Por emerald_media

Quando Joana Travessas se viu obrigada a encerrar inesperadamente o seu alojamento rural devido à crise da Covid-19 não conseguiu ficar indiferente à situação que Portugal e o mundo atravessam. De repente, o seu lema “we have, we help” (nós temos, nós ajudamos) nunca lhe pareceu tão apropriado. Depois de tomar todas as medidas para salvaguardar os seus colaboradores, quer ao nível da saúde quer economicamente, o passo seguinte foi disponibilizar gratuitamente os quatro alojamentos que tem na quinta para os profissionais de saúde que estão a lutar contra o coronavírus.

“Já sabíamos das plataformas para os hoteleiros se inscreverem e poderem disponibilizar os seus alojamentos, mas o turismo rural não estava ainda certificado pela Associação dos Hoteleiros de Portugal (AHP) para o efeito, pelo que ficámos de fora desta possibilidade de ajudar”, contou Joana. Contudo, a iniciativa Rooms Against Covid veio tentar suprir essa falta de alojamento gratuito para os profissionais de saúde fora dos grandes centros urbanos e a Casa das Palmeiras também já figura entre os alojamentos disponíveis na região de Viseu.

A plataforma Rooms Against Covid surgiu dentro do movimento #Tech4Covid19, criado por um grupo de fundadores da comunidade tecnológica portuguesa para combater a Covid-19 através do desenvolvimento de soluções tecnológicas que permitam ultrapassar os desafios lançados pela pandemia. O Rooms Against Covid nasceu assim com o objetivo de dar resposta à necessidade de realojar profissionais que estivessem na linha da frente e sob forte risco de contágio dos seus agregados familiares ou que tivessem sido realocados para outras cidades onde fossem mais necessários.

Uma pausa no turismo para ajudar

Casa das Palmeiras

O estado de emergência nacional levou a que inúmeras reservas de alojamentos tenham sido canceladas ou adiadas e que espaços de hotelaria e alojamentos locais estejam agora vazios. “Ora, se há espaços vazios e pessoas que precisam de se ausentar das suas residências habituais, a onda de solidariedade que nasce e que disponibiliza gratuitamente a estes profissionais um realojamento temporário e gratuito foi gigantesca”, explica Zita Bacelar Moura, uma das responsáveis do projeto Rooms Against Covid.

Neste momento, pouco mais de um mês depois da criação da iniciativa, já estão inscritos na plataforma mais de 3500 alojamentos, dos quais quase 700 são acessíveis através do próprio site. Relativamente aos restantes alojamentos, há um cruzamento manual entre os dados do proprietário e do profissional de saúde. De acordo com Zita, já foram realojados em segurança mais de 560 profissionais.

As cidades onde há uma maior procura de alojamentos através do site Rooms Against Covid são Porto e Lisboa, que são também as áreas onde há mais oferta. “Mas estamos com algumas dificuldades em encontrar alojamentos em Braga, Castelo Branco e Viseu”, esclarece Zita Bacelar Moura.

Até ao momento, a Casa das Palmeiras ainda não recebeu nenhum profissional de saúde, mas Joana Travessas garante estar preparada para quando isso acontecer. “Chegada a hora de recebermos um profissional no nosso alojamento, iremos cumprir com as recomendações que a Rooms Against Covid apresenta: retirar todas as roupas de cama e atoalhados de casa, já que o hóspede trará os seus, e dentro do possível remover também tapetes e cortinados, porque são superfícies onde o vírus pode permanecer durante algum tempo”, explica Joana.

De acordo com as recomendações da Direção-Geral da Saúde (DGS), os alojamentos não podem receber mais do que um profissional, nem ter espaços comuns partilhados com outros hóspedes. A DGS recomenda a desinfecção frequente de pontos de uso habitual, como maçanetas, torneiras e interruptores, e que se leve diariamente o lixo para a rua. Tanto o check-in como o check-out devem ser combinados entre as partes de forma a reduzir o contacto pessoal e as chaves da casa devem ser desinfectadas.

Após a saída do profissional, a casa é deixada vazia durante um período de três dias. Posteriormente, uma equipa de limpeza, em coordenação com a Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), procede à limpeza e desinfeção profunda do espaço, para a deixar preparada e segura para outro profissional que precise de recorrer àquele alojamento.

Alojamentos rurais unem-se ao combate à Covid-19

Por DorSteffen

Apesar de não estar inscrito na plataforma Room Against Covid, Fernando Carrilha, proprietário do alojamento Moinhos do Pisão, disponibilizou as suas cinco casas ao Hospital de Viseu para alojar profissionais de saúde que necessitem. Embora esteja a viver este momento com grande expectativa em relação ao futuro do turismo, Fernando garante que tem ocupado todo o seu tempo e mente em ações de combate à Covid-19.

O proprietário que já em 2017, ano de grandes incêndios em Portugal, disponibilizou as suas casas para acolher pessoas que ficaram desalojadas, está também a produzir equipamento e peças de vestuário de proteção para oferecer aos lares de idosos, bombeiros e hospitais e também à população em geral.

No concelho de Montalegre, também a empresa de turismo rural e atividade turística Belas Vistas de Montalegre colocou à disposição da Câmara Municipal e da Proteção Civil de forma gratuita a Casa de Penedones e as outras casas da sua rede para os profissionais da linha da frente. “A região de Barroso é composta por uma população maioritariamente idosa e isso implica uma maior responsabilidade social por parte dos agentes de turismo da região”, esclarece Sofia Dias, diretora geral do alojamento.

Até ao momento, ainda não receberam nenhum profissional de saúde ou cidadão que necessite de isolamento ou distanciamento social, mas Sofia afirma que “tem surgido um anormal número de pessoas a solicitar estadia” nas suas casas com o objetivo de se afastarem das zonas mais afetadas pela Covid-19. Contudo, a empresa decidiu recusar essas solicitações por considerar que “seria imprudente e irresponsável receber pessoas vindas de locais fortemente afetados”, pondo assim em risco a população local.

Na Quinta de Silvares, em São Cosmado, Armamar, apesar de o alojamento não receber turistas neste momento, o trabalho segue na parte da exploração agrícola. Alberto Madureira também já disponibilizou a casa para os profissionais de saúde da zona, mas até à data ainda não recebeu ninguém. No entanto, o proprietário da quinta agrícola vai contribuindo com o cultivo de produtos biológicos essenciais. “O nosso trabalho marca a diferença na luta contra uma alimentação pobre cheia de pesticidas que em nada ajuda o nosso sistema imunitário”, acrescenta Alberto.

Quer seja disponibilizando gratuitamente alojamento para os profissionais de saúde, na produção de equipamento de proteção individual, na produção agrícola ou simplesmente cumprindo as normas de confinamento e distanciamento social, é visível uma união e solidariedade perante esta pandemia que afeta a todos.

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