É sem dúvida o dia mais importante da democracia portuguesa e marcou o início de uma nova era para Portugal. O dia 25 de abril de 1974 é uma data que ficará para sempre gravada nos livros de História e na memória daqueles que viveram a Revolução dos Cravos como o dia em que o regime ditatorial do Estado Novo terminou.

Apesar da importância do dia, há muitos detalhes e curiosidades sobre a Revolução de Abril que nem toda a gente conhece. Por isso, reunimos alguns dos momentos mais marcantes do dia em que Portugal voltou viver em liberdade.

1. Sabia que o regime do Estado Novo foi um dos mais longos regimes autoritários da Europa até à data?

António de Oliveira Salazar

Antes de chegarmos ao dia 25 de abril de 1974, convém entender que Portugal vivia em ditadura há 48 anos. O golpe militar de 28 de maio de 1926 instaurou no país uma ditadura militar que culminaria na eleição de Óscar Carmona para Presidente em 1928. Foi durante a presidência de Carmona, um período designado por “Ditadura Nacional”, que foi elaborada a Constituição de 1933 e instituído um novo regime autoritário de inspiração fascista: o Estado Novo.

António de Oliveira Salazar passou então a controlar o país através do partido único, designado por União Nacional, da implementação da censura e do controlo apertado da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). Salazar ficou no poder até 1968, ano em que sofreu uma queda de uma cadeira que o deixou com lesões cerebrais. Foi então substituído por Marcelo Caetano, que mostrou alguns sinais de abertura num período que ficou conhecido como Primavera Marcelista. Caetano dirigiu o país até ser deposto no golpe militar de 25 de abril.

2. Sabe o que originou o golpe militar?

Guerra colonial. Por Joaquim Coelho

Como qualquer ditadura, o Estado Novo trouxe muita repressão e censura, mas houve um fator que foi decisivo para o descontentamento generalizado da população: a guerra colonial. Para os portugueses a guerra para manter as colónias portuguesas em África parecia não ter fim. Os jovens eram forçados a partir para combate e muitos não regressavam.

Ainda em 1973 começaram a surgir as primeiras manifestações do povo contra a guerra, mas o governo de Marcelo Caetano reforçou o poder da PIDE e continuou a alimentar a guerra. Os militares uniram forças com o povo e planearam um golpe de estado. Foi assim que surgiu o Movimento das Forças Armadas (MFA), composto na sua grande maioria por capitães que tinham lutado na guerra colonial, com o objetivo de derrubar o Estado Novo.

3. Sabia que já tinha havido outra tentativa contra o regime?

O dia 25 de abril não tinha sido a primeira tentativa de golpe militar. Foi no dia 16 de março de 1974 que um grupo de militares abandonou o regimento das Caldas da Rainha em direção a Lisboa para derrubar o regime.

A meio do caminho juntar-se-iam outros regimentos, como o de Lamego, Mafra e Vendas Novas. No entanto, houve uma rebelião imprevista em Lamego que deixou assustados os militares que preferiram abortar a missão. O problema foi que os militares das Caldas da Rainha já se encontravam em Santarém e acabaram mesmo por ser detidos.

4. Sabe a importância da música “E Depois do Adeus”?

Às 22:55 do dia 24 de abril é transmitida a canção E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, pelos Emissores Associados de Lisboa. Esta era uma das senhas previamente combinadas pelo MFA que iria desencadear a tomada de posições da primeira fase do golpe de estado.

O segundo sinal foi dado quando passavam 20 minutos da meia noite com a canção Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, transmitida pelo programa Limite, da Rádio Renascença, confirmando assim o golpe e marcando o início das operações. Ao contrário de E Depois do Adeus, que era muito popular por ter vencido o Festival RTP da Canção desse ano, Grândola, Vila Morena tinha sido censurada, pois, segundo o regime, fazia alusão ao comunismo.

5. Sabe quem eram os líderes do Movimento das Forças Armadas (MFA)?

Salgueiro Maia. Por Alfredo Cunha

O MFA foi o movimento militar responsável pela Revolução de 25 de Abril de 1974. As tropas foram comandadas no terreno por diversos capitães, de entre os quais o que mais se destacou e é mais recordado e associado à revolução foi Salgueiro Maia, que comandou as tropas vindas da Escola Prática de Cavalaria de Santarém e tinha como missão ocupar o Terreiro do Paço. No quartel da Pontinha, as operações eram dirigidas pelo então major Otelo Saraiva de Carvalho.

