Olivença

Por Juan Aunión

Quer se escreva com ç, em português, ou com z, em castelhano, ninguém pode negar que em Olivença há uma identidade única que transcende fronteiras e idiomas. Uma rápida pesquisa num qualquer motor de busca sobre Olivença explicará que é uma cidade espanhola que pertence à comunidade autónoma da Estremadura e à província de Badajoz, mas a realidade é bem mais complexa.

A história deste município de quase 12 mil habitantes, segundo dados de 2019 do Instituto Nacional de Estatística em Espanha, remonta ao ano de 1297, quando no Tratado de Alcanizes, assinado entre Fernando IV, rei de Leão e Castela, e D. Dinis, rei de Portugal, se definiu os limites fronteiriços entre os dois reinos e se estabeleceu que Olivença fazia parte do território português.

Séculos mais tarde, em 1801, através do Tratado de Badajoz, que colocava fim à Guerra das Laranjas, o território foi anexado a Espanha. Em 1817, Espanha reconheceu a soberania portuguesa subscrevendo o Congresso de Viena, comprometendo-se à devolução do território o mais rapidamente possível. Contudo, até aos dias de hoje, tal ainda não aconteceu.

A chamada “questão de Olivença” tem sido encarada pelos sucessivos governos de Portugal com silêncio, com a justificação de não ser o momento oportuno para pedir o cumprimento da decisão do Congresso de Viena. Contudo, subtilmente, Portugal considera Olivença como “território português sob administração espanhola” e a Constituição da República Portuguesa de 1976 sublinha que “Portugal abrange o território historicamente definido no continente europeu”. Portanto, subentende-se que esses 430 quilómetros quadrados que abrangem o município de Olivença historicamente também fazem parte de Portugal.

“A dupla nacionalidade apenas pode ter coisas boas”

Igreja de Santa Maria Madalena

Igreja de Santa Maria Madalena. Por Tagido

Apesar da apatia das autoridades portuguesas, em Olivença há oliventinos que se sentem tão espanhóis como portugueses e cerca de 10% da população já tem dupla nacionalidade. Augusto Andrade faz parte dessa significativa percentagem de oliventinos que exibe a cidadania espanhola e portuguesa com o mesmo afinco. “Quando estamos em Espanha somos espanhóis, quando estamos em Portugal somos portugueses”, afirma.

Licenciado em Belas Artes, Augusto foi para Elvas estudar português para conhecer a idiossincrasia da sua nova nacionalidade, que obteve há cerca de cinco anos. Conseguiu o nível B2 e nas suas criações artísticas fala de fronteiras, um tema que conhece bem.

Augusto Andrade acredita que “a dupla nacionalidade apenas pode ter coisas boas”. “O português é um dos idiomas mais falados do mundo e se te dão o cartão de cidadão português obrigas-te a aprendê-lo”, diz.

Mas nem tudo foi fácil. O processo de aquisição da nacionalidade portuguesa demorou dois anos para ser validado. Apenas os oliventinos nascidos antes de 1980 podem solicitar a nacionalidade, mediante a apresentação da certidão de nascimento e da árvore genealógica como prova de que a sua família era natural de Olivença. Foi um processo complexo no qual o papel da Associação Além-Guadiana (AAG) foi fundamental.

Olivença

Por inacio pires

Augusto Andrade fazia parte da associação fundada em 2008 para promover a língua e a cultura portuguesas. “Desde a Associação Além-Guadiana, fizemos muitas coisas. Há uns anos colocámos os nomes das ruas em português e espanhol, recuperámos áudios e documentos de investigação antigos, tentámos recuperar o português das pessoas mais velhas, que é diferente do português atual”, conta.

Apesar de atualmente a AAG já não estar em funcionamento, Joaquín Fuentes, antigo presidente da associação, esclarece que o grande trabalho da AAG “foi sensibilizar as pessoas, fazê-las ver que acrescentávamos algo e resgatar uma cultura esquecida”.

Joaquín explica que a incompatibilidade com o trabalho e a família ditou o fim da AAG, mas acrescenta que havia chegado um momento em que já não podiam fazer mais nada. “A bola já não estava na associação, estava na administração, nos restaurantes – pedimos que mudassem o idioma dos menus e que os pusessem tanto em castelhano como em português – e nas escolas”, justifica.

Preservar a língua para preservar a identidade

Olivença

Calçada portuguesa em Olivença. Por inacio pires

Tanto Augusto como Joaquín acreditam que o ensino da língua portuguesa nas escolas é fundamental para a preservação da herança cultural portuguesa em Olivença. O antigo presidente da AAG explica que nos anos 50 toda a gente em Olivença falava português. Os oliventinos eram bilíngues, mas a língua portuguesa era o idioma utilizado.

Fica guardado na memória um português-oliventino, falado sobretudo entre os mais velhos, que a ditadura de Franco não conseguiu apagar totalmente e se manteve resistente no seio da família, em clandestinidade.

Hoje em dia, Augusto assegura que as pessoas começam a falar português nos bares. “A nós jovens custa-nos mais, temos que forçá-lo. Ainda faltam alguns anos para que todos falemos com naturalidade”, revela.

Contudo, tem havido um esforço para mudar essa situação. Em Olivença, e em toda a Estremadura, nas escolas é possível escolher a língua portuguesa como segundo idioma. Para Joaquín, ter dupla nacionalidade e falar português abre portas, quer em termos educativos como laborais.

Do outro lado da fronteira

Olivença

Ponte da Ajuda. Por Fotoeventis

E como olham os portugueses para os oliventinos que querem a nacionalidade portuguesa? “Os portugueses que processaram as nacionalidades ficaram surpreendidos que quiséramos a nacionalidade”, explica Augusto Andrade. “Foi por uma questão romântica, cultural e histórica”, acrescenta.

A AAG e todas as atividades que organizaram fizeram eco em Portugal e trouxe um outro olhar dos portugueses sobre Olivença. “Aos portugueses surpreendeu-lhes muito que houvesse gente em Olivença que quisesse recuperar o seu passado”, conta Joaquín Fuentes.

Para o antigo dirigente da AAG, “em Portugal havia uma visão muito tendenciosa de Olivença”, por ser uma questão nunca resolvida. Mas, hoje em dia, “os turistas portugueses gostam muito de vir a Olivença” e até “ficam muito surpreendidos, porque a jóia da cidade é a igreja de Santa Maria Madalena e é de estilo manuelino português”, conta Joaquín.

Também do lado espanhol, na última década, Augusto considera que houve uma mudança da imagem pejorativa que se tinha relativamente ao português. Havia “falta de empatia e de conhecer a sua cultura”, afirma. No entanto, “houve um crescimento do interesse, não apenas no turismo, mas também em querer conhecer a sua história, em querer estudar e aprender sobre ela”, acrescenta.

Porque afinal há muito mais que coisas que unem Olivença a Portugal do que a ponte sobre o rio Guadiana, que até já trouxe desavenças entre as duas nações. Quem chega a Olivença vê o nome das ruas, praças e avenidas em português, a arquitetura é similar à portuguesa, com edifícios do gótico manuelino, e até o pavimento é feito de calçada portuguesa. Se entrar na igreja de Santa Maria Madalena poderá até ter a sorte de ouvir a missa em língua portuguesa. Se passar por Olivença no dia 10 de junho saiba que aí também se celebra o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. E se o cumprimentarem com um amigável “bom dia” não estranhe e sinta-se em casa.

Para ler o artigo sobre Olivença do ponto de vista espanhol clique aqui.

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