Ruínas de Alares

Ruínas de Alares. Por Paula Abreu

Da Guerra dos Montes ou Guerra dos Alares não rezam os livros de História. Mas quem passa pelas ruínas da antiga aldeia dos Alares, que emergem no meio da terra xistosa e seca na zona do Tejo Internacional, no concelho de Idanha-a-Nova, perguntar-se-á que estórias contarão aquelas pedras silenciosas, vestígios de um passado longínquo.

A aldeia dos Alares, tal como as aldeias de Cobeira e Cegonhas (Velhas), tiveram origem no início de 1800, pela mão dos povos de Malpica do Tejo e de Monforte da Beira, como nos conta Mário Lobato Chambino, licenciado em História pela Universidade Aberta e membro da Associação de Estudos do Alto Tejo, na sua monografia “Rosmaninhal, lembranças de um mundo cheio”.

A origem destas três aldeias remete-nos até às Invasões Francesas, mais precisamente à segunda, que passou por esta região. Saindo de Alcântara, em Espanha, Junot, à frente de um exército exausto e descalço, enviou as suas tropas por vários percursos, um deles seguindo de Segura até Castelo Branco.

Com medo dos franceses, a população fugiu para os campos, sobretudo mulheres e crianças. Aquartelados em Castelo Branco, as tropas desmoralizadas e indisciplinadas aterrorizavam as terras em volta, pilhavam e roubavam, invadiam igrejas e chocavam a população.

Ruínas de Alares

Ruínas de Alares. Por Paula Abreu

Terá sido neste contexto que gente fugida de Malpica do Tejo e Monforte da Beira começou a cultivar, às escondidas, a região fértil e inculta compreendida entre o rio Aravil e o rio Tejo, já no limiar do Rosmaninhal, obtendo boas e proveitosas culturas.

Era um esconderijo perfeito – ainda hoje os caminhos são difíceis e é surpreendente haver tantas casas ali. Em poucos anos criou-se um povoado, todos eram iguais, o trabalho era duro mas rendia e, acima de tudo, não tinham que pagar nada pela utilização das terras.

Ruínas de Alares

Ruínas de Alares. Por Paula Abreu

Os habitantes destes montes – chamados de Monteses – viviam em casas baixas construídas em xisto, com poucas janelas, sendo a porta de entrada a principal fonte de luz natural. Por dentro era habitual o uso do barro e das prateleiras de xisto para fazer armários, ainda hoje visíveis.

Por volta de 1865, foi acolhido pelo povo da Cobeira um foragido político, o Visconde Morão, que apercebendo-se da inexistência de qualquer título de registo de propriedade ou aluguer da terra por parte daquela gente simples, declarou-se dono de toda aquela vasta área, englobando as três aldeias numa propriedade única. Os habitantes aceitaram a situação sem qualquer protesto ou desafio e começaram a pagar o foro anual ao Visconde.

Uma disputa pela terra de ninguém

Ruínas de Alares

Ruínas de Alares. Por Paula Abreu

Quando o Visconde faleceu, os terrenos passaram para o seu filho José Guilherme Morão. Os problemas surgiram apenas em 1920 quando José Morão morreu e os seus herdeiros comunicaram imediatamente à população de Alares, Cobeira e Cegonhas para abandonarem os seus terrenos, casas e pertences. O povo decidiu recorrer à justiça do Governador Civil de Castelo Branco, que os aconselhou a permanecer nas aldeias até se comprovar a propriedade, à altura tida como duvidosa.

Sem se entenderem entre si e receosos da descoberta da sua ilegítima apropriação, os herdeiros decidiram vender os terrenos. A 6 de outubro de 1923, a família Morão vendeu através de escritura todas as terras habitadas pela população de Alares, Cegonhas e Cobeira a 605 habitantes do Rosmaninhal.

Foi esta escritura que lançou o povo do Rosmaninhal contra os três povos, numa luta de cerca de 3 mil habitantes do Rosmaninhal contra cerca de 1200 habitantes repartidos por três povoações distantes umas das outras, o que lhes dificultou a vida na hora de se defenderem.

Ruínas de Alares

Ruínas de Alares. Por Paula Abreu

A 7 de outubro de 1923, os habitantes do Rosmaninhal invadiram a aldeia dos Alares, devastaram os campos, queimaram celeiros, destruíram as alfaias e os arados. Seguiram-se as aldeias de Cegonhas (Velhas) e Cobeira e ao longo de todo o mês de novembro sucederam-se os mais variados atos de vandalismo, havendo até relatos da época que contam que o mel e o azeite escorreram pelas ruas e o gado foi esfolado vivo.

Ao longo de vários anos sucederam-se esses atos de pilhagem, roubo e vandalismo puro, envolvendo a destruição de culturas, a morte indiscriminada de animais e ameaças de morte a homens, mulheres e crianças.

Ruínas de Alares

Ruínas de Alares. Por Paula Abreu

A população das três aldeias, assustada e exausta do conflito, foi aconselhada a abandonar os Alares e as outras povoações. Em setembro de 1924, o Governador Civil foi levado a intervir para repor a ordem, mas o conflito só viria a terminar em 1930 com a expropriação das terras por parte do Governo e a sua distribuição aos diferentes povos em parcelas equitativas (glebas) num sorteio justo e planeado.

Contudo, os habitantes dos Alares acabaram por fixar-se nas terras da Raiz – atual aldeia das Soalheiras -, o povo das Cegonhas (Velhas) criaram um pouco mais longe a aldeia de Cegonhas (Novas) e o povo da Cobeira distribui-se por estas, indo também alguns para Monforte, Malpica, Ladoeiro e Couto das Correias.

A guerra da desertificação do interior

Rosmaninhal

Rosmaninhal. Por Hipersyl

Hoje em dia, não há disputas pela posse destes terrenos, mas também não há gente. A aldeia dos Alares continua deserta até hoje e restam apenas as ruínas que contam a história de uma aldeia que nasceu e viveu do trabalho do povo que construiu o seu futuro do nada.

À volta das ruínas avistam-se algumas propriedades agrícolas, atualmente mais vocacionadas para a caça turística, uma vez que esta é uma região privilegiada para a caça, sobretudo veados, que se podem ver mesmo de dia e em grande número.

Mais de um século depois desta guerra, também o Rosmaninhal, ali bem perto, é agora ameaçado pela desertificação do interior. Daqui a alguns anos, quem sabe, as ruas e as ruínas dos Alares, a história da sua fundação e da guerra que a destruíram ficarão apenas guardadas nas monografias e nas memórias dos que ainda vivem nas aldeias vizinhas.

Casas de campo em Idanha-a-Nova

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