Palacio da Fronteira

Por Filipe Samora

Há uma fronteira impercetível, desenhada pela linha de comboio de Sintra, que separa a cidade envolta em ruído e pressa de um dos seus recantos mais raros e preciosos, uma espécie de limbo retirado ao tempo: o Palácio de Fronteira, no Parque Florestal de Monsanto. À sua volta sentimos uma placidez que contrasta com a Lisboa que ficou, há 2 minutos, no último semáforo verde por que passámos. Sem que demos conta, transportamo-nos para um lugar, numa outra era, ainda por adivinhar.

Palacio da Fronteira

Por Pat

Estacionamos a uns 100 metros, junto à Igreja de S. Domingos de Benfica e caminhamos por passeios mínimos, recortados por ervas rasteiras, molhadas da chuva, ladeando uma estrada estreita que começa a subir a encosta íngreme para Monsanto. Dali a nada avista-se ao fundo uma araucária centenária que, com os seus ramos longos, parece abraçar o edifício do Palácio, uma casa pintada em tons de grená e salpicada por azulejos até mais não.

No cimo do portão de ferro forjado, em cada umbral, as estátuas de Vénus e Marte; é assim que os opostos nos recebem nesta visita de final tarde. No pátio à entrada está Filipe Benjamim Santos, o Secretário-Geral da Fundação da Casa de Fronteira e Alorna que nos irá conduzir o olhar por entre uma multitude de relatos e detalhes ínfimos.

É ele quem nos conta como as pedras deste lugar começaram a ganhar a forma de edifício à volta de 1670, por iniciativa de D. João de Mascarenhas que, por esses tempos recebia o título de 1º Marquês de Fronteira do príncipe regente D. Pedro II. A sua intenção foi construir um pavilhão de caça, ocupado apenas na época das férias, pois a distância de 2 a 3 horas a cavalo de Lisboa não facilitava deslocações frequentes.

Passado pouco mais de um século, a sua finalidade modificava-se: a força bruta do terramoto de 1755 arrasou com a residência principal dos marqueses, ao Chiado, como tantas outras na capital. A família fixa-se então em S. Domingos de Benfica, que sofrera muito menos estragos. O pavilhão de caça foi assim renovado, ampliado e ganhou o estatuto de residência permanente, tal como hoje ainda acontece.

O Palácio de Fronteira, classificado como monumento nacional desde 1982, continua a ser habitado, numa das sua alas, pelos descendentes de D. João de Mascarenhas. Na verdade, as histórias desta família e a História do país cruzam-se e explicam-se mutuamente através deste lugar que vamos conhecer.
Começamos pelo interior do edifício: nas escadarias que subimos esteve, há um ano, Mario Testino; veio fazer uma sessão fotográfica para a Vogue inglesa. Entrou e ali ficou; não visitou mais nada; prendeu-se apenas por um recanto ao cimo daquelas escadas e pelo modo como a luz aí penetrava através de uma janela lateral, espalhando-se pelas paredes.

Palacio da Fronteira

Por Filipe Samora

Tudo isto para dizer que o olhar de quem visita o Palácio toca e encanta-se com o mais inesperado. Mas seguindo a linha das visitas oficiais guiadas que aqui acontecem quase diariamente, somos levados a descobrir a Sala das Armas. As suas paredes são como que um prenúncio da banda desenhada, cobertas de azulejos originais da época, os primeiros que se sabe terem sido trazidos da Holanda. Neles relata-se em pormenor, e quantas vezes com humor, oito batalhas em que D. João de Mascarenhas participara durante o período da Restauração.

Saímos depois para o terraço da Tarranquinha onde duas técnicas de restauro, alheadas de quem por ali passa, reavivam a beleza deste balcão dominado por azulejaria e pela estatuária, toda ela inspirada na mitologia da Antiguidade Clássica.

Num plano mais em baixo vemos Jardim de Vénus de onde um casal de turistas franceses nos pergunta o caminho para a capela, outra relíquia pela originalidade da sua decoração, feita de embrechados, ou seja, com pedaços de vidro, pedras, conchas.

A propósito disso corre a história de que, ao inaugurar o Palácio, D. João de Mascarenhas terá oferecido um banquete real a D. Pedro II. E obedecendo ao princípio de que o que fosse usado pelo rei não poderia ser tocado por mais ninguém, ordenou que todas loiças fossem partidas a seguir.

Os cacos dos serviços de Ming acabariam por se converter em decoração dos embrechados. Lenda ou realidade, a verdade é que é fácil depararmo-nos com restos variados de vidros quando menos se espera.

Mas voltamos para dentro de portas, passamos agora para a Sala dos Painéis, decorada com azulejos holandeses do século XVII; a seguir somos transportados para um registo diverso, ao espreitarmos a Sala de Juno ou Sala Íntima, com um ambiente mais aconchegante, a remeter para o quotidiano privado. E por fim a biblioteca, de uma luminosidade imensa, corrida a janelas a todo o comprimento, que se abrem para a parte central do chamado jardim formal. É para lá que a nossa ronda guiada continua.

De uma beleza impressionante, este jardim foi classificado entre os 250 mais belos do mundo no livro The Gardener’s Garden. Enquanto isso, a revista Condé Nast Traveler, na sua edição espanhola, colocou-o no grupo dos “dez mais”.

Acrescentado ao Palácio no século XVII, a inspiração veio dos seus congéneres italianos do século anterior. A geometria e a ordem, desenhadas para receber o Sol no seu esplendor dispõem fontes, estátuas de chumbo em pedestais de pedra, lagos e canteiros de buxos escrupulosamente desenhados e assim mantidos.

O espaço é ladeado por pequenos muros com painéis de azulejos. Neles estão representados os deuses/planetas conhecidos à época, os signos do zodíaco os meses do ano associados a atividades agrícolas e ainda os quatro elementos da natureza.

A propósito deles, desafia-se os mais observadores a identificar o painel do fogo. Porque o original se perdeu, a Fundação encomendou uma nova versão à pintora Paula Rego. Esta, respondeu ao pedido e criou para o espaço em falta uma fénix, deixada algures neste jardim.

Dirigimo-nos depois para o lago dos cavaleiros e subimos as escadarias laterais que nos conduzem à varanda onde se perfilam os bustos dos reis portugueses. Deste lugar elevado, no século XVII, o olhar com certeza dominava a floresta. Hoje, avistamos o Estádio do Benfica e uma robusta paisagem urbana crescendo em altura. Viramo-nos por isso para as cabeças reais até D. José I.

Daí abre-se caminho para o Jardim de Vénus, mais pequeno, de forma irregular, em tudo diferente daquele de onde viemos. Aqui impera a espontaneidade e a exuberância e há uma sensação imediata de resguardo, dada pela sombra das árvores e demais vegetação alta.

Mais afastado, descobrimos o tanque dos Ss à volta do qual existe outro incrível conjunto de painéis de azulejos, onde macacos e gatos personificam figuras humanas em episódios humorísticos. Por fim, ao fundo, discreta, surge a Casa do Fresco ou Casa da Água.

Também ela decorada com conchas e pedaços de vidro. Consistia num espaço de recato exclusivo das senhoras que aí se abrigavam do calor excessivo, preservando conversas sob ruído das fontes de água sempre a correr. Este é um domínio do feminino, até porque na sua fachada encontra-se o brasão da 1ª Marquesa de Fronteira.

Entretanto a noite vai caindo, o sossego instala-se. Os últimos turistas, sempre estrangeiros, acabam de sair. Nós também nos despedimos; agora é hora de os habitantes do Palácio se sentirem em casa.

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