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Por Alfama Encanta

Junho é um mês importante para os portugueses: começa o verão, os dias são maiores, as noites são mais quentes, e a alegria dos santos populares invade Portugal. Um pouco por todo o país, mas com especificidades próprias de cada região, as ruas são decoradas com flores, balões e luzes. A música popular preenche cada esquina, convidando para o bailarico até o maior pé de chumbo do mundo. Não falta o assador à porta de casa, emanando o cheiro das sardinhas assadas na brasa, com o caldo verde e o vinho tinto a acompanhar.

Não é preciso muito para montar o arraial. Basta alegria e boa disposição e uma ajudinha do São Pedro para que a chuva não arruine a festa. Há várias tradições associadas às celebrações do Santo António, São João e São Pedro, mas será que conhece a sua origem e o porquê de existirem? Deixamos-lhe aqui algumas das mais conhecidas tradições que fazem dos santos populares uma das maiores festas de Portugal.

1. Sardinha

sardinha

Por Yusuke Kawasaki

A sardinha assada na brasa é um prato tradicional da cozinha portuguesa que se pode comer todo o ano, mas ganha outro sabor durante os santos populares. Durante o mês de junho não pode faltar uma “sardinhada” em cada casa. A abundância deste peixe na costa portuguesa e a grande tradição piscatória explicam a forte presença da sardinha à mesa dos portugueses.

A melhor forma de confecionar as sardinhas é prepará-las de véspera e temperá-las com sal grosso, colocá-las num grelhador duplo por cima das brasas, sem chama, em lume brando, normalmente acompanhadas com pimento assado também na brasa e batata cozida. Dizem os especialistas na arte da sardinha que devem ser saboreadas em cima de uma fatia grossa de pão que absorve a sua gordura natural.

2. Manjerico

Manjericos

Por pedro_figi

Outra tradição que não pode faltar nos santos populares é o manjerico. Mas sabe porque é que o manjerico é a planta oficial desta época do ano? Também é conhecido como a “erva dos namorados” porque, de acordo com a tradição, os rapazes davam um pequeno vaso de barro com um manjerico às namoradas, por altura do Santo António, o Santo casamenteiro.

Naquela época, oferecer um manjerico significava um compromisso tão forte como um pedido de casamento. A namorada, ao receber o manjerico, devia tratar da planta durante um ano até o manjerico ser substituído no dia de Santo António do ano seguinte.

Esta planta é na verdade uma erva aromática que cresce na primavera e, por essa razão, por altura do Santo António, tem já o tamanho ideal para se tirar da terra e colocar em vasos. O que acontece é que o manjerico é uma planta muito sensível e necessita de grandes cuidados. Há muita gente que acredita até que não se pode cheirar diretamente o manjerico, mas quem domina a botânica diz que isso é um mito e que os manjericos duram pouco tempo de qualquer maneira.

3. Quadras populares

Hoje em dia, o vaso de manjerico não está completo se não tiver um cravo feito em papel e uma pequena bandeira com uma quadra popular quase sempre alusiva ao amor. Os jovens apaixonados pedem uma ajuda aos três Santos para encontrarem um amor para toda a vida, ou pelo menos para o festivo mês de junho.

O manjerico comprado
Não é melhor que o que dão.
Põe o manjerico ao lado
E dá-me o teu coração.

No dia de Santo António
Todos riem sem razão.
Em São João e São Pedro
Como é que todos rirão?

Manjerico que te deram,
Amor que te querem dar…
Recebeste o manjerico.
O amor fica a esperar.

Quadras ao Gosto Popular, Fernando Pessoa

4. Marchas populares

marchas populares que enchem de cor as ruas de todo o país, mas sem dúvidas que as mais conhecidas são as de Lisboa em honra de Santo António, o padroeiro da cidade. As marchas populares de Lisboa remontam a 1932, quando foram organizadas as primeiras marchas competitivas, sob orientação do cineasta Leitão de Barros.

Os santos populares já eram festejados nas ruas da cidade e havia a memória das “velhas marchas populares” de cada bairro, chamadas também de ranchadas. Naquela noite de 12 de junho de 1932, Alto do Pina, Campo de Ourique e Bairro Alto disputaram o primeiro concurso e o Parque Mayer foi pequeno para tanta gente.

Atualmente, todos os anos, na noite de Santo António, crianças, jovens e adultos vestidos a rigor, com os arcos na mão, a música e a coreografia na cabeça e o orgulho no seu bairro no coração, desfilam pela Avenida da Liberdade.

