Por Africa Studio

Portugal é um país de tradições e costumes bem enraizados na cultura do país. A época natalícia não é exceção e há inúmeros rituais que se mantêm bem vivos ano após ano. Há tradições que se repetem de norte a sul do país, como o presépio, a árvore enfeitada, o pai Natal, a troca de prendas à meia noite, o bacalhau na ceia de Natal.

Mas há também tradições típicas de determinadas regiões de Portugal e que apenas aí se podem vivenciar. Viaje connosco pelo país imbuído no espírito natalício e fique a conhecer as tradições mais curiosas e peculiares do Natal em Portugal.

Caretos de Varge

Caretos de Varge. Por Alfredo Miguel Romero

Os Caretos de Varge fazem parte da Festa dos Rapazes que celebra o solstício de inverno e é uma experiência quase espiritual. Homens mascarados, denominados caretos, espalham a desordem absoluta na aldeia de Varge, em Trás-os-Montes, chocalhando as mulheres, simbolizando esse ato o regresso à terra fecunda. De 24 a 26 de dezembro, os jovens oriundos da aldeia regressam a casa para participar nesta festa e manter viva a tradição.

No dia 24 de dezembro, organiza-se uma reunião dos rapazes solteiros onde se prepara em segredo o que irá suceder. O dia 25 de dezembro, após a missa de Natal, os rapazes aparecem vestidos de Caretos, saltando, gritando e rindo ao som dos seus chocalhos e de um gaiteiro acompanhado por bombo e caixa. O feno é atirado ao povo, as raparigas são “achocalhadas”, a água das fontes é espalhada e os animais são provocados. Outra das tradições é o “cantar das loas”, onde se critica ou ridiculariza acontecimentos e condutas de pessoas na aldeia durante o ano.

Bananeiro, Braga

Braga. Por Joseolgon

Na cidade de Braga não há Natal sem Bananeiro. Uma das tradições preferidas dos bracarenses começou há cerca de 40 anos atrás quando os comerciantes da Rua do Souto se decidiram reunir à porta da Casa das Bananas, ao final da tarde do dia 24 de dezembro, com o objetivo de desejar “boas festas” a conhecidos e desconhecidos, acompanhados de um cálice de vinho moscatel e uma banana.

O hábito de “comer uma banana e beber um banano” passou de um momento de convívio de um grupo restrito de amigos e clientes e tornou-se um ponto de encontro de todos os bracarenses na véspera do dia de Natal. Hoje em dia, nas tardes do dia 24 de dezembro a rua é invadida por milhares de pessoas para cumprir com o ritual.

Ceia de Natal ou Consoada

Por yanlev

É quase inevitável o bacalhau cozido com batatas e couves não estar presente na mesa da ceia de Natal dos portugueses. Contudo, há regiões do país onde o tradicional prato é substituído por outras iguarias. Por exemplo, no Algarve, o galo de cabidela é uma alternativa ao bacalhau bastante apreciada. Na Beira Litoral, o polvo cozido serve-se na mesa de algumas famílias. Na zona de Lisboa e Vale do Tejo come-se peru assado na consoada. Em Trás-os Montes e Alto Douro, também há polvo e em algumas casas come-se pescada frita ou congo frito.

Nos Açores, para além do tradicional bacalhau com todos, também há canja de galinha. Há ainda quem coma torresmos com inhames e morcela com batata doce, especialmente na ilha de São Jorge. Já na Madeira, pode encontrar à mesa da consoada as espetadas típicas da ilha.

Madeiro de Natal

Madeiro de Penamacor. Por Elisa Santos

No interior do país, o Natal é marcado pela cerimónia da queima do Madeiro, durante a noite do dia 24 de dezembro. Esta tradição realiza-se sobretudo na área que vai de Trás-os-Montes até ao Alto Alentejo, abrangendo localidades dos distritos de Bragança, Guarda, Castelo Branco e Portalegre.

O Madeiro consiste numa grande fogueira que é feita normalmente no adro da igreja, onde a população se reúne depois da Missa do Galo. A fogueira chega a atingir a altura da igreja, ardendo toda a noite até que se apague. A queima é antecedida pelo ritual da apanha da madeira e do seu transporte até à localidade, realizando-se de forma diferente consoante a região. É em Penamacor que se acende o maior madeiro de Natal de Portugal que se alia a diversas atividades natalícias.

“O Menino mija”, Açores

Ponta Delgada, Açores. Por El Coleccionista de Instantes Fotografía & Video

Uma tradição que se tem mantido nos Açores é “O Menino mija”, constituindo um símbolo do património etnográfico do arquipélago. Entre o dia 24 de dezembro e o Dia de Reis (6 de Janeiro), vários grupos de homens e mulheres andam de casa em casa visitando familiares e amigos e degustando doces e licores tradicionais, que estão sempre expostos por esta altura nas mesas. Antes de entrarem, é quase obrigatório fazer a típica questão: “O Menino mija?”.

Esta tradição açoriana levou à criação de um licor com o mesmo nome, da autoria da fábrica de licores de Eduardo Ferreira. O licor pode ser encontrado nas diversas superfícies comerciais ou online, mas apresse-se, porque na época festiva este licor esgota rapidamente.

Magusto da Velha, Aldeia Viçosa

Madeiro de Natal em Aldeia Viçosa. Por Alexa Pinto

Novembro já lá vai, mas há um São Martinho tardio em Aldeia Viçosa, na Guarda. No dia 26 de dezembro celebra-se o Magusto da Velha. A tradição remete para a história de uma velha senhora muito rica que quis deixar uma renda perpétua à Junta de Freguesia. A quantia seria para oferecer aos pobres uma boa dose de castanhas e de vinho. Como contrapartida, a velha – o nome próprio da senhora é desconhecido – pediu que toda a gente rezasse, por altura do Natal, um Pai Nosso à sua alma.

No dia 26 de dezembro, chovem cerca de 150 quilos de castanhas da torre da igreja, enquanto os sinos tocam sem parar. Para além de rezar pela alma da velha, a população presente preocupa-se em encher os bolsos de castanhas que são depois assadas nas brasas do Madeiro de Natal que normalmente ainda aquece quem assiste. A acompanhar, é distribuído vinho tinto que serve também para brindar à velha.

Caretos de Ousilhão

Caretos. Por raquel

Na aldeia transmontana de Ousilhão, no concelho de Vinhais, também se celebra a festa dos rapazes em honra de Santo Estevão no dias 24, 25 e 26 de dezembro. A festa inclui a presença dos Caretos que animam com as suas tropelias, travessuras e o achocalhar, andando pela aldeia a gerar o caos entre a população após as missas e fazendo as suas tradicionais rondas em busca de oferendas de enchidos.

Os Caretos mantêm assim o seu papel de figura diabólica que liberta todas as energias contidas e anuncia um novo ano. Os habitantes da aldeia preparam as suas casas com uma mesa bem recheada de comida e de bebida para receber os moços da aldeia que representam os “bons visitantes” e os Caretos que representam os “maus visitantes”.

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