A estratégia do MFA seria primeiro avançar sobre Lisboa e cercar os principais postos do Governo. Enquanto isso, outros movimentos controlavam também várias outras cidades pelo país. Os planos acabaram por ser alterados, com parte do movimento a ser desviado para o Largo do Carmo, onde Marcelo Caetano e alguns ministros se refugiaram.

6. Sabe porque é que o cravo é o símbolo da revolução de abril?

Por Henrique José Teixeira Matos

Existem várias histórias que explicam porque é que o cravo se tornou o símbolo da revolução. A verdade é que o cravo é a flor da época e por isso é normal que fossem abundantes e baratos. No entanto, a história mais difundida fala de Celeste Caeiro que trabalhava como empregada num restaurante próximo do Marquês de Pombal e levava para casa um molho de cravos vermelhos.

Os militares que encheram as ruas da capital pediam aos populares comida ou cigarros e Celeste só tinha os seus cravos para oferecer. Os militares acabaram por colocar os cravos no cano da espingarda. Outra teoria conta que terão sido as floristas no Rossio a iniciar o movimento, começando a distribuir aos soldados as flores como forma de agradecimento e celebração pela liberdade.

7. Sabia que uma fragata portuguesa recebeu ordens do Estado Novo para abrir fogo sobre o Terreiro do Paço?

A Revolução dos Cravos é conhecida por ter sido uma ação militar pacífica, mas também houve momentos de maior tensão. Com a queda do Estado Novo e o apoio dos militares, o Terreiro do Paço encheu-se de civis que festejavam o fim da ditadura. O que muita gente não sabe é que a fragata Almirante Gago Coutinho recebeu ordens do Estado-Maior da Armada para abrir fogo no local, disparando contra civis e militares.

A ordem não foi cumprida e chegou a haver processos de insubordinação contra aqueles que no dia 25 de abril de 1974 optaram por não disparar contra a população. O processo acabou por não avançar e foi arquivado.

8. Sabia que a nossa revolução também teve derramamento de sangue?

Apesar de se dizer que a revolução do 25 de abril se fez com cravos e sem derramamento de sangue, na realidade houve quatro mortos e vários feridos. Há quem diga que são os heróis esquecidos de abril porque ninguém fala deles. Já no final do dia 25 de abril, vários populares encontravam-se junto à sede da PIDE, em Lisboa, exigindo o seu fim.

Foi nesta altura que os agentes da PIDE dispararam contra a população sem discriminação. Fernando dos Reis, Fernando Gesteiro, João Arruda e José Barnetto foram as únicas vítimas mortais da revolução de abril. O mais novo tinha 18 anos e o mais velho 37.

9. Sabe como é que a população do interior teve acesso às notícias?

A ação central do dia 25 de abril de 1974 ocorreu essencialmente em Lisboa, onde estavam os locais estratégicos para derrubar o Estado Novo. Um dos principais objetivos do MFA era ocupar as sedes dos vários meios de comunicação, de forma a controlar o que era emitido sobre o golpe de Estado. Desta forma conseguiam manter a população informada sobre o futuro que pretendiam para o país agora livre da ditadura.

No entanto, na década de 70 a informação não se espalhava com facilidade. Assim, o MFA decidiu enviar representantes do movimento para vários pontos de Portugal para que todos soubessem o que estava a acontecer e quais eram as mudanças.

10. Sabe quando foram libertados os presos políticos?

Campo do Tarrafal. Por Gagum

Marcelo Caetano rendeu-se ainda no dia 25 de abril, no entanto foi só no dia seguinte que as forças militares conseguiram ocupar o Forte de Caxias, uma das prisões políticas que mais presos recebeu durante a ditadura. No dia 27, os presos políticos foram também libertados do Forte de Peniche, que foi uma das mais conhecidas prisões durante o Estado Novo. Foi também nesta prisão que houve a famosa fuga de vários presos, incluindo Álvaro Cunhal, em 1960.

Os líderes políticos da oposição no exílio voltaram ao país nos dias seguintes. A 30 de abril foi a vez de libertar os presos do Campo do Tarrafal, em Cabo Verde, uma prisão conhecida pelas condições desumanas, onde morreram 36 prisioneiros políticos.

Extra: Sabe quem foi o primeiro Presidente da República após o 25 de Abril?

António de Spínola. Por Keystone Press

Após a queda de Marcelo Caetano e do Estado Novo, o MFA entregou as principais funções de condução do Estado à Junta de Salvação Nacional, que era presidida por António de Spínola. Foi então escolhido pelos membros da Junta para exercer o cargo de Presidente da República. Spínola ocupou a Presidência da República de 15 de maio de 1974 até 30 de setembro de 1974, altura em que renunciou e foi substituído pelo general Costa Gomes.

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