Silves

Por Pawel Kazmierczak

Se o arenito vermelho e os laranjais são os tons de Silves, o Arade fez dela um posto disputado e vincou-lhe a história.

Com a Serra de Monchique ao fundo, de terras férteis e um rio navegável até ao mar, muitas foram muitas as gentes que aqui se instalaram. Assim aconteceu com os romanos, interessados no comércio do sal, azeite, vinhos, frutos secos e na exploração do cobre. Seguiram-se-lhes os visigodos. Mas o auge de Silves será sob influência muçulmana (do século VIII ao século XIII). Transformada em capital política de um dos reinos Taifa, ganha a força de um próspero polo comercial. Assume-se também como importante núcleo cultural, atraindo poetas, pensadores e estudiosos de diferentes saberes.

Com a Reconquista Cristã, em 1189 é tomada por Sancho I. Contudo, dois anos depois é recuperada pelos mouros da terra. Apenas em 1242 Afonso III avança de novo e a conquista é definitiva. Apesar desta mudança de poderes, a cidade mantém o seu poderio, agora como capital da região mais a sul do Reino de Portugal, mas também na qualidade de sede do episcopado da região. Daí a construção da Sé Catedral, no mesmo lugar onde antes existia a Mesquita.

No Século XV a população é envolvida no movimento dos Descobrimentos que muito passa por aquela zona do Algarve, dirigido pelo Infante D. Henrique. Com a entrada no século XVI o seu poderio começa a esbater-se. O Rio Arade, que outrora lhe trouxera vida, povos do Mediterrâneo e comércio perde vitalidade por causa do seu assoreamento. Mais adiante, em 1577 o Bispo muda-se para Faro. E deslocação do poder religioso, por arrasto o poder económico também o seguir, desfalcando-se o poderio da cidade.

Silves

Por mkos83

É no século XIX, com a instalação do caminho de ferro e a revolução industrial, que Silves volta a animar-se. Agora é uma a riqueza de seu nome cortiça que servirá para dinamizar a indústria e como produto-chave nas trocas comerciais. Com este movimento surge uma nova burguesia que aqui se estabelece em casas opulentas que ainda hoje se podem encontrar pela cidade.

Atualmente a povoação é um reduto tranquilo, situado entre Monchique, a serra que se reergue depois dos incêndios do verão passado, e um litoral trepidante e turístico. A herança árabe continua entranhada na vida das ruelas íngremes que levam ao castelo. Repare-se nas portas da cidade, uma magnífica torre albarrã, coroada por um ninho de cegonha. É por ela que se acede à chamada antiga Rua Direita, hoje conhecida como Rua da Sé, e que nos conduz ao coração religioso e militar da Silves de outrora. Ao longo deste trajeto, como pedras deixadas para seguirmos o trilho certo, vamos encontrando imagens de descobertas arqueológicas, reveladoras do quotidiano dos povo que fomentaram a sua história.

A Sé Catedral surge por fim à direita, feita no grés de tom forte, seguindo um estilo gótico que, com o passar das épocas, foi cruzado com outras tendências arquitetónicas. Exemplo disso mesmo é a entrada deste templo, em estilo rococó, de finais do século XVIII, chamada Porta do Sol. No interior pode-se ver o túmulo de D. João II, falecido em Alvor, aqui sepultado temporariamente.

De frente para a Sé descobrimos uma porta ao estilo manuelino, da Igreja da Misericórdia, erguida em meados do século XVI. Esta tinha a finalidade de servir a Santa Casa da Misericórdia, fundada na altura (1498) por D. Leonor, casada com D. João II.

Silves

Por aniad

Continuando a subir a mesma rua, já se avista bem perto o castelo. À entrada recebe-nos a estátua de Sancho I, recordando o primeiro momento da conquista aos mouros por este rei. Olhamos para o imponente edifício militar, erguido estrategicamente no ponto mais alto desta colina. A sua construção acontece no período almóada do poderio muçulmano, entre os séculos XII e XIII. Os tons de vermelho forte dão à construção um aspeto aguerrido. A entrada faz-se por uma porta dupla formada por um átrio. Onze torres compõem o castelo, desenhado com a forma de um polígono. Percorrer o caminho da ronda é a melhor forma de o conhecer a partir de uma vista superior: ao longo dos seus 388 metros sobem-se e descem-se degraus, espreita-se por ameias e outras aberturas menores e percebe-se o que a vista dos guerreiros alcançava pelas terras fronteiriças. Diz quem sabe que na parte da muralha virada a norte se descobre um outro acesso ao castelo, discreto, chamado de Porta da Traição.

A importância da água sente-se nos vestígios encontrados no interior do castelo. Na parte interior mais a nascente, encontra-se o Aljibe, uma grande cisterna a partir da qual se fazia chegar água à população. Tem a forma retangular, mede 16 metros de largura por 20 de comprimento e é fechada por quatro abóbadas de canhão. Existe ainda existe um poço bastante profundo, com mais de 40 metros, apelidado de Cisterna dos Cães.

Os trabalhos arqueológicos no castelo têm posto a descoberto mais testemunhos, partilhados no Museu Municipal de Arqueologia. De resto, a visita a este outro espaço, o Museu, classificado como monumento nacional, tem uma história curiosa:

– Foi construído à volta de uma cisterna, também ela descoberta no seguimento de escavações arqueológicas. Este reservatório de água obedece a princípios arquitetónicos árabes, do período Almóada, ou seja, dos séculos XII-XIII. Para além do bom estado de conservação, o mais interessante é poder descer ao longo dos seus 20 metros de profundidade, graças a uma escada ao seu redor, acompanhada por três janelas para melhor se chegar ao nível da água.

O Museu Arqueológico apresenta ainda oito núcleos de peças, do Paleolítico até ao século XVII, prova da importância deste pedaço de terra vermelha junto ao rio, marcada por gentes e culturas diferentes. A muçulmana reserva um espaço maior. Para melhor a compreender importa procurar o Centro de Interpretação do Património Islâmico e a Casa da Cultura Islâmica e Mediterrânica.

Silves

Por Pawel Kazmierczak

O primeiro, a funcionar no Centro de Turismo, dá atenção a três áreas chave da cultura islâmica: a terra e as suas técnicas de construção; a água explorada com sabedoria nas culturas agrícolas e na construção de cisternas e azenhas. E por fim a poesia, associada ao rei e poeta Al-Mutamid e ainda a outro poeta, Ibn Ammâr. Por essa mesma razão Silves integra a chamada Rota Al-Mutamid. Esta estende-se de Aljezur até Córdoba e quer dar a conhecer o património e cultura muçulmanos, partilhados nesta área geográfica. Daí integrar, para além de Silves, monumentos de Sagres, Aljezur, Paderne ou Tavira.

Mas para além do património trazido pela sua história, Silves vive no tempo de hoje; basta que se desça para perto do sopé da sua colina para se encontrar o emaranhado de cafés e restaurantes chamando os turistas, por entre as grandes casas da burguesia da cortiça já desaparecida, algumas em recuperação outras povoadas por cegonhas, na tranquilidade dos lugares esquecidos.

Por fim, vale a pena descer mesmo até junto às margens do Arade e terminar a visita na secular ponte de 5 arcos, pensando num passeio de barco rio abaixo.

Casas de campo em Silves

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