Tradicional martelinho utilizado na festa de S. João. Por visualcortex

Santo António já se acabou,
O São Pedro está-se a acabar
São João, São João dá cá um balão para eu brincar

Assim reza a letra de uma das marinhas populares mais famosas de Portugal. São três os santos populares que se festejam durante o mês de junho de norte a sul do país. Se em Lisboa é Santo António quem mais ordena, na cidade invicta do Porto, S. João é rei e senhor. A tradição celebra o nascimento de São João Batista e a festa tem origem no solstício de verão, uma festa do fogo e do sol. Bailaricos, alho-porro, martelinhos, sardinhas e vinho são imperdíveis naquela que é a noite mais longa do ano para os tripeiros.

Embora São João não seja o santo padroeiro do Porto, é em sua homenagem que acontece a celebração mais importante do ano na cidade. As festividades católicas de 24 de junho celebram o nascimento de São João Batista, celebrações que remontam a festas pagãs, onde o povo celebrava o solstício de verão e a fertilidade e a abundância das colheitas.

Natural do Porto, São João nasceu no século IX, mas viveu grande parte da sua vida na vizinha Espanha, na região de Tuy, onde acabou por ser sepultado. Conta a tradição que, no século XII, a cabeça de S. João terá sido trazida para a cidade do Porto pela rainha, Dona Mafalda, para a Igreja de São Salvador da Gandra, e mais tarde transferida para a capela da “Santa Cabeça” da Igreja de Nossa Senhora da Consolação.

A maior festa da cidade do Porto, São João, é uma festividade pagã, como comprovam as celebrações com balões flutuantes, os martelos e alho-porro –que servem para afastar os maus olhados– e os tradicionais saltos à fogueira, hoje em dia proibidos por questões de segurança. Estas tradições estão historicamente ligadas ao calendário astronómico do dia de São João, o dia mais longo do ano, a vitória do sol em detrimento da noite e da lua.

Este culto do sol e do fogo aparece agora sob a forma de lançamento de balões de ar quente e do tradicional e mágico fogo de artifício combinado entre as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia –na outra margem do Douro– lançado na Ponte Luís I, considerado por muitos como um dos mais bonitos espectáculos de pirotecnia do mundo. As duas margens do rio Douro enchem-se de gente oriundo de todo o mundo para assistir a este espectáculo que tem início à meia-noite.

Acredita-se também que os primeiros raios de sol na manhã seguinte têm um efeito mágico nas águas –símbolo de pureza e de fertilidade– e que lhes conferem poderes extraordinários de purificação, regeneração e proteção, que acreditam curar alguns males e proteger o corpo, bem como aumentar a fertilidade. Já lá vão os tempos em que as jovens rebolavam nas orvalhadas em Cedofeita com o intuito de aumentarem a sua fertilidade.

Este é o motivo das festividades das noites de S. João terminarem já ao nascer do dia, para a grande maioria dos locais, com um banho nas praias da Foz e Matosinhos ou mesmo no rio Douro, para os mais aventureiros.

O simbolismo inerente à água encontra-se também em certas plantas como a alcachofra e o alho-porro. A alcachofra era –e ainda é para os mais antigos e tradicionais– queimada à meia-noite ao mesmo tempo que se recita o popular verso: “Em louvor de São João, para ver se o …(acrescenta-se o nome do rapaz desejado) me quer bem ou não”. Depois disso é colocada num vaso e na manhã seguinte no caso de ter reflorido, é sinal de que o pedido foi aceite e de que tem sérias probabilidades de terminar em casamento. A conotação fálica do alho-porro faz parte do jogo de sedução e provocação que faz com que até aos dias de hoje –apesar de cada vez mais estar a ser substituído pelos tradicionais martelos– milhares de pessoas se cruzem nas ruas da invicta e batam com eles em pessoas do sexo oposto.

A construção de cascatas sanjoaninas, uma espécie de presépio com as personagens dos santos que se celebram neste mês –S. António, S. João e S. Pedro– e que representam a vida de uma aldeia e de todas as suas profissões tradicionais, são outro dos pontos altos das festas de S. João. Estas começam a ser construídas no início do mês de junho e decoram montras de lojas, restaurantes, hotéis e até mesmo algumas casas particulares. A cascata mais famosa é a das Fontaínhas, um dos locais de passagem obrigatória na noite de S. João. A sua fama nasceu em 1869 quando um morador do bairro montou uma enorme cascata e decidiu oferecer um café a todos quantos ali passassem para a admirar. Para muitos, existe um certo paralelismo entre o presépio da noite de Natal, próximo do solstício de inverno, e as cascatas sanjoaninas, realizadas nas celebração do solstício de verão.

Depois da grande festa na noite de 23 de junho, a festa continua no dia seguinte com a tradicional regata dos barcos Rabelos conhecidos por transportarem as barricas do mundialmente famoso vinho do Porto para a Inglaterra durante séculos. A regata começa às 17h, partindo do Cabedelo, em Gaia, e termina na Ponte Luís I, em frente às caves Sandeman.

Por Diego Delso

A noite de São João festeja-se um pouco por toda a cidade e não há freguesia que não monte o seu arraial. Há concertos gratuitos em vários pontos da cidade por isso prepare-se para andar muitos quilómetros ao longo da noite. É obrigatório passar pela Ribeira, percorrer a marginal de Gaia, beber um cálice de vinho do Porto, comer sardinhas assadas com salada de pimentos num dos restaurantes típicos de Miragaia, passar pelo Lavadouro das Fontaínhas, comprar os manjericos, alho-porro ou martelinhos na praça da República e, se conseguir aguentar e não lhe faltar energia, termine a noite e comece o dia com um mergulho numa das praias da Foz.

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