capela (São Martinho), duas capelas-oratório instaladas na Porta da Vila (Nossa Senhora da Piedade) e na Porta do Vale (Senhora da Graça) e ainda o Santuário de São Jesus da Pedra, este instalado fora da vila na estrada para as Caldas da Rainha.

São edificações muito antigas. A Igreja de São Pedro, por exemplo, é de fundação medieval, mas da sua construção inicial conserva apenas os vestígios do antigo portal gótico na fachada. Já a Igreja de Santa Maria, igreja matriz localizada na praça com o mesmo nome e o principal templo de Óbidos, crê-se que a sua fundação remonta ao período visigótico, tendo sido transformada em mesquita no período muçulmano e novamente sagrada por D. Afonso Henriques logo após a conquista da Vila em 1148.

As paredes de Óbidos têm, pois, muito para contar. A cada passo podemos deparar-nos com vestígios de civilizações passadas. Dos recantos e jardins fechados da zona da antiga medina à presença do gótico, passando pelo renascimento e barroco, Óbidos é uma extensa obra de arte reconstruída ao longo de vários séculos. Culturalmente falando, Óbidos também se firmou no mapa pelo nome da pintora Josefa de Óbidos (1630-1684). Josefa instala-se em Óbidos e inicia uma intensa atividade na área da pintura, granjeando bastante fama nacional e internacional. Josefa quebrou muitos dos cânones de uma sociedade predominantemente masculina, estabelecendo-se profissionalmente como pintora.

Esta herança histórica de outras épocas, associada à dinâmica da programação cultural de hoje, fazem desta vila um polo de atração turística cultural. Foi-lhe inclusive atribuído o título de Vila Literária da UNESCO.

Mas Óbidos não está confinada às suas muralhas. Expressa-se muito além destas. Localizada no Oeste, a si lhe pertencem quatro praias: Covões, El-Rei, Cortiço e Bom Sucesso. Mas é a Lagoa de Óbidos que mais fama granjeia. É o sistema lagunar costeiro mais extenso da costa portuguesa. Possui uma área total aproximada de 6.9 km2 e uma profundidade média de dois metros. Para além da pesca do robalo, linguado e outros peixes e moluscos, aqui se pratica, ao longo de todo o ano, diversas atividades como vela, windsurf, canoagem, paddleboarding, etc. Se quiser experimentar, tem várias empresas que promovem estas experiências na Lagoa. Pode também passear por aqui e circundar a lagoa, numa atividade de contacto com a natureza ou percorrer a Ecovia, um percurso de cerca de 15 km pela natureza, que liga esta zona à vila.

Óbidos e os festivais

Festival Internacional de Chocolate. Por Município de Óbidos

Esta pequena e pacata vila conseguiu fazer-se notar ao país com a organização de inúmeros festivais de sucesso, que serviram de inspiração a muitas outras iniciativas no país. A sua transformação nos mais variados temas consegue levar os visitantes a outras épocas e mundos fora da realidade. Destacamos os três principais. Mas, ressaltamos, prepare-se para eventos muito concorridos, especialmente se for ao fim de semana.

Em pleno inverno, altura em que ninguém se priva de comer chocolate, o Festival Internacional de Chocolate de Óbidos, que em 2019 vai para a sua 17ª edição, faz as delícias de miúdos e graúdos com as mil e uma formas de comer ou beber chocolate. Seja amargo, branco ou de leite, em estado sólido ou líquido, este festival adoça a vida a todos os visitantes.

Na Cerca do Castelo, os visitantes são convidados a confecionar chocolate em oficinas e workshops, enquanto esperam pelos saborosos croissants prestes a sair do forno. Podem assistir a ao lançamento de novos produtos e provar as criações de inúmeras marcas nacionais e internacionais presentes. Ponto obrigatório do Festival são as esculturas de chocolate, verdadeiras obras artísticas, realizadas pelos chefs chocolateiros.

Mercado Medieval de Óbidos. Por Município de Óbidos

O Mercado Medieval de Óbidos instala-se no verão para uma recriação histórica que transforma a Vila de Óbidos num burgo da idade média, durante cerca de duas semanas. Nesta altura, bobos, cuspidores de fogo, dançarinos, músicos e jograis invadem a vila transportando o visitante para outra dimensão. O ambiente medieval é vivido dentro da muralha do castelo, encimada por ameias, entre homens de armas, damas, mendigos e leprosos, mercadores, artesãos e feiticeiros. E, para aconchegar o estomago, inúmeras tavernas satisfazem os desejos dos esfomeados. Aqui podem sentir-se velhos aromas e sabores, manjares de outras épocas, regados por colheitas da região. Encontra-se reis e rainhas e uma corte em festa, em que a música reina e a animação está em alta.

O final do ano é altura da Óbidos Vila Natal. Durante um mês, uma roda gigante, uma pista de gelo, carrosséis, trampolins, um comboio e a casa do Pai Natal são algumas das muitas atrações que encantam miúdos e graúdos com a magia que a época natalícia oferece. Os visitantes podem ainda assistir a espetáculos de magia, circo, comédia, teatro e marionetas, existindo também muita animação por todo o recinto. Fora da Cerca do Castelo, o Natal também se faz sentir. Ao entrar na Porta da Vila, a magia das luzes do Natal começa numa árvore de Natal, repleta de luzes, para depois seguir um trilho mágico iluminando a muralha e a Rua Direita até à entrada do recinto do evento.

Seja qual for o seu perfil de turista, Óbidos tem seguramente algo para lhe oferecer. Da história, à cultura, passando pela natureza, atividades radicais, golf ou gastronomia, é uma pacata vila que se impregna na memória de quem a visita. Marque, por isso, na sua agenda.

DADOS PRÁTICOS

Casas de campo em Óbidos

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