Magazine Cultura Torre de Centum Cellas, o lugar mais enigmático de Belmonte

Torre de Centum Cellas, o lugar mais enigmático de Belmonte

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Torre de Centum Cellas
Torre de Centum Cellas. Fonte: Câmara Municipal de Belmonte

Na aldeia de Colmeal da Torre, no concelho de Belmonte, existe um lugar único, que atrai visitantes de todo o mundo, não só pela sua beleza, mas essencialmente pela sua história misteriosa e enigmática. Com 12 metros e construída no século I, a Torre de Centum Cellas carrega séculos de lendas, mitos e estórias que atravessaram gerações, mas, até hoje, a funcionalidade deste local continua a ser um mistério.

Ao longo dos anos, as inúmeras lendas que povoam o imaginário da população da região também contribuíram para perpetuar o mistério que envolve a Torre de Centum Cellas. Em entrevista à Escapada Rural, Elisabete Robalo, arqueóloga da Câmara Municipal de Belmonte, dá alguns exemplos dessas lendas: conta-se que o Papa São Cornélio esteve preso nesta torre (devido ao topónimo Cellas que remete para prisão), que à porta da Torre está escondido um bezerro de ouro, que quem construiu o edifício foi uma mulher com o filho às costas, que a sua sombra galgava montes.

Contudo, para a arqueóloga, mais importante do que as lendas, são as diversas teorias relativas à funcionalidade da Torre de Centum Cellas. Em 1874, o historiador Pinho Leal atribuiu à Torre funções de atalaia, acreditando que teria sido edificada por D. Dinis, mas que originalmente seria de fundação romana. Pinho Leal acreditava que teria existido uma pequena povoação ao seu redor.

Elisabete Robalo considera que é muito provável que, durante a época medieval, a torre tenha sido utilizada como atalaia, possivelmente na mesma altura em que foi construída a Igreja, dedicada a São Cornélio, da qual também se encontram vestígios no local. “De facto, as escavações realizadas no local vieram demonstrar que a torre não era um elemento isolado, tendo vestígios ao redor, alguns já destruídos com a construção da estrada”, conclui a arqueóloga.

Torre de Centum Cellas
Torre de Centum Cellas. Fonte: Câmara Municipal de Belmonte

Em 1928, o arqueólogo Virgílio Correia refere que o local teria sido um santuário. Para o General João de Almeida, em 1945, esta teria sido a Torre onde foi encerrado o Papa São Cornélio, tal como acreditava o povo, daí também ser conhecida como Torre de São Cornélio

Já em 1962, o arqueólogo Adriano Vasco Rodrigues acreditava que poderia ser um praetorium (acampamento romano) localizado junto à via romana. Para Elisabete Robalo, esta explicação faz sentido, uma vez que “Centum Cellas localizava-se perto da via romana que ligava Mérida a Braga, e foram identificados marcos miliários nas proximidades”.

Em 1964, Aurélio Ricardo Belo escavou no local pela primeira vez e observou que a Torre não seria um edifício isolado. Para o arqueólogo, o local teria sido uma mansio, uma espécie de estalagem, do século I ao V. Anos mais tarde, em 1990, Vasco Mantas também defendeu a tese de que teria sido uma mansio.

Torre de Centum Cellas
Torre de Centum Cellas. Por Lrocha

Ainda em 1984, o arquiteto Calais encontrou paralelos entre a Torre e construções egípcias e gregas, referindo que se tratava de um templo.

Já em 1988, o historiador e arqueólogo Jorge Alarcão acreditava que se tratava de uma villa romana. Esta ideia foi também sustentada por Helena Frade, que entre 1993 e 1994 escavou no local e que refere que a Torre seria o núcleo central da casa de um proprietário abastado, ao redor do qual se encontravam outras estruturas de apoio à villa. A villa teria existido do século I ao III, altura em que sofreu um incêndio. O proprietário seria Lucius Caecilius, segundo inscrição encontrada no local e dedicar-se-ia à exploração mineira.

Mais recentemente, em 2007, o professor e investigador Amílcar Guerra defendeu que o local seria possivelmente um fórum – a Torre teria sido um templo – da cidade ainda não identificada de Lancia Oppidana.

Centro Interpretativo promete ser uma viagem pela história

Torre de Centum Cellas
Torre de Centum Cellas. Fonte: Câmara Municipal de Belmonte

Monumento Nacional desde 1927, a Torre de Centum Cellas tem sido um verdadeiro quebra-cabeças para historiadores, investigadores, arqueólogos e curiosos, o que lhe acrescenta uma aura de mistério. 

Mas, independentemente da sua função no passado, o mais importante é preservar este património e é por isso que a Câmara Municipal de Belmonte vai avançar com a construção de um Centro Interpretativo na zona. 

De acordo com Elisabete Robalo, o Centro Interpretativo deverá ficar concluído em 2022. Aqui, os visitantes poderão encontrar “a análise das diversas teorias, a funcionalidade das estruturas presentes no local e materiais arqueológicos recolhidos no local”, explica a arqueóloga.

Elisabete Robalo contou ainda que “vão ser realizadas mais escavações no local e o restauro da Torre e estruturas anexas”. As obras de requalificação da Torre incluirão o reforço de pedras e uma melhor iluminação.

Atualmente, poderá visitar uma exposição com o espólio arqueológico recolhido em Centum Cellas na Casa da Torre, em Caria, onde funciona o Centro de Estudos Arqueológicos.

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