Monastério de São João de Tarouca. Por ChantalS

Ir em busca do Vale do Varosa implica poisar os olhos a norte de Portugal, entre Tarouca e Lamego. Este é um dos muitos recantos silenciosos, de paisagens magníficas, pontuadas por uma fauna e flora exuberantes. É também uma área denominada “território histórico”, marcada pela herança monástica. Os monges das ordens de Cister e dos Franciscanos criaram aqui raízes desde o início do reino. A eles se deve a edificação de grandes mosteiros, hoje em processo de reabilitação e restauro através do Projeto Vale do Varosa, criado pela Direção Regional de Cultura do Norte, desde 2009.

O que se sugere é uma visita por esse património, recentemente transformado em espaços museológicos, albergados em paredes por vezes com oito e nove séculos de história. O Convento de Santo António de Ferreirim, o Convento de S. João de Tarouca, a Capela de S. Pedro de Balsemão, a Ponte Fortificada de Ucanha e o Convento de Santa Maria de Salzedas formam um périplo riquíssimo.

É importante lembrar que estamos numa região vinhateira de eleição e pródiga na sua gastronomia. São muitos os manjares e receitas de doçaria engendrados, ao longo dos tempos, por frades e abades, nos seus retiros. A rede de monumentos do Vale do Varosa, que se dá a conhecer neste artigo, será um pretexto para outras descobertas em torno dos vinhos gerados nestas terras e da vasta mesa que se oferece. São estes os desafios deixados aos sentidos do viajante, à medida que for percorrendo os monumentos do Vale do Varosa.

Convento de Santo António de Ferreirim

Corre o ano de 1525 quando os monges franciscanos são agraciados com uma doação de terras feita pelo Conde de Marialva. Estas serão destinadas à construção do futuro convento. Hoje, o projeto Vale do Varosa integra na sua rede este monumento do concelho de Lamego. A traça manuelina ainda se vislumbra no pórtico da igreja que entretanto sofreu duros revezes.

Com a extinção das ordens religiosas no século XIX foi-se degradando, até restar apenas um rosto arruinado. Mais próximo de nós, entre 2001 e 2005, o edifício foi requalificado e passou a contar como centro interpretativo, essencial para perceber como se deu a sua fundação. O recheio possível também foi restituído aos nossos dias. Vale a pena apreciar oito tábuas pintadas pelos chamados “Mestres de Ferreirim”.

Mosteiro de S. João de Tarouca

A importância do Mosteiro de S. João de Tarouca é particular: foi aqui, em 1154, que a ordem francesa de Cister, se instalou pela primeira vez em território luso. Refira-se a ligação íntima entre a fundação desta ordem religiosa em Portugal, o início da nacionalidade e a figura do rei Afonso Henriques. Originariamente o convento era composto não só pelo templo mas também por outras dependências, integradas num terreno bastante vasto ali ao lado. Há indicação de que durante os séculos XVI e XVII estas terão sido ampliadas, dando-se destaque a um dormitório de dois pisos, construído naquele período.

Já no século XIX, com o Liberalismo e o fim das ordens religiosas ocorreria a venda destes edifícios em hasta pública. É deste modo que até o início do século XX aqui funcionaria uma pedreira. Mais recentemente, entre 1998 e 2010, este complexo monástico ganhou vida, por via da intervenção de especialistas em restauro, contrariando a degradação ditada pelo tempo e pela História dos homens. A inclusão do mosteiro no projeto Vale do Varosa, desde 2009, marca a revitalização de um património, pleno de curiosidades. Veja-se o cuidado no restauro do horto e ainda do antigo celeiro, hoje transformado em centro interpretativo. Além disso, a loja ali integrada vende o que ancestralmente os monges produziam a partir das plantas que a terra lhes dava em abundância. Daí a variedade de produtos feitos a partir da flor de sabugueiro na forma de cerveja, chá e infusões ou doces.

Capela de São Pedro de Balsemão

É no século X que se vê nascer a Capela de São Pedro de Balsemão. Fica num vale, protegida por uma montanha e serpenteada pelo Rio Balsemão, afluente do Varosa. Hoje faz parte de um solar seiscentista. Descobrir aqui influências visigóticas, muçulmanas e árabes é uma possibilidade real que tem o seu quê de desafiante.

Ponte Fortificada da Ucanha

Por Henner Damke

A Ponte Fortificada da Ucanha é construída entre os séculos XIV e XV. E, como quase sempre, naquele mesmo local, uma antecessora romana permitira, em eras anteriores, a travessia do Rio Varosa. Para além de facilitar as comunicações, esta ponte funcionava como portagem: quem a desejasse transpor teria de pagar, visto estar a passar por um couto monástico, neste caso o Mosteiro de Santa Maria de Salzedas.

De resto é a um dos seus abades, Dom Fernando, que se deve a ideia de a erigir. Já em 1465 iniciar-se-ia a construção da torre que aí se associa. A ponte corresponde a uma parte do caminho que ligava Lamego a terras interiores, passando por Moimenta da Beira e Trancoso. Mais perto de nós, em 2014, esta edificação vai integrar o projeto Vale do Varosa na sua segunda fase, beneficiando assim de trabalhos de reabilitação, essenciais para se mostrar de acordo com a traça inicial.

Mosteiro de Santa Maria de Salzedas

Por João Sousa

A Ordem de Cister funda, em 1168, este mosteiro. Mais tarde, no XVII, há obras de ampliação. Por essa altura o mosteiro ganha um novo e faustoso claustro. Este espaço serviu também de abrigo a artistas plásticos cujas obras integram hoje o seu espólio. É o caso de do pintor Vasco Fernandes, bem mais conhecido pelo nome de Grão Vasco, mas também de Bento Coelho da Silveira e ainda Pascoal Parente.

O destino deste mosteiro, com a implantação do regime liberal, replica o já relatado para os anteriores monumentos: a sua desagregação, com a igreja a tornar-se em lugar de culto paroquial; enquanto isso os privados adquirem as várias dependências. A sua recuperação progressiva foi possível bem mais tarde, ao ser classificado como Monumento Nacional, em 1997. Por fim, a abertura ao público acontece em 2011, depois de se juntar à rede Vale do Varosa em 2009, tornando-se um dos lugares mais visitados nesta região do Douro e Varosa.

Casas de campo em Portugal

Publique um comentário

* Estão marcados os campos obrigatórios.