5. Casamentos de Santo António

Santo António é conhecido como o santo casamenteiro, por isso não poderia ser outro santo a apadrinhar o amor. Foi em 1958 que, pela primeira vez, 36 casais ficaram unidos pelo matrimónio na Igreja de Santo António. O objetivo da iniciativa, então patrocinada pelo Diário Popular, era possibilitar o casamento a casais com maiores dificuldades financeiras.

Depois de 16 anos de concorridas edições, a tradição foi interrompida em 1974. Trinta anos depois, a Câmara Municipal de Lisboa recuperou os casamentos de Santo António com o mesmo propósito de proporcionar a 16 casais um dia de sonho e memorável.

6. Balões de São João

Na noite de 23 de junho, os céus do Porto enchem-se de luz e cor por causa do lançamento de balões de ar quente. Esta tradição está inserida numa prática de culto pagão ao sol e à luz. Para além do simbolismo associado, tem a beleza de ser um ato de grupo, em que todos contribuem entusiasticamente para acender o balão de São João e depois contemplam-no juntos enquanto ele sobe e se torna um pontinho luminoso no céu.

Nos últimos anos, as autoridades introduziram limitações à venda de balões, de modo a evitar incêndios. A tradição de lançar balões foi restringida, uma vez que a queda de balões chegou mesmo a causar alguns incêndios.

7. Alho-porro e martelo de plástico

Martelo São João

Por visualcortex

Não há São João sem que nos batam com alho-porro ou um martelo de plástico na cabeça. Mas de onde vem esta tradição um pouco provocatória? Em meados do século XIX, havia três festividades distintas no São João do Porto (na Lapa, em Cedofeita e no Bonfim). As pessoas moviam-se entre as diferentes festividades em grandes rusgas, e iam apanhando alho-porro selvagem pelo caminho e levavam-no para casa. De seguida, colocavam-no atrás da porta da rua, para proteger a sua casa contra os maus espíritos durante todo o ano seguinte.

Para além disso, o alho-porro era também usado pelos rapazes como forma de estabelecer contacto com as raparigas com quem se cruzavam durante as rusgas. Mais recentemente, o alho-porro foi destronado pelos populares martelos de plástico, que servem para bater na cabeças das pessoas.

Os martelos são bastante coloridos e fazem um barulho estridente quando se bate com eles, para além de muitos deles possuírem um assobio na extremidade. Ou seja, representam o “acordar” da cidade e das pessoas para as alegrias do verão, depois de um inverno escuro e tristonho.

8. Fogueiras

A tradição das fogueiras de São João também faz parte da tradição pagã e está relacionada com o ancestral culto do sol, em que o fogo simboliza o poder purificador e fertilizante. O saltar da fogueira está estreitamente ligado à saúde, ao acasalamento e à fecundação. Nestas festas, a tradição manda saltar a fogueira de mãos dadas com o namorado ou namorada.

9. Cascata de São João

As cascatas são uma das principais atrações do São João no Porto e uma das tradições mais antigas da cidade. As cascatas sanjoaninas são um ponto de passagem obrigatória nos festejos, pois contam histórias e segredos da cidade Invicta. Segundo o historiador Hélder Pacheco, as primeiras cascatas apareceram no século XIX e eram uma espécie de presépio de Natal, mas com os santos populares em vez da sagrada família e os reis magos.

Dois séculos depois, a tradição mantém-se, embora existam menos cascatas hoje em dia. Para além das imagens de São João, São Pedro e Santo António, há de tudo um pouco na cascata: a Sé, a Torre dos Clérigos, o rio Douro com as tradicionais pontes e barcos rabelos, os pescadores, os peixes e até as conchas. Cada cascata é diferente e cada uma delas conta uma história única que une a tradição à criatividade.

10. Fogo-de-artifício

O fogo-de-artifício é um dos pontos altos dos santos populares, esperado ansiosamente por todos. Em todos os lugares onde se festejam os santos populares há fogo-de-artifício, mas gostávamos de destacar o espetáculo pirotécnico lançado desde a Ponte Luiz I e de várias plataformas no rio Douro que enchem os céus do Porto na noite de São João. Assistir aos cerca de 20 minutos de fogo-de-artifício da Ribeira do Porto é sem dúvida um acontecimento memorável.

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